Educação

Juliana Estradioto, a brasileira campeã mundial em feira de ciências

Estudante critica os cortes nos institutos federais: ‘a educação gratuita e de qualidade é capaz de transformar vidas’

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A estudante brasileira Juliana Estradioto, 18 anos, conquistou o primeiro lugar na maior feira de ciências para alunos pré-universitários do mundo. Nascida em Osório, Rio Grande do Sul, a jovem desenvolveu uma pesquisa a partir do uso da casca de noz macadâmia que, em contato com microorganismos, produz uma membrana biodegradável que pode ser utilizada como alternativa ao uso do couro, como curativo para cicatrizes de pele ou como base para embalagens biodegradáveis, descartando o plástico.

A premiação da estudante aconteceu no último dia 17, na cidade de Phoenix, nos Estados Unidos, onde ocorreu o encerramento da Intel International Science and Engineering Fair (Isef). Juliana foi a vencedora da categoria Ciência dos Materiais, titulação que lhe rendeu o prêmio de 3 mil dólares e a possibilidade de batizar um asteróide com o seu nome, por uma parceria da feira com o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Vinda de escola pública, Juliana se formou no ano passado no Instituto Federal do Rio Grande do Sul, no campus Osório, onde cursou o técnico em administração integrado ao Ensino Médio. Ainda que estudando outra área, foi lá que se aproximou do campo da pesquisa. “Me envolvi em um projeto social voluntário para apoiar os agricultores locais quanto ao reaproveitamento do lixo orgânico gerado nas indústrias que processam alimentos”, contou a estudante. O percurso foi incentivado pela professora Flávia Twardowski, também orientadora de seu projeto vencedor.

 

A premiação ainda emociona a jovem cientista, que diz ter desacreditado ao ouvir seu nome na cerimônia de premiação. “É surreal, quase inacreditável que ganhei o prêmio. Fico muito feliz de poder mostrar ao mundo o potencial dos estudantes brasileiros, que produzem ciência mesmo sem as condições adequadas”, conta, lembrando que o instituto em Osório não dispunha da infraestrutura necessária para a pesquisa. Ela chegou a usar laboratórios da unidade de Porto Alegre e também da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Agora, a estudante está credenciada para participar da cerimônia de entrega do Prêmio Nobel, na capital da Suécia.

https://youtu.be/Z7Hg3v1_PR4

Cortes na educação

O Instituto Federal do Rio Grande do Sul é um dos que sofrem as consequências dos cortes orçamentários anunciados pelo Ministério da Educação. No campus Osório, local em que a jovem se formou, o corte foi da ordem de 37,72%, conforme demonstrou o diretor-geral Claudino Andrighetto. O orçamentou passou de 1.762.531 reais para 1.097.781,53 reais.

Caso a situação não se reverta, o campus está condenado a fechar as portas em setembro deste ano. “Temos orçamento de custeio para pagamento somente de água, luz, limpeza e vigilância por mais quatro meses. Se pensarmos em outros serviços essenciais, como os contratos de intérpretes de libras, as publicações no Diário Oficial da União e telefonia, por exemplo, essa conta não fecha antes”, ressaltou o diretor.

A manutenção de atividades de ensino, pesquisa e extensão (como bolsas, apresentação de projetos, taxas de bancada, entre outros), acarretaria à instituição um custo adicional de 200 mil. Essas atividades estão preservadas até o final do mês de maio. “O valor representa menos de 13% do nosso orçamento, o que comprova, por meio de tantos reconhecimentos e premiações, que fazemos muito com pouco”, coloca Andrighetto.

Segundo a instituição, é o menor orçamento desde 2012, considerando que o número de estudantes triplicou, passando de pouco mais 300 para em torno de 950. “Nesse período de sete anos, as tarifas básicas, como água e luz, só inflacionaram. E como já sofremos reduções de orçamento em 2016 e 2017, já adequamos nossos gastos para o mínimo e, em alguns aspectos, como equipe de limpeza, para abaixo do mínimo. Então, agora realmente não temos de onde cortar”, ressalta.

Juliana vê com tristeza a situação e defende o papel da educação pública. “A educação gratuita e de qualidade é capaz de transformar vidas. A gente costuma ouvir que os jovens são o futuro do país, mas somos o presente, podemos realizar e contribuir com o país agora. Os cortes nos institutos tira a possibilidade dos estudantes do Ensino Médio de trilharem os caminhos da pesquisa, experimentar o que eu pude. A ciência melhora a vida da sociedade e a sua defesa tem de ser a nossa bandeira, bem como da educação pública”, finalizou.

Ana Luiza Basilio

Ana Luiza Basilio
Repórter do site de CartaCapital

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