Suicídios na USP: A pandemia não é a única razão para o sofrimento psíquico dos estudantes

O pesquisador em Saúde Pública Thiago Marques Leão mostra como as dinâmicas da universidade afetam a saúde mental dos jovens

Créditos: Reprodução/ Instagram por felipe@dawson

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Educação

Os recentes suicídios de estudantes da Universidade de São Paulo têm em comum o fator pandemia – foram pelo menos três casos nos meses de maio e junho, um deles nas dependências da instituição. A USP mantem as atividades presenciais suspensas desde 17 de março do ano passado, e decidiu seguir com as aulas remotas na graduação e pós graduação durante o mês de julho, apesar da autorização para o retorno presencial do ensino superior dada pelo governo do Estado.

 

 

Para o professor doutor em Ciências pela Faculdade de Saúde Pública da USP, Thiago Marques Leão, embora as crises sanitária e política devam ser consideradas como fatores de incidência para os suicídios, ambas não dão conta de explicar todo o contexto de sofrimento psíquico dos estudantes.

“A crise é fundamental para entender, mas ao mesmo tempo não é suficiente. A gente passa agora por uma crise conjuntural, que tem a ver com o governo, com a pandemia, e com uma certa conjuntura de poderes no momento atual”, explica. “Mas tem algo que passa por uma questão estrutural da sociedade, de como ela vem se transformando no decorrer das décadas.”

A conclusão de Leão remonta ao projeto de pesquisa de pós-doutorado que ele vem conduzindo desde agosto do ano passado. O estudo busca dimensionar a relação entre o sofrimento mental dos estudantes e a universidade em um contexto de crise. A pesquisa já ouviu 190 estudantes da Faculdade de Saúde Pública e vai avançar, em agosto deste ano, com entrevistas junto a alunos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH).

Em entrevista a CartaCapital, o pesquisador explica como as transformações no mundo do trabalho e na família, e as próprias mudanças no acesso à universidade acabam afetando a saúde mental dos universitários. Leão também elenca respostas necessárias por parte da instituição.

 

Carta Capital: Quais fatores você considera ao avaliar o contexto de suicídio entre jovens universitários?

Thiago Leão: A crise é fundamental para entender isso, mas ao mesmo tempo não é suficiente. A gente passa agora por uma crise conjuntural, que tem a ver com o governo atual, com a pandemia, e com uma certa conjuntura de poderes, de forças no momento atual. Mas tem algo que passa por uma questão estrutural da sociedade, em como ela vem se transformando no decorrer das décadas. Tem a ver com a transformação no mundo do trabalho, uberização, com a transformação na família, com a ampliação ao acesso à universidade pública e por aí vai. São movimentos que passam por uma coisa muito maior e muito mais estruturante do que a crise do governo Bolsonaro ou da pandemia.

 

CC: Como a sua pesquisa buscou evidenciar esses outros fatores?

TL: Acho que a pesquisa tentou inovar ao tentar entender o fenômeno do sofrimento pra além de um ou outro aspecto. Geralmente, as pesquisas desse campo acabam se voltando exclusivamente para o sofrimento como um fenômeno individual, então se busca entender o que passa com aquela pessoa em específico, seja por questões biológicas, numa perspectiva mais médica, seja por questões individuais, numa perspectiva mais humanista ou psicológica. E as universidades, em geral, tendem a enfrentar essa questão do ponto de vista individual. Parece meio óbvio associar o sofrimento psíquico ao indivíduo e, com isso, buscar entender o que aquela pessoa está passando, a partir de elementos da vida dela. Mas, dessa forma, a gente perde de vista o que há de conjuntura, o que há de social, o que há de coletivo, já que certos grupos passam por determinadas questões que outros não passam, por exemplo. Você ignora questões institucionais e sempre vai tentar responder individualmente. Por exemplo, esse estudante passa por sofrimento, então encaminhe ele a um psicólogo. É o que a USP está fazendo agora. Isso é importante, mas insuficiente, porque você vai lidar com lidar o caso a partir de uma dimensão particular. Você atua quando alguém fica doente, a encaminha para tratamento, e depois a insere novamente naquele contexto. A questão é que tem algo aí, nesse meio, que pode ter causado o sofrimento, que pode ser comum ao todo. De alguma forma ainda se espera o evento sofrimento acontecer, ou pior, o suicídio, para tentar dar respostas individuais, perdendo de vista questões de natureza coletivas.

Realizei a primeira entrevista da pesquisa cerca de sete meses depois do início da pandemia e imaginava que os casos de sofrimento viriam relacionados a isso, ao medo do contágio, isolamento e por aí vai. Mas, em regra, os alunos ainda identificavam o sofrimento com a universidade, com a produção, com a cobrança por desempenho, o que me surpreendeu. Isso nos leva a crer que, de fato, por mais que a gente esteja em uma crise econômica, política, sanitária muito profunda, ainda é a universidade o principal vetor de sofrimento entre os estudantes.

 

CC: Como a cobrança por desempenho pode acirrar esse processo de sofrimento?

TL: A universidade, como a sociedade em geral, está estruturada em um processo crescente de produtivismo e cobrança e isso aparece como causa central de ansiedade e sofrimento na pesquisa. A universidade está inserida nesse contexto amplo da sociedade que diz sobre todo mundo desempenhar ao máximo, com agilidade. A exigência não se dá só objetivamente com a entrega de um trabalho, mas sobre o quanto você se dedicou àquilo, como uma espécie de romantização dessa autoexploração. A ideia de que estar na universidade é se descabelar, virar a noite, isso é muito problemático. Digo isso porque novamente, o que é de natureza coletiva, é levado para o individual, como se esse jovem não tivesse se esforçado o suficiente. A universidade tem que entender que essa cobrança não é razoável, principalmente quando se considera a situação de estudantes que não têm uma rede de segurança social suficiente para que eles possam produzir como ela espera.

Agora, é importante considerar que os professores estão passando pelo mesmo processo dos estudantes. Não se fala, mas muitos cometem suicídio, estão deprimindo, procurando ajuda psicológica, psiquiátrica. Os professores universitários também estão cada vez mais assumindo uma série de obrigações que não tinham e vivem sob a mesma lógica de produção acadêmica, desempenho profissional.

 

 

CC: A USP vem vivenciando uma mudança no perfil socioeconômico de seus estudantes. Este ano, pela primeira vez na história, a universidade teve mais de 50% de seus calouros vindos de escolas públicas. Isso demanda mais esforços da universidade na questão do acolhimento?

TL: Sim, há questões próprias dessa chegada de grupos que, até então, não faziam parte do público acadêmico. Esse fenômeno é muito marcado, nos últimos anos, pelo primeiro negro de uma família a entrar na universidade. E isso causa alguns conflitos. Primeiro, essa pessoa pode chegar à universidade sem referenciais de uma vida acadêmica, sem saber como se comportar em uma universidade, sem saber escrever um texto acadêmico, desenvolver um trabalho de conclusão de curso. Essa falta de referencial, por si só, já pode intensificar esse quadro de sofrimento.

Para além disso, há expectativas que se depositam sobre esse jovem, vindo da sua família, da sua comunidade, por ser essa primeira pessoa a ingressar na vida acadêmica. Mas, sobre isso, pesam outros fatores que o estudante não vai ser capaz de responder, e pode gerar frustração. Antes, entrar em uma universidade, era a chave para ter um trabalho melhor, para ter reconhecimento profissional, uma situação de vida confortável. Hoje, o mundo do trabalho se transforma, a universidade se transforma, essas garantias caem, mas as expectativas em relação à universidade se mantem. Então, as pressões ou as expectativas que se nutrem com a entrada na universidade não condizem com a sociedade que se encontra quando sai dela.

 

CC: A universidade precisa então, reconhecer esses múltiplos fatores, para lidar com o sofrimento psíquicos dos estudantes?  

TL:  Sim, é preciso reconhecer que talvez haja algo na forma como ela funcione que intensifique esse sofrimento. Por exemplo, na dimensão institucional, envolvendo estruturação de grades horárias, currículos, ou mesmo nas relações que se estabelecem entre o corpo da universidade e os estudantes (casos de racismo, assédio); mas também vir desses grupos. Também é preciso reconhecer que certas situações serão comuns a determinados grupos de estudantes, como mulheres, negros, pessoas com deficiência. Para além disso, há a dimensão conjuntural, política, econômica. Essas dimensões não se dão de maneira isolada, estão altamente conectadas.

 

CC: E como estabelecer esse diálogo, na prática?

TL: O primeiro passo é abrir para o debate, algo que percebo que a USP vem fazendo, vide a minha pesquisa e a parceria com a FFLCH. Isso é uma novidade porque, por muito tempo, a universidade tendia a abafar os casos norteada pelo senso comum de que o ideal é evitar falar sobre para evitar novos acontecimentos. É exatamente o contrário. Quanto menos você fala, mais as pessoas vão se sentindo oprimidas, solitárias, por acharem que só elas passam por aquilo, sem terem noção do todo. Depois, manter canais seguros para que os estudantes denunciem, externem, discutam essas discussões que podem ser violentas para eles, além de criar processos de averiguação justos e equânimes e respostas efetivas. Também é fundamental estruturar ações e políticas públicas coletivas para sair da lógica de atuar apenas quando há crise e apostar em respostas individuais.

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Repórter do site CartaEducação

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