Educação

Surdos cobram reconhecimento da Libras em processos seletivos acadêmicos

O direito à acessibilidade existe no papel, mas sua aplicação em provas ainda depende da leitura de cada banca

Surdos cobram reconhecimento da Libras em processos seletivos acadêmicos
Surdos cobram reconhecimento da Libras em processos seletivos acadêmicos
(Foto: iStock)
Apoie Siga-nos no

Problemas de acessibilidade em processos seletivos recentes no Instituto Federal Catarinense e na Universidade de São Paulo mostram como candidatos surdos ainda dependem da decisão de cada banca para saber se poderão fazer uma prova em condições compatíveis com sua língua e suas necessidades. No centro da disputa está a falta de critérios uniformes sobre como a Libras deve ser garantida em concursos, mestrados e outras avaliações acadêmicas.

No caso do IFC, 45 candidatos surdos denunciaram ao Ministério Público Federal que recursos de acessibilidade previamente aprovados para o concurso de professor de Libras não foram cumpridos no dia da prova. Entre os problemas relatados estão a ausência de guia-intérprete para candidatos surdos-cegos, falhas na tradução em Libras e dificuldades de compreensão do exame.

Um dos candidatos, Habdel Haussanm, afirma que viajou mais de três horas para realizar a prova e, ao chegar ao local, foi orientado a iniciar o exame sem o profissional de apoio autorizado pela banca.

“Eu sou surdo-cego. Como eu iria fazer uma prova se não consigo enxergar e não tinha o recurso que havia sido autorizado?”, critica.

Ainda segundo os denunciantes, o edital previa adaptações como intérprete de Libras, prova ampliada, ledor e tempo adicional, mas parte dessas medidas não teria sido de fato oferecida.

Na Universidade de São Paulo, a controvérsia recai sobre o modelo de avaliação. Dois candidatos surdos ao mestrado da Faculdade de Educação afirmam que a seleção exigiu respostas exclusivamente em português escrito, sem possibilidade de produção em Libras, língua que apontam como sua primeira língua.

“A USP quer avaliar minha pesquisa ou o que sei de português?”, questiona Alexandre Melendes, um dos candidatos.

Os dois casos têm naturezas diferentes, mas apontam para o mesmo impasse. No IFC, a queixa é sobre recursos aprovados e não cumpridos. Na USP, sobre a impossibilidade de responder em Libras. Em ambos, a garantia de acessibilidade depende menos de uma regra institucional clara e mais da interpretação de cada banca.

A professora Ana Claudia Balieiro Lodi, pesquisadora da área de educação bilíngue de surdos, afirma que essa variação decorre de leituras diferentes da legislação. Segundo ela, embora a Lei de Libras e o Decreto 5.626/2005 reconheçam a língua de sinais como meio legal de comunicação, a aplicação em processos seletivos ainda não segue um padrão.

“Há instituições que entendem a Libras apenas como ferramenta de tradução do conteúdo da prova”, explica. “Outras reconhecem a possibilidade de produção acadêmica em Libras.”

Quando a Libras é vista apenas como tradução, o candidato pode acessar o enunciado, mas precisa responder em português. Quando é reconhecida como língua de produção acadêmica, a resposta em Libras pode ser gravada em vídeo, traduzida posteriormente e avaliada pelo conteúdo.

Na própria USP, os critérios variam entre unidades. Na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, candidatos surdos já realizaram provas com respostas em Libras registradas em vídeo. Já na Faculdade de Educação a exigência foi diferente: apenas respostas em português escrito.

Eles também afirmam que não tiveram acesso ao edital em Libras e que o intérprete presente na sala atuava apenas em momentos pontuais de esclarecimento. “Faculdades como UFPR e UFSC já dispõem desse mecanismo. Por que a USP não?”, questionam.

Na prática, candidatos surdos relatam que precisam provar, caso a caso, o direito a condições de avaliação compatíveis com sua língua e suas necessidades.

Segundo dados do IBGE, no terceiro trimestre de 2022, 63,1% das pessoas com deficiência com 25 anos ou mais não tinham instrução ou não haviam concluído o ensino fundamental. Entre pessoas sem deficiência, o percentual era de 32,3%.

No ensino superior, a diferença também é expressiva: apenas 7,4% das pessoas com deficiência haviam concluído a graduação, contra 19,5% das pessoas sem deficiência.

Embora o levantamento não detalhe separadamente a população surda, pesquisadores da área apontam que barreiras linguísticas e institucionais ajudam a explicar essa desigualdade, especialmente em trajetórias escolares marcadas pela mediação constante entre Libras e português.

Essa instabilidade, somada à baixa presença de pessoas com deficiência no ensino superior, reforça um obstáculo anterior à própria prova.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo