Militante, como está a sua saúde mental?

'Atravessamos um período bem triste e conturbado da história recente do Brasil e do mundo', escreve Franklin Félix

Foto: iStock

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Diálogos da Fé

“Ai daqueles que pararem com sua capacidade de sonhar, de invejar sua coragem de anunciar e denunciar. Ai daqueles que, em lugar de visitar de vez em quando o amanhã pelo profundo engajamento com o hoje, com o aqui e o agora, se atrelarem a um passado de exploração e de rotina.” Paulo Freire

Quando eu era criança, queria exercer uma profissão que pudesse ajudar as pessoas a serem mais felizes e por isso escolhi a psicologia. Nesses mais de quinze anos de formação, tenho tentado equilibrar minha militância religiosa com os saberes psicológicos. Eu sou um psicólogo religioso e um religioso psicólogo. Atrelar profissão e militância, às vezes, também pode ser bem desafiador.

Como psicólogo e religioso, acredito e defendo uma psicologia laica, plural, dialógica e científica.

“Não existe oposição entre Psicologia e religiosidade, pelo contrário, a Psicologia é uma ciência que reconhece que a religiosidade e a fé estão presentes na cultura e participam na constituição da dimensão subjetiva de cada um de nós. A relação dos indivíduos com o ‘sagrado’ pode ser analisada pela(o) psicóloga(o), nunca imposto por ela(e) às pessoas com as quais trabalha.” Nota pública do Conselho Federal de Psicologia de esclarecimento à sociedade e às(os) psicólogas(os) sobre Psicologia e Psicologia e religiosidade no exercício profissional.

Mas, antes de tudo, preciso dizer sobre os dois pontos que me motivaram escrever sobre este tema.

O primeiro diz respeito a preocupação que tenho tido com a saúde mental de vários/as dos meus/minhas amigos/as militantes. Este texto é para vocês!

O segundo ponto tem a ver com minhas observações, em especial, nas redes sociais, já que boa parte das militâncias têm se dado no contexto virtual.

A internet e as mídias digitais, cada vez mais presentes em nossas vidas, têm instituído uma nova forma de elaborarmos discursos e militarmos. Contudo, ao mesmo tempo em que as redes sociais se tornaram grandes aliadas, a instantaneidade com que comentários positivos e negativos chegam até a plataforma tem sido um desafio constante.

Tenho notado, com uma certa frequência e preocupação, “boas pessoas” cometendo práticas ruins, reprováveis e comprometedoras. Explico: é fato que temos de superar os binarismos bem-mal, certo-errado, legal-ilegal, porque somos uma “mistura complexa de bem e de mal”, para além de sermos inconstantes e dos nossos comportamentos dependerem, em muito, do contexto em que estamos inseridos, como destaca o professor Christian Miller, mas não podemos agir da mesma maneira que agem nossos opositores, aqueles a quem combatemos e abominamos, sob o risco de nos tornamos um deles.

Eu não posso me alegrar com a doença de nenhum ser humano, não posso me satisfazer com a dor alheia e tampouco posso desejar a morte de quem quer que seja.

 

Você já parou para pensar se sua militância é excludente ou inclusiva, é vaidosa ou dialógica?

 

 

E também já parou para pensar como está a sua saúde mental e que o modo com que você milita pode lhe adoecer? Alguma vez refletiu se os seus pensamentos, ideias, sonhos, desejos e sentimentos estão em harmonia com quem você verdadeiramente é?

Atravessamos um período bem triste e conturbado da história recente do Brasil (e do mundo), marcado pelo avanço dos conservadorismos, dos fundamentalismos, da naturalização da mentira como ferramenta política e de manipulação, da criminalização dos saberes científicos e da perseguição aos movimentos sociais, aos militantes de esquerda, defensores e defensoras de direitos humanos (feministas, antirracista, LGBTQIA+) e aos ativistas do meio ambiente e ecologia.

Atualmente, o que vemos é um governo que não só não cria ou se preocupa com políticas públicas visando o bem-estar e a segurança de ativistas e militantes, mas também reproduz um discurso violento e normatizador.

Tudo isso, somados aos avanços do coronavírus e a necessidade de distanciamento social, tem feito com que militantes adoeçam, comprometendo a saúde mental individual e coletiva, gerando angústia, depressão, ansiedade ou até mesmo suicídios. O desequilíbrio emocional facilita o surgimento de doenças mentais.

Defendo, como psicólogo e militante dos direitos humanos, que o tema da saúde mental – com todos os seus vieses e velhos paradigmas – esteja presente em nossos ativismos. É urgente jogarmos luzes nesse debate!

 

Militante, cuide-se!

Você pode começar com atividades que demandem um tempo curto, como 15 ou 30 minutos, iniciando pelas necessidades básicas, como comer e dormir de uma forma satisfatória e se organizar em torno disso. É importante ter paciência e focar-se no processo do que pensar no resultado. Contar com uma rede de apoio pode ser fundamental. Além disso, falar de suas questões e construir um saber sobre si, por meio da psicoterapia, pode ser interessante. Autoestima e autocuidado são termos inseparáveis!

Destinar atenção para si é mostrar que você é digno/a de seu tempo, e merece o bem estar. Ignorar necessidades e desejos, viver em função de opiniões dos outros e colocar-se em segundo plano prejudicam na construção de quem somos.

A autoanálise é importante para que haja consciência sobre os limites, qualidades e defeitos inerentes à nossa subjetividade. Por isso é importante falar do cuidado de si, que é diferente de auto ajuda (cuja teoria já vem pronta, enlatada e impondo ao sujeito um certo saber). Já com o cuidado de si, não há receita, o sujeito constrói sua própria maneira de se cuidar, com suas próprias prioridades, por meio de hábitos que contribuem para seu bem-estar.

Para Foucault, a noção do cuidado de si evidencia a filosofia como modo de vida, composta de uma dimensão teórica e outra prática que são inseparáveis. O aspecto prático, denominado por ele de “espiritualidade”, durante toda a Antiguidade nunca esteve separado do aspecto teórico. Porém, a partir principalmente da modernidade o que se percebe é um afastamento quase definitivo entre teoria e prática filosófica, ou seja, entre a filosofia e vida.

E para realizar suas outras funções é importante cuidar-se primeiro.

Nós precisamos continuar crendo no poder transformador do diálogo e em um amanhã melhor do que hoje. É preciso ter coragem, esperançar, mas, para isso, é preciso se cuidar e reconhecer quando precisa de ajuda de um psicólogo ou uma psicóloga.

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É psicólogo, educador, militante pelos direitos humanos e um dos idealizadores do movimento de espíritas pelos direitos humanos.

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