Editorial
O problema é o Brasil
Escrevo para Ciro Gomes, a gente se entende
Meu caro amigo Ciro, com a franqueza que uma conversa entre nós há de ter, vou lhe dar a minha visão do problema que nos aflige, próprio de um país que não alcançou a modernidade, como escreveu o professor Belluzzo na edição celebrativa da Independência há cerca de um mês. Nosso problema é o país, cujo povo é abandonado ao seu destino de miséria e ignorância. São estas as condições em que o energúmeno demente é eleito para a Presidência da República. Enxergo o Brasil como uma obra inacabada, uma espécie de tela de Penélope feita de dia e desfeita à noite.
Somos o segundo colocado na classificação dos mais desiguais do mundo, encabeçada pela África do Sul, o país do apartheid, o que talvez configure a forma positiva de apresentar o problema, já que todas as nossas favelas, algumas com milhões de habitantes, são uma cópia de Soweto. Menos desigual, uma grande quantidade de países africanos. O desequilíbrio social monstruoso impede de saída uma democracia autêntica. De verdade, o País curvou-se diante das conveniências da casa-grande e dos sobrados senhoriais a consagrar a enorme discrepância entre poucos ricos, exageradamente ricos, e uma imensa multidão de miseráveis, vasculhadores de lixos nas madrugadas metropolitanas. Pouco ou nada se fez para encolher o abismo.
Creio terem sido estas as razões da sua decisão de não apoiar Lula no segundo turno. O presidente que fundou universidades em diversos pontos do nosso mapa, bem como levou força elétrica a lugares que não dispunham deste bem, enquanto se preocupava em dar satisfações aos donos do poder, na denúncia monumental de Raymundo Faoro ao focalizar uma continuidade impune desde a dinastia de Avis. Quero acentuar que entendo perfeitamente o seu empenho ao frequentar esta questão. Por outro lado, somos todos responsáveis pela eleição de Bolsonaro, beócio nestes dias ao afivelar malas destinadas a levar seu sorriso alvar, como diria Nelson Rodrigues, até o Buckingham Palace, para participar das exéquias da rainha morta.
Capas de longa data
A impávida desfaçatez deste personagem mais único do que raro deve, obviamente, ser atribuída a uma abissal ausência de informações para abrir o caminho às fake news, pronunciadas com a expressão de Buster Keaton. Mas la nave va, enquanto o Brasil se habilita ao papel de hospício. Ouso imaginar que aí estão as razões das suas mais recentes atitudes e declarações a respeito da conjuntura atual e numa eleição que, de certa forma, avaliza o calendário golpista traçado no momento do impeachment de Dilma Rousseff. Prosseguimos na rota habitual da falsa normalidade, ao aceitar as consequências de um golpe a escalar do mesmo lado togados e prepotentes integrantes do Executivo.
E nos deparamos então com o descalabro de uma conjuntura forjada para enganar a todos, a começar pelos próprios golpistas. O golpe faz parte do jogo antidemocrático, ao conferir poderes ditos moderadores quando a pretensa moderação toma o caminho oposto. Pois é, meu caro Ciro, convenço-me sem dificuldade de que as suas motivações merecem o meu respeito. Oferecem uma visão do Brasil por demais precisa e eficaz. Seu rol neste momento conta com o meu respeito e os da revista CartaCapital. E reconhece a importância das suas definições, como contraponto a uma cansada ladainha que a nada leva. •
PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1226 DE CARTACAPITAL, EM 21 DE SETEMBRO DE 2022.
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