A dura realidade de crianças e adolescentes explorados pelo trabalho infantil

Números mostram que no, início de 2020, 160 milhões de menores foram obrigados a trabalhar, 8,4 milhões a mais que há quatro anos

Criança fazendo a limpeza de túmulos na cidade de São Paulo. Créditos: Tiago Queiroz Luciano

Criança fazendo a limpeza de túmulos na cidade de São Paulo. Créditos: Tiago Queiroz Luciano

Educação,Sociedade

Foram pelo menos quatro anos pesquisando sobre o trabalho infantil e percorrendo as ruas de São Paulo para encontrar crianças vítimas dessa prática. A busca por essas histórias deu origem ao livro Meninos Malabares, Retratos do trabalho infantil no Brasil (Panda Books) lançado no início de junho.

Os jornalistas Bruna Ribeiro e Tiago Queiroz Luciano percorreram a regiões centrais, mas também a territórios periféricos e a locais completamente insalubres. A dupla registrou crianças atuando em faróis, na limpeza de túmulos, trabalhando durante as festas de Carnaval; na praia, em feiras livres, no campo; em oficinas de costura, em lixão e expostas à situação de tráfico de drogas.

A obra surge em um contexto ainda mais dramático. Em meio à pandemia, o trabalho infantil cresceu em todo o mundo: são 160 milhões de crianças e adolescentes expostos todos os dias aos riscos da jornada e também à Covid-19, um aumento de 8,4 milhões nos últimos anos. Os dados constam em um relatório recente publicado pela Organização Internacional do Trabalho, a OIT, em parceria com o Fundo das Nações Unidas para a Infância, o Unicef.

 

Cada vez mais jovens

Este mesmo estudo alerta para um crescimento substancial do número de crianças de 5 a 11 anos exploradas pelo trabalho infantil. Hoje, essa parcela representa pouco mais da metade de todos os casos de trabalho infantil em escala mundial. O número de crianças de 5 a 11 anos que realizam trabalhos perigosos, isto é, todo trabalho suscetível a prejudicar a saúde, segurança ou moral, aumentou em 6,5 milhões desde 2016, atingindo 79 milhões.

Para Bruna, o objetivo do livro é dar face humana ao assunto, “já que, muitas vezes, os números não são capazes de sensibilizar”. A jornalista cuidou de escrever a história de dez crianças expostas às práticas cotidianamente na cidade. Tiago as fotografou. [as imagens utilizadas nesta reportagem se encontram no livro].

Entre os tantos momentos registrados, o que mais chocou os autores foi ver crianças atuando em um lixão no extremo sul da cidade de São Paulo. “Foi muito chocante. Ficava em uma comunidade localizada no extremo sul de São Paulo, onde a escola mais próxima fica a 40 minutos a pé, mesma distância quase do ponto de ônibus. Como consequência disso, todos os adolescentes que conversamos não iam mais a escola”, conta Bruna, que visitou o local já durante a pandemia. ” 70% das casas acessam energia elétrica de forma irregular, 40% não têm acesso ao saneamento básico, há um córrego com esgoto a céu aberto bem perto das casas.”.

 

Famílias escalam montanha de lixo em busca de recicláveis. Créditos: Tiago Queiroz Luciano

 

“Acima dessa comunidade passa uma rua por onde os caminhões passam e despejam o lixo de forma irregular. E as crianças e seus familiares escalam aquela montanha em busca dos recicláveis. É uma cena muito chocante”, completa a jornalista. “Lá, conversei com uma menina de 10 anos que disse que sonha em ser médica. É muito contrastante você ouvir uma criança falando isso em uma realidade sem saúde nenhuma.”

 

Como enfrentar o problema 

Em conversa com a reportagem de CartaCapital, Bruna Ribeiro, que também atua como gestora de um projeto contra o trabalho infantil, o Criança Livre de Trabalho Infantil, afirma que o enfrentamento às práticas passa pela desconstrução de mitos e pela naturalização do tema.

“Ainda temos a reprodução de diversos mitos tais como ‘é melhor trabalhar do que roubar’ ou ‘trabalhar é melhor do que ficar na rua sem fazer nada’, quando, na verdade, é muito injusto condenar as crianças a essa possibilidade. Sabemos que é direito das crianças e adolescentes o acesso à educação, saúde, lazer, convívio familiar e comunitário saudáveis”, pontua. As práticas do trabalho infantil tornam-se ainda mais invisíveis nos grandes centros expandidos.

 

Adolescente faz malabares em farol da cidade de São Paulo. Créditos:

A saída, reconhece, requer um esforço intersetorial e ações que contemplem não só as crianças e os adolescentes, mas também suas famílias. “O trabalho infantil é consequência de muitas outras violações, ele nunca vem sozinho. A criança ou adolescente que está inserida nas práticas refletem a situação de vulnerabilidade social das famílias”, aponta.

“Não há uma bala de prata como resposta a isso. A gente precisa da atuação de diversas políticas públicas que contemplem geração de emprego e profissionalização dos adultos, programas de transferência de renda, uma escola integral de qualidade. Também precisamos avançar na erradicação da pobreza e do racismo estrutural”, enumera. A manutenção do cenário impede que as futuras gerações rompam com o ciclo da pobreza, já que são poucas as chances que essas crianças e adolescentes terminem seus estudos e, mais tarde, se profissionalizem, acessando o mercado formal de trabalho e contribuindo economicamente para o desenvolvimento do País.

 

 

Por essa razão, os autores querem que o livro chegue às escolas públicas e privadas do País. “A escola, muitas vezes, é o único equipamento público que estabelece vínculos maiores com as crianças. O professor é o único adulto que tem esse vínculo para além do convívio familiar, é um importante ator de reconhecimento das crianças que estão nesse cenário. E a escola tem esse papel de se relacionar com as comunidades, então penso que o livro pode ser uma forma de sensibilizar as famílias para o tema, apresentar outras alternativas, como programas de transferência de renda e até mesmo vagas de aprendizes aos adolescentes com mais de 14 anos”, coloca. [De acordo com a legislação brasileira, o trabalho é proibido para quem ainda não completou 16 anos, como regra geral. Quando realizado na condição de aprendiz, é permitido a partir dos 14 anos. Se for trabalho noturno, perigoso, insalubre ou atividades da lista TIP (piores formas de trabalho infantil), a proibição se estende aos 18 anos incompletos].

Sobre as escolas privadas, Bruna completa: “é tão importante quanto que a discussão chegue às pessoas mais privilegiadas justamente para que avancemos com a desnaturalização dessas atividades, ainda invisíveis aos olhos de muitos”.

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Repórter do site CartaEducação

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