Bolsonaro é diretamente responsável por quatro em cada cinco mortes

Não é possível reconstruir o País sem punir os responsáveis por este extermínio e cuidar das 600 mil famílias destruídas pelo descaso

Foto: EVARISTO SA / AFP

Foto: EVARISTO SA / AFP

Edição da Semana,Opinião

Acompanhei de perto o trabalho da CPI da Covid no Senado. Mesmo com os compromissos que tenho como líder da Minoria na Câmara e os embates com o governo ao longo deste ano, consegui assistir a todas as etapas e conversar com senadores de oposição ao longo desses quase seis meses de investigação.

Senti, com o estômago revirado, o bafo macabro de gente como Nise Yamaguchi e Mayra Pinheiro, a Capitã Cloroquina, defendendo o uso de medicamentos ineficazes. Vi, sem surpresa, a postura arrogante do general Eduardo Pazuello, ex-despachante de Jair Bolsonaro no Ministério da Saúde, ao mentir sobre as responsabilidades do presidente nas mortes por sufocamento em Manaus. Observei cada lance do depoimento do deputado bolsonarista Luís Miranda, ao entregar o esquema do roubo de vacinas e revelar que o presidente sabia de tudo. Revoltei-me, juntamente com os brasileiros que prezam pela vida, ao saber do uso de cobaias humanas em experimentos feitos pela Prevent Senior.

Existem muitas formas de se contar uma história, ainda mais quando tratamos da complexa investigação dos crimes cometidos pelo governo Bolsonaro na pandemia. Mas, dentre todas as narrativas possíveis sobre o extermínio sofrido pelos brasileiros, fico com aquela que nos contam os familiares das mais de 600 mil vítimas. Na segunda-feira 18, a CPI da Covid abriu pela primeira vez seus microfones para os parentes dos que se foram, dando nomes, mostrando os rostos e narrando as histórias escondidas por trás das estatísticas que embruteceram e aviltaram o País desde que a primeira morte por Covid-19 foi oficialmente registrada, em fevereiro de 2020.

Dentre os relatos pungentes feitos à comissão, cito o do taxista Márcio Antonio Silva, pai de Hugo do Nascimento Silva, vítima da Covid aos 25 anos, no Rio de Janeiro. Márcio ocupou por duas vezes o noticiário nacional, ambas por transformar o luto em coragem para enfrentar a violência dos fanáticos que estão na linha de frente da estupidez bolsonarista. Em junho de 2020, o taxista desceu de sua casa e peitou um grupo de apoiadores do presidente que estavam retirando crucifixos colocados na Praia de Copacabana para protestar contra a postura do governo diante do avanço da doença. Sob os gritos de comunista, cravou as cruzes de volta na areia e disse que sentiu como se aquelas pessoas estivessem chutando o túmulo do filho.

 

“Minha dor não é mimimi”, afirma Márcio Antonio Silva, que perdeu o filho para a Covid e enfrentou uma horda bolsonarista na praia de Copacabana. (FOTO: Alessandro Dantas/PT no Senado)

Pouco mais de um ano depois, desta vez dentro do Senado, ele enfrentou novamente a horda bolsonarista, agora contando a história do luto da sua família. “Meu filho não era um número, era uma pessoa. Era um menino maravilhoso, como outros. Minha dor não é mimimi. Dói, entendeu? Não aceito que ninguém trate isso como normal. Não é só a minha. É de todas as pessoas que perderam alguém”, disse.

Bolsonaro é diretamente responsável por quatro em cada cinco mortes. Isso significa que 480 mil pessoas perderam a vida por causa da sabotagem praticada pelo presidente contra o combate à pandemia. Esse cálculo não é da oposição, mas do epidemiologista Pedro Hallal, da Universidade Federal de Pelotas, que revelou esses números escabrosos em depoimento à CPI. Só o atraso na compra de vacinas resultou em 95 mil óbitos.

A postura de Bolsonaro também provocou o aprofundamento da crise econômica, o que levou ao aumento da fome e do desemprego, ao atacar todas as medidas de prevenção à Covid-19, prolongando a agonia do País e, assim, atrasando o retorno à normalidade. Todas as nações que seguiram à risca as orientações dos cientistas e das autoridades de saúde superaram com mais rapidez a pandemia e retomaram com mais celeridade suas atividades econômicas. Soma-se a isso o desperdício de energia do governo com pautas que não interessam ao Brasil e tampouco ajudam a solucionar os problemas urgentes que enfrentamos. Em vez de cumprir com suas obrigações, Bolsonaro escolheu se comportar como líder de uma facção de fanáticos: atacou as urnas eletrônicas, participou de atos golpistas, declarou guerra ao Supremo Tribunal Federal, realizou passeata de tanques para tentar intimidar o Congresso, dentre outros crimes contra o Estado de Direito e a democracia.

Ao sabotar o combate à pandemia, Bolsonaro foi diretamente responsável por quatro em cada cinco mortes na pandemia

Nesse sentido, a CPI chega à reta final com a importante contribuição de reunir provas e tipificar esses delitos, bem como por ter ajudado a trazer à luz outros crimes. Graças à comissão, foram desmascarados a tentativa de desviar 1,6 bilhão de reais­ de dinheiro público através da compra fraudulenta da Covaxin – esquema denunciado na comissão pelo deputado Luís Miranda – e o escândalo da Prevent Senior, que transformou doentes em cobaias de experimentos macabros. A ficha corrida é longa e não faltam provas para caracterizar os crimes do presidente, mas há algo na sua conduta que extrapola o Código Penal: o deboche, a perversidade e o prazer explícito ao zombar da dor de quem perdeu entes queridos.

É aqui que entra a importância do depoimento de Márcio e dos demais familiares de vítimas à CPI. Ao longo da pandemia, Bolsonaro escarneceu o luto das famílias e banalizou as mais de 600 mil mortes. O presidente não faz isso somente porque é uma pessoa cruel. O objetivo desse rebaixamento moral é tentar submeter o País a uma overdose de desumanidade, para entorpecer o sentimento de indignação diante do absurdo. Bolsonaro brutaliza a linguagem para normalizar as consequências da política negacionista do governo. Tudo se resume à repetição de números numa equação que exaure os brasileiros para chocar cada vez menos.

Nesta semana, a CPI transformou esses números em pessoas. Essa é uma ferida profunda e coletiva, que vamos levar muito tempo para conseguir curar, mas o primeiro passo é mostrá-la. O resgate do nosso país pós-pandemia não é só uma questão de retomada econômica e da formulação de um novo projeto de desenvolvimento, é também a reconstrução do pacto que nos une enquanto nação. Não faremos isso sem punir exemplarmente os responsáveis por este extermínio e cuidar das mais de 600 mil famílias destruídas pelo vírus e pelo descaso.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1180 DE CARTACAPITAL, EM 21 DE OUTUBRO DE 2021.

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É professor de história e deputado federal pelo PSOL do Rio de Janeiro.

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