Suicídios na USP expõem fragilidades de políticas de acolhimento e permanência

Pelo menos três estudantes da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) tiraram a própria vida nos últimos dois meses

Coletivos de estudantes fizeram ato após suicídio de Ricardo. Créditos: Reprodução/ Instagram por felipe@dawson

Coletivos de estudantes fizeram ato após suicídio de Ricardo. Créditos: Reprodução/ Instagram por [email protected]

Educação

Dois meses depois, o 25 de maio ainda se faz presente entre os moradores do Conjunto Residencial da USP. Na data, o estudante Ricardo Lima da Silva, que cursava a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH),  tirou a vida nas dependências do condomínio onde morava. Entre os ‘cruspianos‘ permanece a sensação de tristeza por ter perdido um colega e a certeza de que o suicídio do jovem não representa um caso isolado.

Os números não os deixam mentir: nos últimos dois meses, ao menos três estudantes da universidade tiraram a própria vida.

 

 

“Embora ele fosse do meu curso e morador do Crusp, eu não o conhecia. Mas, quando recebi a notícia, me afetou como se fosse um grande amigo, porque eu me reconheci nele”, relatou à reportagem um estudante que preferiu não se identificar.

Para ele, as tragédias reforçam a necessidade de a instituição dar respostas à questão da saúde mental dos universitários, mas não só. “A saúde mental é um problema estrutural da universidade, não só da USP, que já nos atingia antes, mas que se agravou muito com a pandemia e a precarização das nossas vidas”, completa.

“Temos questões muito latentes entre nós, como a instabilidade emocional, financeira, a falta de perspectiva, de acolhimento da universidade. Isso tudo recai com ainda mais força sobre a população das moradias estudantis, que é a de maior vulnerabilidade social e econômica.”

Morador do Crusp desde 2015, o estudante Gustavo Salmazo entende que falta um olhar integral da universidade à comunidade, para além da relação estudantil. “Nós não somos só estudantes. Para além de termos esse espaço como um local de conhecimento e produção científica, é também onde moramos, trabalhamos, estabelecemos nossos afetos. A nossa luta é para que possamos ter melhores condições de vida no geral.”

Em conversa com CartaCapital, os estudantes relataram um cenário de precarização na moradia estudantil, gerida pela Coordenadoria de Assistência Social da USP. As reclamações vão de falta de estrutura material à falta espaços de convivência, escuta, e participação nas decisões da universidade.

 

Na foto, pias e fogão das cozinhas coletivas quebrados; iluminação precária nos corredores; e cerca marcada por uma tentativa de suicídio em 2018. Créditos: Arquivo Pessoal

 

Acolhimento e permanência devem responder ao novo perfil de estudantes

Professores e pesquisadores da USP entendem que as ações para acolher o sofrimento psicológico dos estudantes precisam estar amparadas em políticas de acolhimento e permanência que não percam de vista as mudanças de perfil socioeconômico vivenciadas pela universidade.

Este ano, pela primeira vez na história, a USP teve mais da metade de seus calouros vindos de escolas públicas. Das 10.992 vagas preenchidas, 51,7% foram ocupadas pelos alunos que estudaram na rede pública, o que não acontecia desde 1995 quando a instituição passou a registrar o perfil dos ingressantes. Entre os novos matriculados, 44,1% se autodeclararam pretos, pardos e indígenas. Desde 2018, a universidade aderiu ao sistema de cotas raciais e sociais, com reservas de vagas para estudantes vindos das escolas públicas, e autodeclarados pretos, pardos e indígenas.

Das 42 unidades da USP, 30 alcançaram a meta de 50% de estudantes vindos de escolas públicas. 12 ainda não. Na capital, as que tiveram maior índice de inclusão foram: Faculdade de Educação, com 51,5%; Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH), na Zona Leste, 51%; Instituto de Ciências Biomédicas (ICB), 50%; e Instituto de Oceanografia (IO), 50%. As que ficaram mais distantes da meta foram as Faculdades de Medicina: 41,1%; Poli, de Engenharia: 41,5%; e Faculdade de Direito, no Largo São Francisco, 49,3%.

Para o professor do Departamento de Geografia da USP Eduardo Donizeti Girotto a universidade precisa atuar para reconhecer as desigualdades que acompanham os estudantes, identificar como essas questões impactam a vida estudantil e agir para combatê-las.

“Com a ampliação do sistema de cotas, você vai ter de fato situações de estudantes que precisam ser melhores acolhidos pela universidade, porque eles vêm de uma situação de vulnerabilidade maior”, aponta o professor, que vem conduzindo uma pesquisa na FFLCH junto a alunos cotistas com o intuito de propor uma política diferente de acolhimento.

“Hoje nós não temos isso, os alunos que são aprovados para a Universidade apenas chegam. Precisamos estruturar uma política com os devidos recortes de raça, gênero, para que os alunos possam se reconhecer naquele espaço, sobretudo os pretos, pardos e indígenas. Ainda vemos um descompasso nesse sentido”, aponta o professor, que também vê a necessidade de se repensar demais práticas da instituição em diálogo com as identidades que por ela transitam.

“Essa chegada desse estudante declarado preto, pardo e indígena é a presença e um corpo negro que, muitas vezes, não se identifica com o que ele vê na universidade. É importante enegrecer a USP em todos os aspectos, não apenas do ponto de vista de quem a ocupa, mas dos currículos, debates, políticas. Por isso a necessidade dessa política de acolhimento com recorte racial, é diferente de pensar uma política geral”, avalia.

“Uma aluna que orientei, Amanda Benedetti, do curso de Geografia, fez um levantamento importante de quais foram os textos de autores e autoras que ela leu durante a graduação e percebeu que 92% deles eram de homens brancos, europeus. Não adianta termos apenas um processo de reserva de vagas, mas que não mude as lógicas internas da universidade”, completa o pesquisador.

 

“Sofrimento dos estudantes não deve ser olhado de uma perspectiva individual”

Para o professor doutor em Ciências pela Faculdade de Saúde Pública da USP, Thiago Marques Leão , a universidade precisa modificar a forma de olhar para o sofrimento psíquico dos estudantes, geralmente conduzido a partir de uma perspectiva individual.

“Parece meio óbvio associar o sofrimento psíquico ao indivíduo e tentar ao máximo entender o que aquele determinado indivíduo está passando. Mas, ao fazer isso, a gente perde de vista o que está no entorno, as questões institucionais envolvidas, as de conjuntura, as sociais, que muitas vezes acometem determinados grupos mais do que outros”, avalia.

Leão conduz uma pesquisa de pós-doutorado que investiga a relação entre o sofrimento psíquico dos estudantes e a universidade em tempos de crise. Em agosto de 2020, o pesquisador entrevistou 190 estudantes da área da Saúde Pública e, em agosto deste ano, vai convidar os estudantes da FFLCH a responderem aos questionários.

“O que apareceu até aqui é que o sofrimento dos estudantes está relacionado à universidade. Me surpreendeu ver que a pandemia aparecia como pano de fundo. Isso evidencia que, embora a crise política e sanitária sejam fundamentais para entender o cenário, ao mesmo tempo não são suficientes”, reconhece.

 

 

Para o pesquisador, parte do sofrimento e da angústia dos estudantes tem a ver com uma quebra de expectativas deles em relação ao papel da universidade diante às transformações sociais, políticas e econômicas vivenciadas pela sociedade.

“Antes se tinha muita clareza de qual seria seu futuro depois da universidade: ingressar no mercado de trabalho. Agora não se tem mais. Com isso, tudo parece estar menos claro, qual o papel do estudante na universidade, o que ele vai poder realizar para a sua comunidade, sua família. São uma série de pressões que os estudantes não têm como responder e que a instituição não dá elementos para que eles respondam. Com isso se tem uma generalização de pessoas na universidade sem referenciais de como atuar nela, o que pode ser problemático”, avalia.

A pesquisa também destacou que a cobrança exercida pela universidade quanto a entregas e produtividade é uma das causas centrais para a ansiedade e sofrimento psicológico estudantil. “A universidade está inserida nesse contexto amplo da sociedade, que diz sobre todo mundo desempenhar ao máximo. Mais do que uma universidade produtivista, a gente tem uma universidade de desempenho. Se exige não só objetivamente a entrega de um trabalho, mas o quanto você se dedicou a ele, reforçando a ideia de que só temos sucesso pelo sofrimento, pelo sacrifício, uma romantização do passar as noites em claro estudando”, ressalta.

Para o pesquisador, a conduta é perigosa já que, novamente, transfere para o indivíduo questões que devem ser avaliadas e revistas dentro de um coletivo. “Não é uma crise econômica generalizada, sou eu que não me esforcei o suficiente para conseguir um trabalho, eu que não trabalhei o suficiente”, alerta. Leão ainda pondera que os efeitos podem ser ainda mais prejudiciais a grupos de estudantes mais vulneráveis, caso dos que não têm uma boa base de educação prévia ou poucos referenciais de uma universidade. “Sem dúvida quem não tem essas referências podem ter intensificadas sua experiência de sofrimento”, atesta.

Girotto e Leão reconhecem que a universidade não dará conta de dar todas as respostas aos estudantes sozinha, mas reforçam a necessidade da estruturação de políticas e ações voltadas ao coletivo para que as questões do cotidiano possam ser discutidas. Também entendem ser necessárias melhorias nas ações já existentes, caso do atendimento prestado pelo Escritório de Saúde Mental da Universidade.

“Os alunos ainda o veem como burocrático, mandam email, recebem uma resposta automática e uns dias depois um encaminhamento oficial. Quem está em sofrimento psíquico não pode receber uma mensagem gerada automaticamente, é preciso rapidez”, expõe Eduardo Donizeti Girotto. O professor deu aulas para o estudante Ricardo, mas disse não ter ficado sabendo que ele se encontrava em situação de sofrimento. Após o suicídio do jovem, coletivos como o Centro de Estudos Geográficos da USP denunciaram que Ricardo foi vítima de racismo institucional e que, inclusive, teria pedido apoio à instituição, mas não obteve respostas. O coletivo fez um ato no dia 25 de junho, data que marcou um mês do suicídio do estudante.

 

Girotto também ressaltou a necessidade das informações sobre os estudantes saírem de uma lógica vertical.

“Se um aluno abre alguma queixa no serviço social, ao invés disso voltar para o departamento que é onde o aluno está mais integrado, a informação vai para os níveis mais elevados da universidade, como a a reitoria de graduação, e se perde. Precisamos que essa informação volte ao departamento para que possamos tentar algum tipo de ação”, conclui.

 

O que diz a USP

Em conversa com a reportagem de CartaCapital, o professor titular do Instituto de Psicologia e superintendente de Assistência Social, Gerson Tomanari, reconheceu o aumento do sofrimento psicológico por parte dos estudantes e dos casos de suicídio na instituição. “O sofrimento mental e os casos de suicídios nessa faixa etária tem acometido jovens no mundo inteiro. Nós saímos daquela fase em que esses casos eram muito localizados em algumas culturas e países, isso faz parte da sociedade como um todo, e a universidade, como parte dela, tem refletido esse aumento”, colocou.

Ele ainda colocou que não há uma solução simples e única para enfrentar o cenário, mas que a USP vem atuando de maneira multidimensional para promover uma vivência universitária ampla aos estudantes. Tomanari destacou a atuação do Escritório de Saúde Mental da universidade, em funcionamento desde 2018, e de serviços de apoio psicológico e psiquiátricos disponíveis na instituição, nas diferentes cidades dos campus, como rodas de conversa e saraus. Na linha da saúde mental integrada, o superintendente também citou a atuação do Escritório de Desenvolvimento de Carreiras, local onde os estudantes podem ter apoio de tutores para pensarem sobre suas carreiras e discutir seus interesses profissionais; e do Escritório de Atividades Físicas e Esportes, que presta informações sobre saúde, nutrição, e ainda promove socialização dos estudantes por meio do esporte.

Quanto à situação dos moradores do Crusp, Tomanari afirmou que será feita a reforma dos blocos da moradia estudantil, de maneira progressiva, e que o anúncio aos estudantes deve ser feito nesta semana semana; ainda afirmou que a universidade vai construir cozinhas e lavanderias coletivas em caráter emergencial. Por fim, destacou a breve inauguração, entre os blocos da moradia, de um Centro de Referência ao Atendimento do Estudante, que reunirá serviços de assistência social, bem como serviços de passe escolar e venda de tickets para o restaurante universitário. No quesito saúde mental, o superintendente reforçou que os estudantes da moradia tem um atendimento dedicado de dois psicólogos da SAS, em forma de plantão pelo Whatsapp.

De acordo com a USP, 550 estudantes estão no Crusp durante a pandemia. A universidade oferece cerca de 2500 vagas de moradias estudantis em seus campi da capital, Piracicaba, São Carlos, Ribeirão Preto, Bauru e Pirassununga. Para ter acesso à moradia, os estudantes passam por uma avaliação socioeconômica. Os estudantes optam pela vaga ou pelo auxílio financeiro (R$ 500,00 mensais). Cerca de 10.000 estudantes recebem, atualmente, o auxílio financeiro, o que representa aproximadamente 20% do total de estudantes de graduação. Os estudantes em situação socioeconomicamente vulnerável recebem ainda auxílio alimentação (café da manhã, almoço e jantar) nos restaurantes universitários de forma totalmente subsidiada pela USP.

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Repórter do site CartaEducação

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