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O braile simplificado

Educação

Há quase 200 anos, o francês Louis Braille permitiria aos deficientes visuais de todo o mundo ler e escrever seus próprios textos ao desenvolver a primeira versão da reglete, ferramenta utilizada até os dias de hoje para a escrita manual do sistema batizado com seu sobrenome.

Apesar de ter facilitado a inclusão dos alunos cegos, o instrumento apresenta uma desvantagem: graças ao fato de os pontos terem de ser escritos em baixo-relevo, de modo que quando a folha é virada estejam em alto-relevo para a leitura tátil, a escrita tem de ser feita do lado direito para o esquerdo e os caracteres precisam ser escritos espelhados.

“A pessoa tem de memorizar o alfabeto braile para leitura e as mesmas letras, só que espelhadas, para poder escrever. Essa dificuldade gerava uma ideia de que o braile é um sistema muito difícil de ser aprendido e, com isso, muitos desistiam de aprender”, conta Aline Piccoli Otalara, fundadora da empresa Tecnologia e Ciência Educacional (Tece), especializada no desenvolvimento de tecnologias assistivas.

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Procurando simplificar esse processo, a empresa desenvolveu, com o apoio do Programa Fapesp Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe), uma ferramenta por meio da qual já se escreve o sistema braile em alto-relevo, batizada de reglete positiva. Com o novo dispositivo, o espelhamento dos pontos não é mais necessário, diminuindo o tempo de aprendizado para o sistema.

A reglete positiva funciona como um molde, ou seja, o papel é colocado entre a parte de cima, que é um guia para se encontrar os pontos, e a parte de baixo, onde se encontram os conjuntos de seis pontos do braile. “Quando o punção pressiona o papel sobre o ponto abaixo dele, o mesmo fica marcado com um ponto em relevo”, explica Aline, que atualmente realiza doutorado em Educação Escolar pela Unesp de Araraquara (interior de São Paulo).

Segundo testes realizados durante o desenvolvimento do produto, as pessoas que utilizaram a reglete positiva para aprender o sistema braile levaram até 40% menos tempo do que aquelas que usaram a reglete convencional.

“Desde então, temos professores de braile que dão aulas para deficientes visuais e também para alunos videntes e atestam a eficiência do aprendizado na reglete positiva. Outra vantagem está no despertar do interesse das pessoas no braile por descobrirem o quanto é fácil aprender esse sistema com o novo instrumento”, afirma Aline.

Para a educadora, com a diminuição do tempo de aprendizado do sistema braile os alunos terão mais tempo para desenvolver suas habilidades em leitura e escrita, além de poderem dedicar mais tempo às demais atividades de aprendizado na escola.

“Teremos como consequência um aluno mais bem formado, lendo e escrevendo melhor, o que certamente aumenta suas possibilidades dentro do ambiente acadêmico e posteriormente profissional.”

O produto já está sendo comercializado no Brasil e possui preço inferior ao das regletes convencionais, custando entre 25 e 42 reais com o punção. A reglete positiva também está sendo exportada para Portugal e, em breve, poderá ser encontrada na Espanha e na Argentina.

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Jornalista formada pela PUC-SP e bacharel em Letras pela USP. Já trabalhou no site da revista Crescer e escreve sobre educação desde 2013.

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