‘A distribuição de absorventes precisa estar vinculada à percepção que há outros problemas de saúde ligados à pobreza’

A ginecologista Halana Faria explica o que é a pobreza menstrual e fala de seus custos para o futuro do País

Halana Faria: a pobreza menstrual decorre da desigualdade econômica e social interseccionada com a desigualdade de gênero (Foto: Manu d'Eça/Instagram)

Halana Faria: a pobreza menstrual decorre da desigualdade econômica e social interseccionada com a desigualdade de gênero (Foto: Manu d'Eça/Instagram)

Entrevistas

Infelizmente, Simone de Beauvoir não disse algo errado quando afirmou que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. O veto de Bolsonaro à distribuição gratuita de absorventes para pessoas de baixa renda revela, mais ainda, a pobreza da sua estratégia política.

Ora, dizer que os direitos básicos das mulheres, como saúde e educação, custam caro, é (para os já que gostam de andar armados) um tiro no pé. A dignidade menstrual causa impactos enormes na saúde, higiene e qualidade de vida das mulheres, meninas e pessoas trans e não binárias. Protegidos das manchas, odores e piadas, essas mentes e corpos deixam de estar fora da escola ou do mercado de trabalho. Sem eles, não há laço social possível, nem cordão umbilical cortado. E nem lucro.

Desde pequenas, pela falta, as meninas aprendem a mais valia na prática. Os corpos das mulheres são facilmente mercantilizados: seus úteros (nem todos) produzem filhos. Sua mão de obra custa mais barato, além do trabalho doméstico não remunerado a elas facilmente designado. Para esclarecer o que é a pobreza menstrual, CartaCapital entrevista Halana Faria, médica ginecologista, mestre em saúde pública pela Faculdade de Saúde Pública USP e educadora em saúde no @ginecologiafeminista.

Confira a seguir.

CartaCapital: Após o veto de Bolsonaro à distribuição de absorventes, o termo “pobreza menstrual” ficou em evidência. Como você define a pobreza menstrual?

Halana Faria: Pobreza menstrual é um problema que afeta mulheres, meninas e pessoas que menstruam ao redor do mundo. Implica na falta de acesso a produtos menstruais e lugares higiênicos e seguros onde possam usá-los, mas também em vergonha e estigma relacionados à sua ocorrência.

Claramente, este é um problema que decorre da pobreza como desigualdade econômica e social interseccionada com a desigualdade de gênero. Um problema talvez, até então, invisível. E que, por isso, não deve ser visto isoladamente mas em conjunto com outras questões relacionadas à saúde sexual e reprodutiva.

A manutenção de uma realidade fisiológica como tabu favorece a medicalização dos corpos, tão rentável em uma sociedade capitalista

CC: Porque a menstruação ainda é um tabu?

HF: Essa pergunta tem muitas respostas, depende do contexto e época a qual estamos nos referindo. Há muitas culturas em que a menstruação é considerada um poder que confere às mulheres algum grau de autonomia, principalmente sobre a atividade sexual.

Acreditamos que a menstruação como tabu tenha origem nas religiões patriarcais. Em Levítico, há uma passagem que descreve como tudo que uma mulher menstruada tocar será impuro. O filósofo naturalista romano Plínio (23 – 79 d.C) escreve sobre a menstruação em seu Naturalis Historia: “O contato com ele torna o vinho azedo. As plantas que entrarem em contato com ele se tornam estéreis. As sementes do pomar secam. As frutas das árvores caem”. Os gargalos em termos de pesquisa científica também não contribuem para uma mudança nesse sentido, já que até tão recente quanto 1950, ainda acreditava-se que o sangue continha conteúdo tóxico. Existem muitas perguntas sem resposta sobre a função fisiológica da menstruação para além do seu papel na reprodução.

Acredito ainda que a manutenção de uma realidade fisiológica como tabu favorece a medicalização dos corpos, tão rentável em uma sociedade capitalista. Por exemplo, o discurso que afirma que a menstruação é inútil (A sangria inútil, Elsimar Coutinho) faz com que setores mais abastados da sociedade desejem suprimir a menstruação através do uso de métodos hormonais. Manter a população ignorante sobre aspectos de sua fisiologia e sexualidade é uma forma eficaz de manter o poder nas mãos da medicina.

Essa questão de pobreza menstrual, ainda que real, é muito mais palatável à opinião pública. Ninguém em sã consciência, que não seja o facínora, poderia se opor a algo tão óbvio

CC: Na medicina, quando estudamos algumas doenças (como o câncer de colo de útero, por exemplo), a renda e as condições de vida, aparecem diretamente ou nas entrelinhas. Como as questões sociais de classe, influenciam o acesso à saúde sexual e reprodutiva?

HF: É impossível falar sobre um conceito de saúde sem falar das desigualdades sociais, raciais e de gênero. No Brasil, a intersecção entre classe e raça faz com que mulheres negras sejam as que mais morrem pela realização de abortos inseguros, no parto, sofram mais violência obstétrica.

O câncer de colo do útero é uma doença de países pobres, matando no Brasil mulheres pobres sem acesso a serviços de saúde e informação. E há um grande paradoxo aí, porque quem mais faz exames uterinos de rotina e rastreio são pessoas de classe média, sofrendo inclusive por esse excesso de exames com sobrediagnósticos e sobretratamento.

CC: Além do acesso a absorventes, como a pobreza influencia a saúde das mulheres?

HF: Acho bem importante que, quando a gente fale de pobreza menstrual, inclua essas outras temáticas que estão absolutamente intrincadas. A distribuição de absorventes a quem sofre por não poder trabalhar ou ir à escola precisa estar vinculada à percepção que há outros problemas de saúde, também ligados à pobreza.

A gravidez não planejada e indesejada está mais presente entre pobres por falta de acesso à contracepção adequada, mulheres pobres estão mais sujeitas a relações abusivas nas quais a negociação do uso de preservativo é mais problemático. Há uma série de problemas afetando meninas, mulheres e pessoas que menstruam que decorrem de pobreza e desigualdade social e de gênero.

Seria interessante que o debate sobre pobreza menstrual pudesse costurar esses problemas, que são complexos. Isso não significa que seja menos importante fazer o veto do facínora que nos governa cair, mas que é preciso pensar em conjunto com a saúde pública estratégias de educação em saúde que  pensem soluções para esses problemas de forma conjunta.

CC: Considerando sua experiência clínica, quais medidas de saúde pública e decisões políticas devem ser tomadas para favorecer a saúde das mulheres e meninas?

HF: Pensando em questões mais estruturais, acesso à educação e informação para a vivência livre e segura de sua sexualidade, acesso a trabalho digno e a legalização do aborto. A gente precisa, enquanto sociedade, tornar informações sobre contracepção mais acessíveis e não depender somente dos serviços de saúde para isso. É problemático demais que isso esteja apenas nas mãos de médicos e médicas. As escolas e outras organizações dentro da sociedade deveriam estar aptas a debater e oferecer informação e acesso à contracepção segura.

Tentando fazer uma cuidadosa crítica a essa questão de pobreza menstrual, é que esse problema, ainda que real, é muito mais palatável à opinião pública. Ninguém em sã consciência, que não seja o facínora, poderia se opor a algo tão óbvio quanto à necessidade de que as pessoas tenham acesso a absorventes para poder estudar e trabalhar. Já a compreensão sobre a necessidade de legalizar aborto enfrenta muito mais barreiras, principalmente no contexto político em que vivemos. E encontra menos eco na política cotidiana.

CC: Qual é o papel da educação sobre esse tema? E a quem cabe educar e agir ?

HF: Além de uma questão de saúde pública, educar para a dignidade menstrual exige distribuição de renda, ou seja, uma política econômica que não lucre sobre a pobreza. A gente precisa que professores/as e escolas tenham liberdade para falar de fisiologia e sexualidade sem serem perseguidas. Como questão de saúde pública que é, o acesso à informação e produtos de higiene menstrual precisa ser ofertado em escolas e serviços de saúde bem como identificar com dados claros o quanto sua falta representa em termos de evasão escolar, falta no trabalho e adoecimento.

Além disso, a sociedade civil organizada também pode contribuir compartilhando acúmulo de debate sobre esse tema e formas de fazer. Mulheres de camadas médias têm difundido produtos menstruais como absorventes de pano reutilizáveis, calcinhas menstruais e copos coletores. A produção de alguns desses itens pode gerar renda em comunidades carentes como mostram várias iniciativas e pode ser um motor para conversas sobre fisiologia menstrual, sexualidade e outros temas. Mas antes a gente precisa entender como as pessoas veem esses produtos.

CC: Bolsonaro agiu e falou diversas vezes de maneira sexista, fazendo apologia à violência ou desvalorizando questões importantes da luta feminista. Na sua clínica, você vê impactos diretos desses discursos?

HF: A arma de Bolsonaro contra as políticas de inclusão das diversidades e acesso a direitos sexuais e reprodutivos, seja na educação ou na saúde, não está só no campo do simbólico. Seu governo representa um retrocesso inigualável do que avançamos nas últimas décadas.

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Médica, escritora e mestranda em psicanálise na Sorbonne em Paris

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