Entrevistas

‘Eu vejo racistas no poder’, diz Macaé Evaristo

A educadora e parlamentar mineira considera as próximas eleições uma espécie de plebiscito, no qual o Brasil poderá decidir pelo humanismo

A educadora e política Macaé Evaristo - Foto: Arquivo Pessoal
A educadora e política Macaé Evaristo - Foto: Arquivo Pessoal
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Filha de uma professora, a educadora Macaé Evaristo iniciou sua trajetória na educação em 1984. Ao longo desse percurso, prestes a completar quatro décadas, testemunhou com olhos e ouvidos atentos os avanços e retrocessos na luta pelo direito humano à escolarização. 

“A educação foi o meu mecanismo de sobrevivência, de construção de independência, de garantir que eu pudesse criar minhas filhas”, relembra. “Toda minha caminhada está vinculada à educação.”

Ex-secretária de Estado da Educação de Minas Gerais (2015-2018) e hoje vereadora em Belo Horizonte pelo PT, ela agora se prepara para o desafio de disputar uma cadeira na Assembleia Legislativa.

Nesta entrevista concedida a CartaCapital por chamada de vídeo, ela faz duras críticas ao atual governo. “Eu vejo racistas no poder. Eu vejo os herdeiros do escravismo no poder”. Também comenta a conquista do espaço público por negros e negras, a exemplo da chegada ao poder de Francia Márquez, eleita vice-presidente na Colômbia. “Cada vez que uma mulher negra chega nesses lugares, eu fico pensando nas milhões de meninas negras que começam a se ver nessas posições.”

No Brasil, avalia, as próximas eleições serão uma espécie de plebiscito, as próximas eleições uma espécie de plebiscito, no qual o Brasil poderá decidir pelo humanismo. “Estou muito otimista, mas bem realista. Acho que nós temos uma grande chance de eleger um projeto humanizador.”

Confira, a seguir, os destaques da entrevista.

CartaCapital: Em um país em que as mulheres negras têm sido excluídas dos espaços de poder e de decisão, historicamente, como é para a senhora ocupar um lugar de destaque na cena política?

Macaé Evaristo: Nós precisamos estar nesses lugares. Quando ocupamos um lugar como esse, de maior visibilidade, eu sempre penso na importância de mostrarmos que isso tem de ser naturalizado. Eu fui secretária de Educação de Minas Gerais, a primeira secretária negra no século XXI. O que significa, para milhares de alunos da rede estadual, uma secretária negra? O que significa para milhares de crianças e jovens negros verem uma pessoa que poderia ser sua irmã, sua avó, sua mãe nesse lugar? Precisamos colocar esses espaços como lugares possíveis de serem alcançados. 

CC: Há diversos estudos a respeito da violência política contra parlamentares negros, sobretudo, contra as mulheres negras. Como a senhora vê essa questão?

ME: Uma das questões do racismo no Brasil é que o tempo todo somos colocados em uma posição de subalternidade, de negação de determinados lugares para nossa presença. Quando se é mulher negra, quando se é homem negro no espaço político e isso é colocado como um marcador, é claro que você vai sofrer tentativas de interdição de maneira muito forte e muito veemente. Veja o que vem acontecendo com o vereador Renato Freitas (PT) na Câmara Municipal de Curitiba, que está enfrentando um processo de cassação completamente absurdo. É de uma indignação, de uma violência, de uma crueldade!

A crueldade não é só com o Renato. A crueldade é com as pessoas negras. É como se dissessem: pessoas negras, não queiram trazer sua voz, seu pensamento, suas causas para esse espaço. Esse espaço não é de vocês. É esse conflito que está posto cotidianamente. Nós estamos lutando para ampliar a participação e passamos a enfrentar um outro movimento, que é a tentativa permanente de interdição da nossa ação política com ameaças de morte, cassação de mandatos e ataques nas páginas pessoais da internet. 

CC: Entre 2013 e 2014, a senhora foi servidora do MEC, estando à frente de projetos da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi), que foi extinta pelo governo do presidente Jair Bolsonaro. De que forma a senhora analisa a falta de investimentos, os sucessivos cortes de verbas por parte do Ministério da Educação?

ME: Eu vejo a volta de um projeto que havia sido derrotado no final do século XIX com a abolição da escravatura. Eu vejo racistas no poder. Eu vejo os herdeiros do escravismo no poder. Eu vejo esse desmonte da educação como um projeto político, que quer impor um pensamento único no Brasil. Para impor um pensamento único, é fundamental atacar a educação, a ciência, a tecnologia e a cultura. Estão destruindo toda política educacional que nós construímos no processo de redemocratização do país, deixando as universidades à míngua, sucateando os institutos federais, acabando com o financiamento para pesquisas.

Estão destruindo as escolas da educação básica. Isso não está acontecendo somente no Governo Federal. Também tem se alastrado nos Estados, que querem entregar as escolas públicas para organizações privadas. Isso é um absurdo. É o desmonte da escola pública. 

CC: Que reflexões a senhora faz a respeito das eleições presidenciais da Colômbia, em que Gustavo Petro e Francia Márquez, candidatos da esquerda, foram vitoriosos?

ME: Acho fundamental destacar a importância da eleição de Gustavo Petro e Francia Márquez para a questão da Amazônia. Se assim como eles, o ex-presidente Lula for eleito, pela primeira vez na história teremos a oportunidade de ver uma conjuntura latino-americana em que a Floresta Amazônica será coordenada por governos de esquerda. Talvez seja uma oportunidade única de promover políticas públicas de proteção da floresta e dos povos que vivem nesse território. Isso tem a ver com o futuro da humanidade, com a sobrevivência do planeta. Pensando nas palavras do Ailton Krenak, vejo a presença de governos de esquerda em torno da Amazônia como uma excelente ideia para “adiar o fim do mundo”. 

CC: Como a senhora recebeu a notícia da eleição da Francia Márquez, a primeira vice-presidenta negra da história da Colômbia?

ME: Eu estava na torcida, seguindo a Francia em todas as redes sociais, curtindo tudo que ela postava. Cada vez que uma mulher negra chega nesses lugares, eu fico pensando nas milhões de meninas negras que começam a se ver nessas posições, a enxergar isso como uma possibilidade para suas vidas. A Francia tem uma trajetória muito importante de engajamento, de luta popular. Eu fiquei muito feliz. Sei que não foi fácil para ela chegar à vice-presidência da Colômbia. Foram necessárias inúmeras batalhas. E agora, com a Francia eleita, sabemos que ela terá inúmeros desafios pela frente. 

CC: Quais são as expectativas da senhora em relação às eleições presidenciais de outubro?

ME: Nós estamos diante de uma eleição que é quase um plebiscito: com qual projeto o Brasil vai seguir enquanto sociedade? Estou muito otimista, mas bem realista. Acho que nós temos uma grande chance de eleger um projeto humanizador nas próximas eleições. Um projeto em defesa da vida, um projeto em favor da nossa soberania nacional, um projeto antirracista. Essas são as minhas expectativas. Tenho trabalhado fortemente para que tudo isso se concretize.

 

Luana Tolentino

Luana Tolentino
Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. É autora do livro 'Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula' (Mazza Edições)

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