‘Minha dor não é mimimi’, diz pai de vítima da Covid à CPI

Marco relatou ter sofrido com a hostilidade reservada pelo presidente Jair Bolsonaro aos mortos pela doença

Foto: Pedro França/Agência Senado

Foto: Pedro França/Agência Senado

Política

O filho de Marco Antônio do Nascimento Silva, Hugo, faleceu de Covid em 2020. Emocionado, o depoente disse ter sido doloroso ouvir o presidente Jair Bolsonaro perguntar “e daí” sobre as vítimas da doença. Quando o País ultrapassou a China na quantidade de mortos pelo coronavírus, no ano passado, o chefe do Executivo disse: “E daí? Sou Messias, mas não faço milagres”.

Marco relatou ter sofrido com a hostilidade reservada pelo presidente às vítimas da Covid. “Eu escutei no fundo do meu coração: ‘E daí que seu filho morreu?”, disse. “Acho que nós merecíamos um pedido de desculpas da maior autoridade do País”, completou.

O depoente disse ter ouvido a frase de Bolsonaro apenas três dias após a morte de seu filho. Ele também esteve presente na praia de Copacabana em 11 de junho de 2020, dia em que apoiadores do presidente invadiram e hostilizaram um protesto que colocava cruzes na areia em memória das vítimas da doença. “Era muita dor, muita tristeza. Quando vi aquela cena (de um homem derrubando as cruzes), pensei: ‘será que esse cara não vê que está pisando na cova do meu filho?”

“Não admito que outros pais achem isso normal, não é normal”, disse Marco. “Minha dor não é ‘mimimi'”.

 

 

Para Marco, o início da CPI da Covid foi um alívio. Ele relata ter sido um alento pensar que nem todas as autoridades diriam “e daí” para os óbitos em decorrência da pandemia. “O trabalho feito aqui, senhores senadores, eu tenho um grande agradecimento. Para mim, não importa o partido político dos senhores, o que importa é que meu Hugo não volta mais, mas tenho outros filhos e quatro netinhos”.

Com a voz embargada, Márcio narrou os últimos dias de vida de seu filho, quando ele começou a sentir cansaço e falta de ar. Ele disse ter acompanhado Hugo no hospital até o falecimento, e lembrou com pesar do dia em que teve de reconhecer o corpo do filho. “A última vez que o vi, ele estava dentro de um saco”.

O depoente criticou a postura do presidente e a demora para a aquisição de vacinas. Segundo ele, o que dói não é apenas o luto mas o que veio após a morte de Hugo: “o deboche, a irracionalidade das pessoas, inclusive de amigos”. “Eu daria a minha vida para o meu filho ter chances de ser vacinado”, disse.

 

Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

A enfermeira obstetra Mayra Pires Lima destacou, em seu testemunho, a situação de colapso enfrentada por seu estado, o Amazonas, durante a pandemia. Ela comparou a situação enfrentada pelos profissionais de saúde no atendimento a pacientes com um cenário de guerra. “Hoje, eu falo que vivi uma guerra, pois, muitas vezes, atendi pacientes sem proteção nenhuma”, disse.

Segundo a enfermeira, durante todo o ano de 2020, os profissionais de saúde com quem ela trabalha tiveram que arcar com seus equipamentos de proteção individual (EPI’s). Ela agradeceu aos amigos que em várias ocasiões arcaram com os EPI’s que ela usou. “Porque nós não tínhamos nem essas máscaras”, afirmou.

No início do ano, a enfermeira contraiu a doença. Como consequência, outros membros da família também foram infectados, entre eles, a irmã, que morreu durante o colapso no fornecimento de cilindros de oxigênio em Manaus. A irmã de Mayra deixou quatro filhos órfãos, dois deles, gêmeos, que na época tinham quatro meses. A enfermeira perdeu também um irmão para a doença.

Na avaliação da profissional, “um pouco de bom senso e um pouco de humanidade por parte dos gestores” teria dado um rumo diferente à pandemia no Estado.

O momento mais emocionante do forte depoimento foi quando ela falou sobre os cuidados que teve com a irmã, quando esteve internada em Manaus. Também quando comentou sobre os sobrinhos, que ficaram órfãos após o falecimento da mãe.

“Muitas vezes eu assumia a assistência de saúde da minha irmã porque nós tínhamos cinco técnicos de enfermagem para cuidar de 80 pacientes graves”, relatou Mayra aos senadores. “Só em Manaus nós temos mais de 80 órfãos da covid. Só na minha família são quatro”, disse a enfermeira. “O que está se fazendo por essas crianças e por essas famílias?”, questionou Mayra.

Crianças órfãs

Após o depoimento da enfermeira, o presidente da CPI da Covid, Omar Aziz (PSD-AM), destacou que a comissão pretende criar uma pensão especial para órfãos de vítimas do novo coronavírus.

“Estamos fazendo um projeto aqui para amparar as crianças órfãs” disse o senador.

Em outro momento, o relator da comissão, Renan Calheiros (MDB-AL), detalhou que a proposta de benefício prevista em seu parecer deve ter o valor de um salário mínimo, que a partir do ano que vem passa a ser de R$ 1.192, para os órfãos, cuja renda familiar não permita a sobrevivência até completar 21 anos de idade.

Segundo Mayra, o auxílio seria “essencial”, mas “um salário mínimo não resolve muita coisa, mas já vai ajudar”, disse.

 

‘Vivemos tristes, com um ou outro momento de alegria’, diz órfã da covid

Orfã da Covid, a jovem Giovanna Gomes Mendes da Silva, de 19 anos, perdeu a mãe e o pai por complicações da doença em um intervalo de 14 dias. Hoje, tem a guarda de sua irmã mais nova, de 10 anos, e diz passar por problemas psicológicos e financeiros. “Antes, vivia uma vida de alegria com alguns momentos de tristeza. Hoje, vivemos tristes, e uma ou outra coisa nos deixa alegres”, relatou.

Com a voz trêmula, Giovanna disse que sua mãe passou uma noite, durante a internação, com a máscara de oxigênio furada. “Trocaram, mas de qualquer forma o quadro dela se agravou”. Sua mãe ficou intubada por oito dias antes de falecer.

Dois dias depois, seu pai foi internado. Ele já havia se recuperado da Covid, mas tinha um câncer que se espalhou por seu organismo após a doença. “A gente não teve nem tempo de sofrer pela minha mãe, pois não podia ficar chorando na frente do meu pai”, disse a jovem. “Perdemos as pessoas que mais amávamos”.

Giovanna, que hoje é a chefe da família e cuida de sua irmã, diz viver com doações de parentes. A família de sua mãe, ela afirma, contribui com o pouco que possui. “Passamos a não ter nossos dois pilares e também não ter quem nos ajudasse”, afirmou.

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