Economia

Comparar os governos é a chave para quebrar resistência a Lula no agro, diz Carlos Fávaro; leia a entrevista

A CartaCapital, o coordenador da campanha em Mato Grosso afirma notar a redução do antipetismo na região: ‘Converse com as pessoas e verá’

Geraldo Alckmin, Carlos Fávaro, Lula e Neri Geller. Foto: Ricardo Stuckert
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O ex-presidente Lula (PT) escalou o senador licenciado Carlos Fávaro (PSD-MT), integrante da bancada ruralista no Congresso Nacional, para coordenar sua campanha em Mato Grosso.

Ex-presidente da Associação dos Produtores de Soja, Fávaro dividirá com o vice de Lula, Geraldo Alckmin (PSB), a tarefa de quebrar resistências à chapa no agronegócio.

Em julho, Fávaro, Alckmin e Lula se reuniram, acompanhados do deputado federal Neri Geller (PP-MT), outro aliado a integrar a bancada ruralista. O ex-presidente é esperado em Mato Grosso nas próximas semanas.

Em entrevista a CartaCapital na terça-feira 9, Fávaro admitiu ser um desafio manifestar-se a favor de Lula em um setor que nos últimos anos esteve dominado pelo bolsonarismo. Ele disse confiar, porém, na comparação entre o governo do ex-capitão e os mandatos do petista na Presidência da República.

O aliado também avalia que o sentimento antipetista, um fator decisivo no pleito de 2018, não terá o mesmo peso neste ano, mesmo em estados como o Mato Grosso, onde Bolsonaro arrebatou mais de 66% dos votos no segundo turno contra Fernando Haddad (PT).

Confira os destaques da entrevista:

CartaCapital: Por que decidiu apoiar Lula na eleição deste ano?

Carlos Fávaro: A eleição é um momento em que os candidatos levam a esperança ao coração das pessoas. Foi assim com Lula em 2002 e foi assim em 2018 com Jair Bolsonaro. O ingrediente a mais nesta eleição é que, neste momento em que polarizaram as duas candidaturas, temos a oportunidade de comparar os dois governos. E é gritante como o presidente Lula foi melhor para os brasileiros, em todos os aspectos.

No desenvolvimento econômico, na sustentabilidade, na produção sustentável e no mais importante: as questões sociais. Acabando com a miséria e a fome e trazendo dignidade às famílias com programas como o Minha Casa, Minha Vida e o Fies. Os avanços foram gigantes. Compare com o que foi feito pelo governo Bolsonaro, muito pouco ou quase nada além de brigas, intrigas, deboche, desdém da dor das famílias na Covid, conflitos internacionais, desdém do Mercosul. Tudo isso atrapalha as nossas relações comerciais mundo afora.

O Brasil sempre foi um País de diplomacia exemplar, não podemos retroagir. Por isso, decidi e temos de trabalhar para que Lula volte a ser presidente. Para que ele possa pacificar esta Nação, voltar a gerar dignidade social, emprego, estabilidade da inflação. Ele sabe fazer isso e já fez quando foi presidente.

CC: Quais os principais fracassos de Bolsonaro no agro que podem ser explorados pela campanha de Lula?

CF: Primeiro, como pode buscar conflito com seu principal parceiro comercial? Buscar um conflito com a China é fechar as portas do mercado internacional para os produtos brasileiros. Não reconhece [rapidamente] a vitória do Biden nas eleições dos Estados Unidos. Quando o Trump é o presidente, aí ele se alia a ele, que é nosso concorrente, deixando de lado os nossos parceiros compradores dos nossos produtos.

A política adotada com relação à Amazônia, aonde grileiros e baderneiros foram tacar fogo e destruir a Floresta. Com isso aí o mundo inteiro está em choque, está em colapso. Já, já vamos sofrer restrições de mercado por conta dessa política de desrespeito ao meio ambiente. Além de descontrole da inflação, e aí a taxa de juros disparou. Hoje temos os financiamentos para o agronegócio com juro de 12,5% ao ano. É proibitivo, é impagável.

Lembrando que foi o presidente Lula quem regulamentou a CTNBio, que trouxe segurança à população brasileira e internacional com relação a transgênicos. Um órgão científico. Foi no governo Lula que as grandes obras de infraestrutura permitiram que a produção avançasse em lugares distantes, como a pavimentação da BR-163, de Mato Grosso ao Pará; a BR-364, de Mato Grosso até a divisa de Rondônia; a BR-242, de leste a oeste, que vai chegar à Bahia saindo de Mato Grosso; a construção de todos os portos do Arco Norte, com exceção de Itacoatiara, no Amazonas, que já existia. Todos construídos pelo presidente Lula ou no governo dele com a presidenta Dilma.

Se Mato Grosso tem um terminal rodoferroviário gigante, competitivo, que trouxe vitalidade à produção e ao transporte da produção mato-grossense a partir de Rondonópolis, foi inaugurado pela presidenta Dilma, feito nos governos Lula e Dilma.

Planos Safras sucessivos, programa de modernização da frota com juros de 2,5% ao ano e oito anos para pagar pelo equipamento. Isso permitiu duas revoluções: no campo, com a agilidade na produção de alimentos, plantar na hora certa e colher na hora certa, com equipamentos novos e eficientes; e na cidade, com a indústria de equipamentos para agropecuária, gerando empregos e oportunidades.

Então, esse conjunto de obras para o agronegócio é inquestionável ao comparar o que Lula fez e o que o Bolsonaro fez, a não ser criar conflitos, desrespeito ao meio ambiente, desrespeito às relações comerciais internacionais, aumento do custo de produção e aumento da taxa de juros.

CC: Em 2018, Bolsonaro venceu com facilidade no Centro-Oeste. Em quatro anos, o antipetismo diminuiu e o bolsonarismo cresceu na região?

CF: Sem sombra de dúvidas. As pessoas em que foi plantada aquela semente de esperança em 2018 e se decepcionaram.

Hoje, tendo uma boa oportunidade para comparar os dois governos, muitas delas estão optando por buscar de volta o presidente Lula, para que possamos pacificar esta Nação.

Converse você com os amigos, com as pessoas e verá o tanto de gente insatisfeita com o modo de governar de Bolsonaro. Quantas famílias sofreram com a pandemia, perderam seus entes, e ele debochando da dor das famílias? Você acha que essas pessoas não estão decepcionadas e querem um estadista que pacifique o País e tenha sensibilidade com o ser humano? O Lula representa isso.

CC: Qual a importância de Alckmin para quebrar resistências a Lula no agro?

CF: Ele é o grande símbolo do que o Lula está se propondo a fazer, que é pacificar o Brasil. Um adversário histórico, de 20 anos, convidado a ser vice. E mais: em todas as reuniões, inclusive com o agronegócio, ele nos chamou e disse: “Construam um plano para o agronegócio. Quem vai pilotar é Aloyzio Mercadante e quem vai tocar é o Geraldo Alckmin”. É a busca de um adversário histórico para que juntos possamos pacificar e trazer de volta o crescimento, a estabilidade, o combate à fome, as políticas sociais. É o maior gesto de quem está pensando no Brasil.

Ele falou uma frase para mim que, como não pediu sigilo, vou dizer: “Eu não quero ser o candidato do PT, eu quero ser o candidato de juntar as forças democráticas e pensar em um País melhor”. Essa frase é muito forte e foi um dos fatores que me fizeram refletir e decidir apoiá-lo.

CC: Qual foi a reação do agro, como sindicatos e produtores, à sua decisão de apoiar Lula?

CF: As manifestações de apoio, que são muitas, vêm de forma pessoal, privada. Porque as contrárias são raivosas. Existem no Brasil hoje verdadeiros talebans das redes sociais, que não aceitam o debate democrático.

Eu não quero radicalizar com quem pensa diferente, quero poder debater democraticamente e respeitar as posições contrárias. Mas há uma milícia digital que não aceita o debate, são só ataques infundados, pejorativos, pessoais, e isso não faz bem para a democracia. Sou a favor do debate, do antagonismo de ideias, para que possamos, a partir daí, construir um País melhor.

CC: Quais os principais desafios da campanha de Lula em Mato Grosso?

CF: Primeiro, e não é só em Mato Grosso, reacender a esperança do povo brasileiro. Mostrar aquelas famílias que voltaram a passar fome, que tinha sido erradicada no Brasil. Hoje temos em Mato Grosso a fartura na produção de grãos e gente na fila do ossinho. Precisamos acabar com isso.

Plantar a esperança de que a vida vai melhorar de novo, de que as coisas vão acontecer, os programas sociais vão acontecer. De que a pacificação com relação ao meio ambiente será um ativo para o brasileiro, não um motivo de chacota internacional e de perplexidade com o que estão fazendo com a Amazônia.

As políticas econômicas de desenvolvimento, de infraestrutura, o passo seguinte nas terras tecnológicas, com as fintechs. Os algoritmos a favor da produção e do desenvolvimento, não como milícia digital usada para propagar o ódio. Esses são os componentes que serão levados na eleição em Mato Grosso e no Brasil para que possamos vencer com o presidente Lula.

CC: Bolsonaro distorce o MST para lançar o agronegócio contra Lula. A campanha está pronta para responder a isso?

CF: É importante estabelecer alguns mitos que são pregados no presidente Lula e não são verdade. Foi no período de Lula e Dilma que se estabeleceu a lei de que área invadida não é passível de Reforma Agrária.

Eu sou favorável à Reforma Agrária, sou fruto dela. Sou fruto de pequenos produtores que buscaram um pedaço de terra para continuar exercendo sua vocação de produzir alimentos. Cheguei em Mato Grosso há quase 40 anos em um município que era um assentamento de Reforma Agrária, hoje Lucas do Rio Verde. A Reforma Agrária tem esse papel de desenvolvimento social, econômico e sustentável ambientalmente.

Você nunca vai ver o presidente Lula incentivar a invasão de terras e de propriedades particulares, e a lei já mostra isso. Isso você não viu acontecer no governo dele, como também não viu incentivo ao desmatamento ilegal na Amazônia, também não viu brigas internacionais com nossos parceiros comerciais.

Ao contrário, ele foi um verdadeiro mercador dos nossos produtos, saiu mundo afora abrindo as relações comerciais, com a Ásia (grãos e fibras), o Oriente Médio (carnes)… Isso fez com que o Brasil avançasse muito nas relações comerciais internacionais.

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