Entrevistas

Kajuru diz que Datena pode desistir de aliança com Bolsonaro e Tarcísio em SP

Senador classificou Bolsonaro como pior presidente da história do País e afirmou que o ex-capitão terá que aceitar a derrota, apesar das ameaças de golpe

Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado
Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado
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O senador Jorge Kajuru (Podemos-GO) classificou o presidente Jair Bolsonaro (PL) como o pior da história do Brasil e afirmou que o pré-candidato ao Senado José Luiz Datena (PSC) pode desistir de compor uma chapa com o ex-capitão e com Tarcísio de Freitas (Republicanos) em São Paulo.

Em entrevista a CartaCapital na terça-feira 17, Kajuru, que é amigo de Datena há 46 anos, revelou que não foi o presidente o fator decisivo para o apresentador fechar o acordo, mas sim uma conversa com Tarcísio de Freitas.

De acordo com o parlamentar, até o dia final para decisão sobre a candidatura, o apresentador da TV Bandeirantes pode repetir o que fez em outros anos eleitorais e optar por seguir a carreira de comunicador longe da política.

“Nesses dias, o Datena andou não concordando com uma entrevista que ele fez com o Tarcísio, que ficou valorizando demais o Bolsonaro e não falou o nome dele”, disse Kajuru. “Se o Datena perder a confiança em uma pessoa, acabou”.

Em 2018, o apresentador cogitou candidatar-se à Presidência, mas abandonou a ideia. Dois anos antes, ensaiou concorrer a prefeito de São Paulo para logo em seguida retirar a pré-candidatura.

Na conversa, Kajuru disse ainda que, ao contrário dele, Datena considera Bolsonaro um homem de “bom coração”. O senador, no entanto, tem outra opinião.

“Sem dúvida nenhuma é o pior [presidente da história do Brasil] em função das suas posições, da falta de respeito com a liturgia do cargo, das palavras que saem de sua boca e que a gente fica estupefato”, diz. “É o pior governo até na disputa com o Sarney”.

Sobre a polarização entre Bolsonaro e o ex-presidente Lula (PT), Kajuru não descartou um voto no petista no segundo turno, mas disse preferir Ciro Gomes (PDT) ou até mesmo o seu colega de partido Álvaro Dias.

Leia a entrevista:

CartaCapital: Como o senhor avalia o governo Bolsonaro?

Jorge Kajuru: Sem dúvida nenhuma é o pior [presidente da história do Brasil] em função das suas posições, da falta de respeito com a liturgia do cargo, das palavras que saem de sua boca e que a gente fica estupefato. Às vezes, se acha que o caso dele, como disse o [jurista] Miguel Reale, é de internação. No primeiro ano de governo dele, a gente ficou animado. Eu cheguei a ficar feliz com a postura da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, concordando com os meus projetos sobre prevenção do diabetes e doenças raras. De repente, começamos a perceber a vaidade dele. A saída do [Luiz Henrique] Mandetta do Ministério da Saúde foi por ciúme. A relação dele com Sergio Moro foi a mesma coisa.

No segundo ano de governo, com a pandemia, foi revoltante. Ele deveria ter sido interditado. Hoje ele ainda tem coragem de dizer: ‘mostrem um vídeo meu falando que era uma gripezinha’. Nas redes sociais, o pessoal coloca o vídeo porque ele falou. Eu fico muito indignado e insatisfeito com a pauta da educação no governo dele. Ele não tem noção do que representa a educação para o País. Veja os ministros que ele escolheu. É o pior governo até na disputa com o Sarney.

CC: O candidato do Bolsonaro em São Paulo será o seu amigo Datena. O que o senhor achou da aliança?

JK: Eu conheço o Datena há 46 anos e nunca vi um homem tão honesto e leal, além de ser preparado. O Datena discute qualquer assunto, ele leu mais do que viveu, discute Trotsky, Dostoievski, Homero… É um ser humano raro também.

Ele tem um coração muito grande. Ele teve desentendimento com Bolsonaro, mas o presidente ligava para ele e o Datena dizia para mim: ‘Fenômeno, eu gosto do presidente, ele tem bom coração’. Eu dizia: ‘olha, respeito a sua opinião, mas não vejo dessa forma’.

Eu, no entanto, reconheci que o Bolsonaro foi muito correto em escolher o Datena para o Senado. Não sei se ele realmente vai, porque nesse período, até o último dia que ele tem para definir a sua candidatura, pode haver alguma coisa no caminho que mude o pensamento do Datena. E o que pode ser? Palavra. Se você der a palavra e não cumpre, ele sai como saiu de vários partidos. Qualquer coisa errada do Bolsonaro, o Datena continuará falando do mesmo jeito.

CC: Por que ele escolheu justamente ser o candidato do Bolsonaro?

JK: Porque de todos que procuraram o Datena, o que ele mais gostou de conversar foi o Tarcísio de Freitas. Ele me disse que teve uma conversa de uma hora e meia com o Tarcísio e que gostou muito dele. O Tarcísio aceitou o Datena como ele é e os outros queriam mudar a cabeça dele. Mas se acontecer qualquer coisa errada, o Datena não será candidato e São Paulo perderá a oportunidade de ter o melhor nome no Senado.

CC: O senhor então não descarta a desistência do Datena?

JK: Eu não tenho nenhuma dúvida [que ele pode desistir]. Nesses dias, o Datena andou não concordando com uma entrevista que ele fez com o Tarcísio, que ficou valorizando demais o Bolsonaro e não falou o nome dele. Se o Bolsonaro tem aceitação em São Paulo, o Datena também tem, basta ver o que ele representa na televisão. Foi um erro que o Tarcísio cometeu e esse tipo de erro não pode ser cometido. Se o Datena perder a confiança em uma pessoa, acabou.

CC: Na eleição nacional, o senhor acha que há espaço para algum nome da Terceira Via?

JK: Para mim, o Ciro é o mais preparado de todos. Eu comecei entusiasmado, mas fiquei triste sem a união [entre os pré-candidatos]. A única chance que se tem é, em julho, algum desses candidatos da Terceira Via chegar a 20% das intenções de voto. Se até lá só tiver candidato garçom – é aquele dos 10% – esquece e se prepare para a polarização e para um Fla x Flu com torcidas organizadas.

CC: Em um segundo turno entre Bolsonaro e Lula, em quem o senhor vota?

JK: Não compareço às urnas. Nenhum dos dois é meu candidato. Meu sonho seria ver para a Presidência um nome como [o do senador] Álvaro Dias (Podemos). Ele teria uma aceitação inquestionável.

CC: Muitos colocam o Lula como alternativa à ameaça à democracia que Bolsonaro representa. O senhor o coloca nessa posição?

JK: Coloco. Não tem como discutir que o nome do Lula representa também a esperança de milhões de brasileiros que hoje não têm dinheiro nem para o ônibus para ir procurar emprego. Inclusive, amanhecem com a dúvida alimentar, que é o há de mais revoltante e humilhante para um País. Não se compara o ser humano Lula com o ser humano Bolsonaro. O Lula tem a história. No governo dele, nós vimos que as pessoas que não tinham condições de ter nada começaram a ter uma vida mais digna.

CC: O senhor elogiou o Lula e criticou o Bolsonaro. Por que não, em caso de segundo turno entre os dois, não optar pelo petista?

JK: Esta é a minha posição hoje, mas não tenho compromisso com o erro. Com a idade que o Lula está, eu penso que ele vai querer fazer história. Não vai querer voltar para fazer bobagem, principalmente no que tange a corrupção. De repente, lá para frente eu vou ter outra posição.

CC: Senador, o Bolsonaro tentará o golpe?

JK: Ele já está tentando. Não se pode discutir a urna eletrônica. Quantas vezes ele foi eleito por ela? Mas esses discursos têm feito muitos bolsonaristas mudarem de opinião sobre ele.

CC: Mas ele tem força institucional para o golpe ou ficará só nas ameaças?

JK: É só conversa, briga de torcida organizada. Ele vai ter que aceitar a derrota e acabou. Vai fazer o barulho que ele quiser. Ele mentiu para a sociedade ao dizer que não seria candidato à reeleição e o que ele fez desde o primeiro dia de governo foi só campanha para a reeleição. Se ele pudesse, ficaria a vida inteira como presidente.

CC: Como avaliou a decisão da Segunda Turma do STF de abrir seis ações penais contra o senhor por injúria e difamação?

JK: Foi 100% retaliação. Em uma quarta-feira seriam prescritos esses seis processos por opiniões minhas nas redes sociais contra um senador [Vanderlan Cardoso (PSD-GO)] e um ex-deputado [Alexandre Baldy]. Na calada da noite de sexta-feira, marcaram o julgamento para a terça-feira seguinte para não dar tempo do meu advogado entrar com a suspeição do Gilmar Mendes, que tem um processo contra mim em função do que já falei sobre ele. Foi um placar de 3×2, em que dois ministros respeitaram a Constituição e não rasgaram o artigo 53, que me dá o direito inviolável de opinião. Se chegar ao ponto da cassação, como não quero continuar na política, pois encerro o meu mandato em 2027, sairei da vida pública de cabeça erguida por dado uma opinião e cumprido o artigo 53 da Constituição.

Alisson Matos

Alisson Matos
Editor do site de CartaCapital. Twitter: Alisson_Matos

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