Editorial
Apelo ao Tite
Talvez uma súplica: deixe Neymar em casa
E no outro dia, como escrevia Mário de Andrade no começo de um novo capítulo de Macunaíma, me peguei diante do vídeo aceso e dei com Firmino, de costas para o gol adversário, a colocar de calcanhar a bola na rede. Não se trata de um jogador de requinte técnico extraordinário, mas o lance foi de excelente inspiração. Pensei que o capital humano de boa qualidade permite desta vez que o Brasil forme uma seleção à altura do Mundial, a ser realizado no Catar no fim do ano.
Jogadores como Casemiro, Thiago Silva, alguns goleiros, Marcelo, apesar da idade, figurariam com destaque em muitas seleções. Pela primeira vez em muitos anos, Tite está em condições de montar um time respeitável. E a ele me permito fazer um apelo: abandone Neymar ao seu destino. Funcionou em outros tempos, embora no Mundial de 2014, aquele do 7 a 1 contra a Alemanha, tivesse de ser expulso, ou pelo menos brindado com o cartão amarelo já no jogo de estreia, marcado pela parcialidade clamorosa do juiz, acintosamente a favor dos Canarinhos.
Naquele tempo, Neymar ainda mostrava qualidade, embora já fosse um fenômeno de jactância e empáfia. Hoje representa, com perfeita adesão ao papel, o provincianismo de um país que pretende exibir um craque tão bom quanto os melhores do mundo. Sobrou, hoje em dia, o avante que o técnico do Paris Saint-Germain, o argentino Pochettino (e não se perca pelo nome de origem italiana, a significar pouquinho), prefere não escalar. A esta altura, Pochettino poderia ser com eficácia o apelido de Neymar, reduzido à condição de cascateiro emérito à busca de contusão. Observa com felicidade o ex-jogador Neto, camarada espirituoso, que como craque Neymar é um excelente ator.
Ficamos, portanto, à procura deste craque mágico que Neymar não é. Se pensamos em Pelé, Garrincha, Zico e muitos outros, o sonho nativo de garimpar alguém na mesma dimensão chega a ser patético, sem deixar de acentuar que igual a Pelé só mesmo Pelé. Há quem sustente que o Brasil não soube, até o momento, modernizar o seu futebol, embora os resultados atingidos por times verde-amarelos nos confrontos sul-americanos sejam positivos. As diferenças, no entanto, são de uma evidência solar quando se cogita do atual estágio do bolípodo nativo versus o europeu.
Escrevo desabridamente, certo de que o meu caríssimo parceiro, Professor Verdone, concorda comigo. O futebol mudou muito e quem ainda sonha com o passado está condenado à derrota. Reitero o meu apelo, se não for mesmo imploração: ao Tite, treinador honesto, suplico que no seu time tenha a coragem de excluir Neymar.
PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1191 DE CARTACAPITAL, EM 13 DE JANEIRO DE 2022.
CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS: ANNE-CHRISTINE POUJOULAT/AFP
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