Entrevistas

Dificilmente Bolsonaro reverte a derrota para Lula, dizem autores de livro sobre eleição

Em entrevista, Alberto Carlos Almeida e Tiago Garrido explicam o favoritismo do petista e ponderam que a força política do atual presidente deve permanecer

Foto: Sergio Lima / AFP
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O presidente Jair Bolsonaro (PL) dificilmente terá condições de reverter sua derrota para o ex-presidente Lula (PT) na eleição de outubro. É no que apostam o cientista político Alberto Carlos Almeida e o politólogo e professor Tiago Garrido, autores do livro ‘A mão e a luva – O que elege um presidente’, lançado nesta semana pela editora Record.  Na obra, os autores analisam como as pesquisas de opinião refletem o sentimento público antes do pleito e influenciam os resultados

Segundo eles, a disputa presidencial deste ano, como outras, tem como principal característica o desejo do eleitorado por mudança.

“Quando a maioria quer mudança, a tendência é de vantagem sempre daquele que é mais conhecido e que não tenha uma rejeição alta”, diz Almeida a CartaCapital, em referência o favoritismo de Lula. Dada a situação econômica e fiscal do País, aposta ele, é improvável que Bolsonaro consiga melhorar a sua avaliação.

A mais recente pesquisa do Datafolha, divulgada na semana passada, indica uma vantagem de 21 pontos percentuais do petista sobre o atual presidente. Outro levantamento, do instituto Ipespe, põe o ex-capitão como o mais rejeitado entre os pré-candidatos — 59% declararam não votar ‘de jeito nenhum’ nele. Já Lula é rejeitado por 43%.

“Quando o Lula encerra o seu segundo mandato, tinha uma popularidade acima dos 80%. Quando se chega em 2018,  tinha mais de 60%”, lembra Garrido. “Houve uma redução, mas a imagem dele continua associada a temas importantes para o eleitor, como consumo, mobilidade social e melhora de vida. Aí está a resiliência do ex-presidente”.

A força política de Bolsonaro, contudo, não deve minguar com um revés em outubro, avaliam ambos.

“Um ex-presidente é sempre uma figura muito importante. Ainda mais Bolsonaro, que zela por manter o seu eleitorado mais fiel”, diz Almeida. “Ele continua no jogo, pelo menos em termos de opinião pública”.

Na conversa, os estudiosos ainda analisam as chances de Ciro, o impacto da falta de debates presidenciais, e o xadrez eleitoral nos estados.

Confira a seguir.

CartaCapital: No livro, vocês citam que “as crenças do eleitorado sobre a situação no País estão postas antes do período eleitoral”. Isso quer dizer que as campanhas não serão suficientes para mudar  tendências?

Alberto Carlos Almeida: Um governante mal avaliado, no ano da eleição, costuma dizer que fez muita coisa, mas que há um problema em sua comunicação. Ele acha que a propaganda vai melhorar a avaliação dele. Já a oposição que enfrenta um governo bem avaliado diz que, na campanha eleitoral, vai desconstruir o governo. Mas em ambos os casos, não acontece assim tão fácil. As pessoas já têm uma crença pré-estabelecida de que um determinado governo é bom ou ruim, não é algo que se muda da noite para o dia. Até pode variar a avaliação de governo, mas acontece lentamente. A queda e melhora na avaliação tendem a ser lentas.

CC: Isso explica, portanto, o favoritismo de Lula?

AC: Desde o ano passado, a maioria da população quer mudança no governo. Toda eleição, por definição, tem somente um candidato de governo e vários de oposição. Quando a maioria quer mudança, o eleitor olha para as opções que tem. E a tendência é a vantagem sempre daquele que é mais conhecido e que não tenha uma rejeição alta.

CC: A condenação e os processos na Lava Jato não desgastaram a imagem do ex-presidente? 

Tiago Garrido: Quando o Lula encerra o seu segundo mandato, ele tinha uma popularidade acima dos 80%. Quando se chega em 2018, ele ainda tinha uma popularidade de mais de 60%. Houve uma redução, mas a imagem dele associada a temas importantes para o eleitor, como consumo, mobilidade social e melhora de vida, é muito difícil de desconstruir. Aí está a resiliência do ex-presidente.

CC: Um fato desmistificado no livro é que, em 2018, o Bolsonaro teria sido eleito por conta da facada e pelas fake news. Dadas as características daquela eleição, de busca por alguém contrário ao sistema, se o Lula fosse candidato as condições seriam as mesmas?

AC: Em uma das pesquisas que fiz naquele ano, foram dadas aos entrevistados as características principais dos candidatos. Sobre Bolsonaro, eu disse que ele nunca havia sido candidato a presidente. Quando se dizia isso, ele liderava a intenção de voto. Agora, é impossível responder se Lula venceria ou não. As condições ali eram antissistema, em que o eleitor olhou para todos aqueles que governaram o País nos últimos anos, PT, MDB e PSDB, e disse um não para todos eles. O eleitor rejeitou esses três partidos e foi atrás de alguém que nunca teve papel importante na política e, portanto, foi visto por ele como alguém de fora do sistema. Com o Lula candidato, essas condições estariam presentes, porque ele tinha pertencido a essa elite que governou o Brasil nos últimos anos.

CC: As condições também estão dadas agora em 2022 em que o cenário é de mudança. Se o candidato do PT fosse o Haddad e não o Lula, o favoritismo seria o mesmo?

TG: Pensando que o eleitorado deseja uma mudança do quadro é bem possível que qualquer candidato do PT estaria liderando as pesquisas, pois simbolizaria o perfil de mudança e estaria associado a questões que são mais importantes para os eleitores hoje, como o desemprego e a inflação.

AC: O PT é um partido político que atua com essas bandeiras, para o bem e para o mal. Quando a opinião pública favorece o que o PT representa, ela favorece também todos os quadros do partido. O Haddad, o PT e o Lula foram derrotados pelo Bolsonaro em 2018 e agora, em 2022, a maioria percebe que a vida não melhorou e decidiu votar no PT de novo.

Lá atrás, a avaliação e imagem pessoal de Lula pioraram na medida em que piorou a avaliação do governo Dilma. Nos 12 meses que antecederam o impeachment, a série do Datafolha mostrava que Dilma tinha 10% de ótimo e bom. Foi um ano inteiro com essa avaliação e foi o pior período para a rejeição de Lula. O eleitor não gostou do governo Dilma e isso cai na conta do PT e do Lula. Essa lógica funciona para os momentos de vacas magras e de vacas gordas.

CC: O governo da Dilma, para a imagem do Lula, foi pior do que a Lava Jato?

AC: É difícil separar. A rejeição de Lula vai piorando até o mês do impeachment, abril de 2016. Quando a Dilma deixa o governo, a rejeição do Lula vai diminuindo. Na medida que o PT foi afastado, a rejeição foi diminuindo drasticamente. Portanto, o desempenho do governo Dilma teve um impacto gigantesco sobre a imagem de Lula.

CC: Muitos analistas apontaram erros de comunicação do PT, criticaram declarações do Lula sobre aborto e sobre o Zelenscky na Ucrânia. As pesquisas de opinião, no entanto, mostraram um crescimento do ex-presidente no período. Como se explica?

TG: Essas falas, que a gente no livro chama de micro-acontecimentos, são bem difíceis de interferir no processo eleitoral. Tem um bloco de eleitores que sempre vota na direita, outro que sempre vota na esquerda e tem aquele que sempre alterna a sua escolha. É este público que permite a alternância de poder ora para direita e ora para esquerda. Ele está muito interessado em pensar o voto de acordo com a melhora ou piora de vida. Esses micro-acontecimentos dificilmente chegam na ponta com a intensidade em que as vezes a gente repercute nas redes sociais.

CC: Esta eleição pode ser definida no primeiro turno? Para isso, o Ciro precisaria desistir?

TG: As pessoas acham que será simbólico vencer no primeiro turno, mas isso não muda a forma de governo, não vai tornar a gestão melhor ou pior e nem vai tornar mais fácil ou mais difícil a articulação no Congresso. Em relação à desistência, a gente percebe que na reta final de campanha muitos eleitores vão deixar de votar em determinado candidato para votar em um outro favorito. Em 2018, a Marina Silva terminou com 1% dos votos. Ela começou muito melhor nas pesquisas, mas na na reta final ela cai incrivelmente.

CC: Por que o Ciro não se tornou um candidato viável em uma eleição que é de mudança?

AC: A política é uma briga de cachorro grande. Existem situações excepcionais em que algumas pessoas sem importância na política se beneficiam, e Bolsonaro foi uma delas. A França tem passado por um período longo de deslocamento das duas maiores forças. Após a Segunda Guerra Mundial, se alternavam no poder os socialistas e gaullistas/republicanos e, em 2017, o país sofreu um terremoto: pela primeira vez, nenhum dos dois foi ao segundo turno. Acontece, mas é raro. A França passou por isso, mas a Alemanha não, o Reino Unido não e a Espanha também não. Essa dificuldade é enfrentada pelo Ciro aqui no Brasil. E tem coisas adicionais: ele começou a sua carreira política no campo da direita e rompeu com ela, foi migrando para a esquerda e vem rompendo as pontes com ela.

CC: No livro, vocês tratam das eleições que ocorreram no pós-ditadura no Brasil. Há alguma semelhante a esta de 2022?

TG: Podemos comparar com a eleição de 1998, mas com sinal trocado. Na época, tinha o candidato favorito, que era o presidente Fernando Henrique Cardoso, e tinha o opositor, o Lula, que disputava a terceira eleição presidencial e era também muito conhecido. Hoje, o cenário tem semelhanças: o atual presidente buscando a reeleição e o opositor muito conhecido. A diferença é que o opositor lidera as pesquisas.

AC: É parecido, inclusive, no terceiro colocado. Em 1998, foi o Ciro e hoje também é.

CC: O quadro para o Bolsonaro pode se alterar positivamente? O que seria preciso ele fazer para reverter a provável derrota?

AC:  A situação fiscal do País é muito ruim, pois a pandemia obrigou o governo a gastar muito, e isso dificulta qualquer recuperação em curtíssimo prazo. Todas as medidas que o Bolsonaro poderia tentar esbarram na falta de capacidade de investimento. O governo dificilmente reverte esse quadro. Houve uma pequena melhoria em função da possiblidade de voltar a gerar empregos em atividades que exigem aglomeração, mas isso já passou, já foi sentido. Logo após veio a guerra na Ucrânia. Para o eleitorado, a piora na vida não tem a ver com a guerra. Isso não existe. Os políticos educam o eleitor a vê-los como responsáveis pelos acontecimentos. Eles dizem: ‘votem em mim porque se eu chegar no poder a sua vida vai melhorar’. Portanto, se a vida piora o eleitorado vai culpá-lo também.

No governo Lula, por exemplo, tem gente que diz que ele teve um bom desempenho por conta do super ciclo de commodities. O eleitor não quer saber, ele pensa o seguinte: ‘minha vida melhorou e o Lula é o responsável’. Já no da Dilma, muitos dizem que a vida piorou por conta das pautas bombas do Eduardo Cunha, mas o eleitor não quer saber disso. O eleitor sempre atribui responsabilidade àquele que está no governo, no cargo de presidente.

CC: Uma situação que começa a ser ventilada é a ausência de Lula e Bolsonaro nos debates. Do ponto de vista eleitoral, eles têm algo a perder?

TG: Os candidatos podem até valorizar os debates para apresentar as suas ideias, mas é pouco provável que uma participação seja capaz de mudar o cenário eleitoral. Isso vale também para entrevista em algum canal de grande audiência. É pouco provável que essas participações sejam capazes de aumentar ou diminuir a intenção de voto em algum candidato. Caso nenhum dos dois participe será uma situação inédita, mas com pouco impacto no humor do eleitor.

AC: Toda campanha tem os seus rituais e o debate é um deles. Não significa que tenha impacto decisivo na campanha. Os debates, em geral, apenas reforçam os votos já consolidados, mas dificilmente mudam a escolha.

CC: Em 2018, e vocês citam isso no livro, o Bolsonaro ocupou um espaço que foi do PSDB em eleições anteriores. Essa ocupação tende a perdurar pelos próximos anos? 

AC: Vai depender de alguns outros resultados, por exemplo, quem vencerá a eleição para governador de São Paulo. O Haddad está bem posicionado, a conjuntura é favorável ao PT no estado, mas se o Tarcísio de Freitas vencer – e qualquer governador de SP vira uma estrela nacional -, o Bolsonaro fica bem. Tem também a dúvida sobre qual destino a elite política vai querer dar a Bolsonaro. Prender, eu acho que não vai querer, mas será que vai torná-lo inelegível? Tudo depende dessas variáveis, mas é claro que um ex-presidente é sempre uma figura muito importante, ainda mais Bolsonaro que zela por manter o seu eleitorado mais fiel. Ele continua no jogo, pelo menos em termos de opinião pública.

CC: A tendência de mudança a nível nacional de alguma forma reflete nas eleições para governadores e para senadores e deputados?

TG: No caso das eleições estaduais, a disputa pela Presidência interfere muito pelo fato de acontecerem juntas. As alianças feitas são sempre visando esse alinhamento entre presidente, governador e senador. Eu fiz um levantamento recentemente e notei que todos os candidatos a senador que venceram no Rio de Janeiro nas últimas eleições foram eleitos com o apoio do presidente que venceu. O Sergio Cabral em 2002 foi o último a ser eleito sem esse apoio. Portanto, essa aliança costuma ser muito importante.

Assista a entrevista completa:

Capa do livro recém-lançado

Alisson Matos

Alisson Matos
Editor do site de CartaCapital. Twitter: Alisson_Matos

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