Editorial
Lobo à espreita
Talvez seja apressado deduzir uma influência de Putin nas nossas eleições, mas…
A agressão de Vladimir Putin à república ucraniana me leva de imediato a duas conclusões: primeira, já não se fazem guerras como antigamente; segunda, Putin é menos astuto do que ele próprio supõe. Mas a verdade fica mais embaixo. Está sendo disputada uma nova forma de divisão política do mundo e dos papéis a caberem aos protagonistas. A guerra, de todo modo, causa os seus estragos e o mais vistoso é a fuga da população ucraniana para os cantos menos vulneráveis do que o seu país.
Chamam a Europa de Velho Mundo, mas ainda é o recanto das ideias e dos eventos de maior repercussão. Por isso, o fantasma da guerra passa a ser encarado como risco total além das fronteiras continentais. De todo modo, transparece a incerteza a dominar agressor e agredidos.
Papa Francisco surge, como sempre, na qualidade de mediador ideal. Mas nem por isso tem condições de avaliar agora o alcance de uma sua intervenção.
Nisso tudo, muito clara e precisa a análise da situação formulada pelo representante do Brasil na ONU, o embaixador Ronaldo Costa Filho. As interpretações e a exposição do diplomata brasileiro, de precisão cirúrgica, me empurram à conclusão de que não são ditadas pela largamente exposta demência do presidente da República. O qual, diga-se, subiu nas pesquisas para as próximas eleições presidenciais. Lula ainda está comodamente na frente, mas cantaria Lucio Dalla: Attenti Al Lupo. Cuidado com o lobo: fica amoitado atrás da ignorância nativa. •
PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1198 DE CARTACAPITAL, EM 9 DE MARÇO DE 2022.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Lobo à espreita”
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