‘Bolsonarismo é junção de autoritarismo político, conservadorismo moral e neoliberalismo econômico’

Professor de Direito e ativista, Renan Quinalha descreve a CartaCapital livro que relata a repressão da ditadura contra LGBTs

O professor Renan Quinalha, autor de livro sobre repressão contra LGBTs na ditadura, vê semelhanças nos discursos do regime com os do atual governo. Foto: Reprodução/Facebook

O professor Renan Quinalha, autor de livro sobre repressão contra LGBTs na ditadura, vê semelhanças nos discursos do regime com os do atual governo. Foto: Reprodução/Facebook

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Autor do livro Contra a moral e os bons costumes: a ditadura e a repressão à comunidade LGBT, recém-lançado pela editora Companhia das Letras, o professor de Direito e ativista Renan Quinalha detalhou a CartaCapital uma série de impressões sobre os casos de violência contra a população LGBT desde o período do regime militar até os dias de hoje.

 

 

O livro é dividido em quatro capítulos. No estudo, Quinalha investigou práticas como prisões arbitrárias, torturas e extorsões a LGBTs entre 1964 e 1988, a partir de documentos da Comissão Nacional da Verdade, da qual participou como consultor para assuntos de gênero e sexualidade, e de outros acervos.

Entre os temas abordados estão as perseguições policiais, as censuras à abordagem do tema na imprensa e as iniciativas de resistência do movimento LGBT. Segundo o professor, havia uma diferença entre os tratamentos dados pelo regime aos movimentos de luta armada e à população LGBT.

“A ditadura não teve o mesmo padrão de repressão para todos os grupos. As violências variavam conforme o público-alvo”, disse Quinalha em entrevista a CartaCapital no Instagram.

“Se, em relação à luta armada, a ditadura teve uma política de extermínio e desaparecimento dos corpos, em relação à população LGBT a ditadura, além de prender, vigiar e censurar, também tentava dessexualizar o espaço público, para tirar não deixar que os LGBTs ficassem visíveis. Não era um extermínio físico, mas era um extermínio simbólico bastante forte em relação à existência das pessoas LGBTs.”

O pesquisador diz observar um discurso de que “o Brasil não teve uma ditadura tão violenta”, e o que se viu na pesquisa foi exatamente o contrário: a brutalidade do Estado foi tamanha, especialmente contra minorias, que há dificuldades para inventariar todas as suas expressões. No campo moral, diz o professor, a ditadura tentou barrar discussões de gênero e sexualidade, como o direito ao divórcio, no caso das mulheres, e à vivência LGBT.

A ditadura fica ainda mais dura no campo moral na década de 1970, analisa o professor, em um momento em que precisava compensar a sua perda de autoridade do ponto de vista político diante da reorganização da oposição.

“Travestis e transexuais tinham maneiras de fugir dessas operações policiais. Quando vinham os policiais para prendê-las, elas sabiam que sofreriam presas, sem nenhuma acusação formal, sob tortura e extorsão, e então elas se cortavam com giletes para serem levadas aos hospitais, e não para as delegacias”, relata o especialista.

 

As pessoas trans se mutilavam para escapar da prisão, diz Renan Quinalha.

 

É surpreendente ver como os discursos da ditadura militar contra a população LGBT são semelhantes aos do atual governo, de Jair Bolsonaro, avalia o especialista. Em sua visão, na eleição do ano que vem, os candidatos do campo progressista cometerão um erro se deixarem a pauta LGBT em segundo plano, com o pretexto da necessidade de derrotar a extrema-direita a qualquer custo. Para Quinalha, é possível construir um programa que convença a população que votou em Bolsonaro em 2018 a ver como relevantes as discussões de igualdade de gênero e sexualidade.

“É preciso que a gente entenda que o bolsonarismo é uma junção entre autoritarismo político, conservadorismo moral – ou seja, ódio à população LGBT – e neoliberalismo econômico. Nós só vamos derrotar o bolsonarismo se o derrotarmos nessas três frentes”, examina.

O livro está a venda no site da Companhia das Letras por 89,90 reais. Assista à íntegra da entrevista:

 

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Repórter do site de CartaCapital

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