Educação

As escolas podem atuar na prevenção do suicídio?

Embora não devam lidar com a questão sozinhas, as escolas podem lançar mão de estratégias pedagógicas para prevenir e encaminhar os casos de saúde mental

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No Centro Estadual de Tempo Integral (CETI) Cônego Cardoso, localizado no município de Castelo do Piauí (PI), a abordagem do tema suicídio é recorrente com os estudantes há um ano.

Pelo menos uma vez por semana, em um período de duas horas, a escola recebe uma psicóloga, cedida pela Secretaria da Educação, que trabalha com os alunos a partir de um grupo de convivência.

“É um momento de partilha de histórias, angústias, decepções, que tem apoiado a condução do nosso processo educativo com os jovens”, afirma a diretora da unidade, Maria do Socorro Alves Soares.

Ela conta que o trabalho está ancorado no plano político pedagógico da unidade e que isso possibilitou que toda a comunidade escolar se sensibilizasse para a observação sensível e acompanhamento dos estudantes. Outro fator que a gestora destaca como benéfico é o tempo que os jovens permanecem na escola diariamente – são nove horas, com turnos que vão das 7h às 17h.

“Com isso, podemos estabelecer vínculos com os alunos, conhecê-los em profundidade e reconhecer situações que exigem nossa intervenção, como tristeza ou desânimo em sala de aula”, atesta Maria do Socorro.

Segundo a diretora, os casos que merecem atenção são informados à gestão escolar pelos professores e pelos próprios estudantes. Dali em diante, são consideradas três estratégias: o apoio da psicóloga escolar, o diálogo aproximado com as famílias e o encaminhamento ao Centro de Atenção Psicossial (CAPS), com o qual a escola mantem parceria.

“As famílias aqui no município, em geral, têm baixa instrução e esses jovens vivenciam dinâmicas familiares diversas. Alguns sentem a ausência do pai, outros são criados pelos avós, e muitos trazem incertezas relativas à própria identidade. Por isso, entendo que é fundamental que o trabalho pedagógico leve em consideração o contexto de vida de cada aluno”, coloca a gestora.

Apoio à saúde mental

Para a educadora e psicopedagoga Adriana Foz é de extrema importância que a sociedade, as instituições e as escolas se envolvam no combate e na sensibilização para a questão do suicídio, um dos problemas de saúde mental que mais cresce no Brasil e no mundo.

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Dados do Mapa da Violência 2017, estudo publicado anualmente a partir de dados oficiais do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, revela que, em 12 anos, a taxa de suicídios na população de 15 a 29 anos saiu de um patamar de 5,1 por 100 mil habitantes em 2002 para 5,6 em 2014, um aumento de quase 10%.

“O suicídio já foi muito velado. Hoje, estamos em um momento diferente, também por conta das mídias digitais, que acabam por expor esses episódios. Por isso, as escolas precisam aprender a processar informações e a abordá-las”, orienta.

Para a especialista, a abordagem de temas como suicídio e de outros potenciais desencadeadores como Bullying, depressão, uso de drogas e álcool e violências sexuais, devem ser feitas de maneira ininterrupta. “Isso possibilita a retirada do estigma que ronda a temática, quanto menor, o problema de saúde mental diminui”, afirma.

A escola, no entanto, não deve resolver essas questões sozinha. Seu papel é o de prover informação de qualidade para a comunidade escolar, construir conhecimento acerca das temáticas e dialogar com outros atores da rede, como familiares e equipamentos de assistência social.

“Internamente, por exemplo, é possível propiciar situações de envolvimento com o emocional dos estudantes. Trabalhar pelo desenvolvimento de habilidades como autogestão, sociabilidade, comunicação, interação com o Outro”, sugere Adriana.

Isso é fundamental, sobretudo, porque a escola se apresenta como um local em potencial para o trabalho com a saúde mental dos estudantes. “Afinal, é onde eles passam mais tempo”, observa. “Há uma diversidade muito rica de interações, vivências, que permitem a essa instituição iniciar um diagnóstico”.

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Para isso, recomenda-se um olhar cuidadoso por parte dos profissionais aliado a boas estratégias pedagógicas. O método é utilizado pelo Projeto Cuca Legal, desenvolvido pelo Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

Fundada em 2006, a iniciativa, da qual Adriana Foz é coordenadora, vem apoiando na construção de pesquisas e referenciais que pautem metodologias às redes escolares na promoção da saúde mental. O objetivo é promover um ambiente saudável e criativo e apoiar na melhoria dos processos de ensino aprendizagem.

O curso de capacitação prevê oito horas de formação, que pode ser direcionada a todos os funcionários da escola, desde o pessoal de apoio aos cargos de gestão. “É crucial que esses profissionais saibam diferenciar, por exemplo, os casos de alunos que têm problemas pedagógicos daqueles que têm alguma questão de origem comportamental”, assegura.

Adriana entende que a junção de boas estratégias e metodologias assertivas pode garantir o papel da escola como promotora da saúde mental de sua comunidade. “O conceito vai além da ausência de doenças mentais. É formar para que esse jovem se sinta bem consigo mesmo e na relação com os outros. É vê-lo capaz de administrar as emoções e a própria vida, lidar de forma positiva com as adversidades, reconhecer limites e buscar ajuda quando necessário”, finaliza.

Ana Luiza Basilio

Ana Luiza Basilio
Repórter do site de CartaCapital

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