Diversidade

‘O primeiro lugar a perpetuar o machismo não é a escola, é a família’, diz pesquisador

Para Fábio Mariano, a discussão sobre as masculinidades (no plural) aponta caminhos para romper com a ideia do homem como sujeito universal

Masculinidades, um dos próximos títulos da coleção Feminismos Plurais (Jandaíra), organizada pela filósofa Djamila Ribeiro, fala da urgência de se rediscutir os papéis atribuídos historicamente aos homens dentro da nossa sociedade. ” Esse tema que é um tema que chegou na minha vida na universidade, mas eu já estava envolvido nela a partir do momento que eu convivi com minha mãe. Eu vim de uma família que é uma família de mulheres”, avalia o autor, o advogado e pesquisador Fábio Mariano, enquanto aquilo que as instituições sociais hegemônicas definem como inerente ao comportamento masculino não for questionado pelos próprios homens, as estruturas machistas que reforçam a violência contra a mulher e o ódio a ‘masculinidades dissidentes’ não serão abaladas.

Mariano rechaça a existência de uma masculinidade hegemônica, para falar de masculinidades hegemônicas que disputam e – ao mesmo tempo – acentuam o poder entre si, cooptando o discurso e a ação de grupos considerados não hegemônicos.

Em entrevista a CartaCapital, Mariano, que é doutor em Direito pela PUC-SP, apresenta um pouco de sua trajetória intelectual e política, e ressalta que embora o tema ‘masculinidades’ seja cada vez mais debatido atualmente, da perspectiva histórica, os estudos em torno do assunto começaram a ganhar corpo somente a partir dos anos de 1980, “por provocação do movimento feminista”.

Confira a seguir.

CartaCapital: Do que falamos quando falamos em masculinidades, no plural?

Fábio Mariano: Estamos falando de um conjunto de atos e comportamentos. De entender quais são, ou o que são, esses comportamentos atribuídos às pessoas designadas ao nascer como homens, e que de alguma maneira são referendado no decorrer da vida delas. Por que estou falando aqui “a essas pessoas”? Porque a gente hoje discute essas questões de identidade e orientação. Pessoas que nascem com vagina e, no decorrer da vida, já não se reconhecem como sendo do sexo feminino. E também pessoas que nascem com pênis, mas não se reconhecem como sendo do sexo masculino.

CC: Que papel exerce a masculinidade plural nesse contexto?

FM: O de tentar desformatar essa caixinha em que nós fomos colocados. Essa caixinha que diz: “homens devem se comportar ou gostar ou ter tais atributos e mulheres devem se comportar, gostar e ter tais atributos”. Porque é isso que vai diferenciar uns dos outros. E a gente sabe que, hoje, isso já não é mais possível. É importante destacar o fato de que hoje estamos estudando não só ‘masculinidade’, mas ‘masculinidades’. Você tem um conjunto grande de exercícios de masculinidades. Um conjunto grande que está rompendo essa caixa designada pelas instituições sociais, em especial a medicina, a biologia e o direito.

Discutir masculinidades aponta caminhos para romper com esse pacto que há entre os homens. Romper com a ideia do homem como sujeito universal

CC: Como começou seu interesse no tema?

FM: Esse tema que é um tema que chegou na minha vida na universidade, mas eu já estava envolvido nela a partir do momento que eu convivi com minha mãe. Eu vim de uma família que é uma família de mulheres. Os homens tiveram pouca participação na educação dos filhos. Minha mãe trabalhou desde que eu era muito criança, ela foi metalúrgica em Santo André, foi empregada doméstica e no final da vida trabalhava como cozinheira num seminário de padres no Ipiranga. Desde muito cedo,  minha mãe e minhas tias trabalharam umas comunidades eclesiais de base. Eu via na minha família a força que as mulheres tinham. E isso sempre me fez questionar o fato de que havia algo ali que não era equânime.

Desde muito cedo, passei a questionar a falta de responsabilidade afetiva, mas também a falta de. responsabilidade social, financeira. Aquilo sempre me chamou a atenção e eu passei a trabalhar não só por uma política de igualdade entre homens e mulheres, mas por uma política de equidade, em que os homens devem assumir a sua responsabilidade. Se não for possível do ponto de vista afetiva, mas que seja do ponto de vista social.

Fábio Mariano e sua mãe Maria Jose Mariano da Silva

CC: O que são masculinidades não-hegemônicas?

FM: Se olharmos, por exemplo, para os homens asiáticos, há pouquíssimas discussões sobre masculinidades asiáticas; Da mesma forma, quando se fala de masculinidade negra, é sempre do lugar de desumanização. Quando comecei a estudar, me deparei com o termo masculinidade hegemônica, da socióloga australiana Raewyn Connell. Todo mundo que foge desse conjunto é uma masculinidade não-hegemônica, uma masculinidade dissidente. E não acho que tenhamos uma masculinidade hegemônica. Acho que há masculinidades hegemônicas. Porque estamos num campo de disputa de poder. E há muitos grupos hegemônicos disputando o poder.

CC: Qual a importância do debate sobre masculinidades?

FM: Discutir masculinidades aponta caminhos para romper com esse pacto que há entre os homens. Romper com a ideia do homem como sujeito universal, que está em tudo, onisciente, onipotente e onipresente. Discutir masculinidades é buscar uma nova forma de entender o comportamento, os atributos, os papéis que são designados aos homens. E isso demanda uma ação dos próprios homens. Porque as mulheres estão discutindo o feminismo há muito tempo. A questão é que agora estamos num limite. Se a gente quiser mudar essa política, mudar a estrutura racial, mudar a estrutura de classe e de gênero, a estrutura de sociedade, a gente precisa rever o papel dos homens.

CC: E como avançar mais?

FM: Para romper com essa política devemos romper com um sistema que continua tratando as mulheres da forma que trata. Por isso muitos grupos de masculinidades, para além de ações que podem ser consideradas terapêuticas, têm discutido a responsabilidade dos homens sobre o sistema capitalista; têm discutido a política do cuidado, a política da paternidade, a política econômica, a política da cultura. É isso que vai tirar o homem desse centro, da posição de sujeito universal, para dividir as responsabilidades com as mulheres. A antropóloga Carla Cristina Garcia diz que, se no século XX, as mulheres fizeram uma grande revolução; no século XXI, os homens é que devem fazer. E devem fazer no sentido de propor, de se aliar a uma política que seja uma política de igualdade com mulheres.

CC: Onde começa o machismo?

FM: As pessoas dizem que a escola é o primeiro lugar a perpetuar o machismo, eu discordo. Sempre digo que o primeiro lugar a perpetuar o machismo é a família. A família é o primeiro meio de perpetuação. Paul Preciado fala da escola e da violência da escola, eu concordo com ele em muitos aspectos, mas acho que o primeiro polo é os homens. Porque o pai já negocia com o filho como essa estrutura vai se dar. E depois o filho vai se comportando e convivendo com os primos, convivendo com os coleguinhas. Ou seja, o menino vai para a escola já com uma primeira ideia do que seja ser homem, de como você vai fazer. Na escola, do ponto de vista da educação, sempre existe uma linguagem que vai beneficiar os meninos.

Créditos: ACI PUC-SP

CC: As masculinidades não-hegemônicas podem reproduzir machismo?

FM:  O machismo vai fazendo isso, esse acordo. Ele vai procurar seus iguais, e aqueles que são diferentes, vai dar um jeito de cooptar. Há homens homossexuais que são extremamente machistas; há homens que são extremamente machistas, por exemplo, com mulheres trans e travestis. Ou seja, ele está reproduzindo exatamente aquilo que o patriarcado quer que ele reproduza. O machismo quer cooptar para si uma ideia de que há um ideal de virilidade e de perfeição que algumas pessoas não alcançam e que, portanto, dentro dessa estrutura, elas são menos.

CC: Seu livro traz à tona um conceito chamado suborno social. Poderia falar um pouco sobre ele?

FM:O suborno social é aquilo que o capitalismo faz com a gente. Ele rouba as nossas pautas, nos coloca como importantes, mas a gente continua ali, sem cidadania plena. O Estado tem políticas de saúde para a mulher, mas não quer dar absorvente para elas; o homem trans pode fazer a alteração do nome, mas não tem direito a uma política de saúde pública. Por que o Estado não discute a questão do serviço militar para pessoas trans? O Estado pratica suborno social porque faz ou dá a entender que nós temos direitos e que as instituições estão funcionando normalmente. Mas continuamos sendo o País que mais mata LGBTs, especialmente pessoas trans e pessoas negras jovens.

CC: Você acha que falta aos homens discutirem mais temas como o estupro, por exemplo?

FM: E essa é uma questão que está no centro de tudo. Mas se criou um pacto de silêncio. Há um silêncio por parte dos homens; são sempre as mulheres que estão provocando uma reação. Do ponto de vista do grupo, os homens não se manifestam, não se juntam, não se agrupam, para falar da violência que se comete contra as mulheres. E isso também em relação aos próprios homens. Os homens não falam da violência que sofrem, muitas vezes por sentirem vergonha, por se sentirem intimidados, diminuídos, menos homens.

Ou seja, o que se vê são ações isoladas. E a gente precisa discutir isso do ponto de vista coletivo. Porque há uma ideia de que o corpo da mulher é um corpo público. O corpo da mulher é um corpo que foi dado aos homens porque ele é um corpo imperfeito. Até Thomas Laqueur chegar, a ideia que se tinha é que existia um único sexo. Depois a ciência avançou e viu: “não. Há dois sexos”. Aí a mulher passou a ser o homem imperfeito. E essa ideia é uma ideia que se perpetua ainda hoje: de que, portanto, ela sendo menos, ela sendo imperfeita, eu posso fazer do corpo dela aquilo que no espaço público se faz: eu posso me apropriar dele. E essa é uma discussão que a gente tem que fazer.

CC – Em entrevista à Djamila Ribeiro você fala do lugar de fala e do lugar do falo. Qual a relação entre esses termos?

FM – A bell hooks fala que a gente passou de uma sociedade patriarcal para um sociedade falocêntrica – em que se valoriza aquele que tem um falo. Por outro lado, tem um amigo, que é o Rafael Rios, que sempre diz: “a gente saiu do lugar de fala para o lugar do falo”, porque os homens também sempre colocam o falo na frente. Por isso eles pactuam em torno da violência, da opressão, da tomada de todos os lugares e assim por diante. E eu quero sair desse lugar. E quero ajudar os meus a sair também, para que a gente possa constituir políticas em torno do comum, políticas de aliança. Para que a gente possa ter uma sociedade mais igual.

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