“Quanto mais você estoca qualquer coisa, mais aumenta a chance de circulação do coronavírus”

Economistas não preveem pane em um curto prazo, mas supermercados pedem consumo consciente para evitar desabastecimento

Brasileiros fazem filas em São Paulo para comprar produtos essenciais como o álcool em gel, em meio a pandemia. Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas

Brasileiros fazem filas em São Paulo para comprar produtos essenciais como o álcool em gel, em meio a pandemia. Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas

Economia

Prateleiras vazias, filas nos caixas, carrinhos lotados e brigas por produtos em falta. Assim é descrito o cenário dos supermercados de alguns países que já foram absorvidos pelo pânico do coronavírus – um cenário que começa a fazer parte de cidades grandes do Brasil, como São Paulo. Apavoradas com a pandemia, populações correm aos estabelecimentos para estocar, principalmente, produtos de limpeza e alimentos.

O papel higiênico foi um dos primeiros itens a desaparecer na Espanha e em Portugal. Em um vídeo divulgado pela emissora russa Russia Today, duas pessoas se agarram a um pacote de rolos entre corredores esvaziados. Nos Estados Unidos, uma foto nas redes sociais mostra produtos em falta em um supermercado no estado de Virgínia. O presidente Donald Trump chegou a pedir, nesta semana, que os americanos comprem “um pouco menos”, e na quarta-feira 18 ativou uma lei que permitirá a interferência do Estado na produção do setor privado.

No Brasil, o aumento da demanda por álcool em gel preocupa fornecedores. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec), o faturamento das vendas de álcool em gel, em 2020, poderá superar até 10 vezes o valor registrado em 2019, saindo de 100 milhões de reais no ano passado para 1 bilhão de reais. Porém, a Associação coloca dúvidas sobre a disponibilidade da matéria-prima essencial para a produção do item, que está em falta no mundo todo.

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) nega que a situação de desabastecimento esteja chegando no Brasil. Na terça-feira 17, o porta-voz da Presidência da República, Otávio Rêgo Barros, afirmou que “não há nenhum tipo de preocupação por parte do Mapa nesse sentido”, mas a pasta se antecipa com medidas preventivas. A Anvisa, por exemplo, lançou no dia seguinte um edital para identificar possíveis ameaças de redução de ofertas de produtos essenciais.

Os supermercados já expressam preocupação com a corrida dos brasileiros às compras. Com 900 lojas em São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, a rede de supermercados Dia informou que, para garantir o abastecimento, equipes dos centros de distribuição têm trabalhado em horário estendido, com intercâmbio e revezamento de profissionais entre as unidades conforme as demandas por região. Mas a companhia apela por consciência dos consumidores.

“A rede Dia reforça o pedido para um consumo consciente por parte dos clientes, para que toda a população consiga ter acesso a itens de primeira necessidade, especialmente alimentos e artigos de higiene e limpeza”, afirmou a empresa, procurada por CartaCapital.

A rede Extra foi à televisão para comunicar que suas lojas permanecerão abertas e que foram acionados fornecedores para garantir a reposição de produtos. Mas o pedido de consciência também se fez presente, ao fim da nota: “É preciso que cada um faça a sua parte, mantendo sua rotina de compras sem exageros, para que haja disponibilidade de produtos para todos”.

Os supermercados Pão de Açúcar também publicaram nota de alerta: “Alguns de nossos produtos podem ter estoque limitado e, em caso de falta, poderemos substituí-los por similares ou de qualidade superior. Eventualmente, suas compras podem sofrer atrasos”.

A rede restringiu a compra de uma lista de cerca de 30 produtos para evitar o desabastecimento, como álcool em gel (duas unidades por pessoa), arroz (3 unidades de 5 kg por compra), feijão (3 unidades de 1 kg por compra), além de farinha, leite, papel higiênico, sabonete, desinfetante, água sanitária, luvas e sacos de lixo, entre outros.

Em parecer divulgado na quinta-feira 19, a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) afirmou que o setor supermercadista registrou somente a falta de álcool em gel. A ausência de outros itens na gôndola se deve à crescente demanda nas lojas, ou seja, “um problema de reposição”. O setor também tem disponibilizado horários diferenciados para pessoas acima de 60 anos, informa a Abras.

Mestre em Economia pela Universidade Federal Fluminense (UFF), David Deccache acredita que a hipótese de desabastecimento, por enquanto, está fora de cogitação. Ele afirma que há uma capacidade ociosa gigante na indústria, que é capaz de absorver a demanda.

“Qual o cenário agora? A gente tem, por um lado, uma capacidade ociosa muito grande da indústria e altos níveis de estoque. Então, se houver uma pressão de demanda por conta desse pânico inicial, há como atendê-la com a expansão de oferta e com os estoques acumulados”, explica ele.

No entanto, tudo depende de uma possível evolução aguda da pandemia no Brasil, acompanhada do fechamento de fábricas e do aumento do pânico. Para Deccache, o panorama de desabastecimento tem maior relação com uma situação dramática do coronavírus do que com uma análise puramente econômica. Nada disso pode ser respondido sem o esclarecimento das recomendações sanitárias do governo que estão por vir, no âmbito da produção e circulação de mercadorias.

“Vamos supor que o cenário do coronavírus no Brasil seja pior do que está ocorrendo no mundo e que a evolução exija medidas mais drásticas, como o fechamento das próprias fábricas, uma paralisação mais generalizada da produção. Isso pode gerar pressão de demanda forte que, por falta de gente para trabalhar e distribuir, sim, pode gerar uma pane no sistema de oferta”, avalia. “Há uma incerteza muito grande. A evolução do vírus é discrepante entre os países, e o governo federal não é claro em relação às medidas [sanitárias] que serão adotadas, o que deixa o debate mais nebuloso.”

O doutor em Economia de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) Renan Gomes de Pieri também não enxerga um cenário de desabastecimento a curto prazo. Na mesma linha de Deccache, Pieri diz que, com a crise prolongada desde 2015, as indústrias ganharam maior capacidade ociosa e têm potencial de aumentar a produção agora. Num momento em que as pessoas correm aos supermercados por medo, é possível observar, de um dia para o outro, a falta de produtos essenciais, mas ao decorrer do dia isso é normalizado.

Mas esta análise, ele frisa, é uma fotografia do momento atual. A depender da velocidade e do alcance da pandemia, a contaminação generalizada de trabalhadores rurais e da indústria pode mudar o cenário. Hoje, nada indica este quadro, mas um eventual avanço catastrófico, imprevisto até agora, não descarta situação de desabastecimento.

“A quarentena no caso de pessoas não infectadas é uma escolha difícil para as empresas. O país não pode ficar sem suprimentos”, diz economista.

E a campanha para as pessoas ficarem em casa? Com a pandemia, entidades e meios de comunicação pedem para que os brasileiros, caso possam, resguardem-se em suas residências para não potencializarem a transmissão. Isso não pode diminuir o quadro de funcionários nas fábricas? Para Pieri, a escolha de afastar trabalhadores sem sintomas é um dilema, porque, nos setores essenciais, o fechamento faz contraste com as demandas sociais.

“A quarentena no caso de pessoas não infectadas é uma escolha difícil. Uma empresa que reduzir as suas atividades vai ter prejuízos, muitas não vão sobreviver a esse período. Em relação aos produtos de primeira necessidade, a gente não deve observar os funcionários em casa. As empresas deverão adotar medidas sanitárias, mas em todos os países que tiveram quarentena as companhias trabalharam. O país não pode ficar sem suprimentos”, examina o economista.

Um dos focos para conter a pandemia, portanto, deve ser a assistência financeira do governo aos trabalhadores informais, para convencê-los a não saírem de casa, avalia Pieri. Sem renda, esses brasileiros se veem obrigados a irem à rua para prestar serviços e pagar as contas. No caso dos supermercados, as autoridades públicas também podem investir em medidas para impedir a falta de produtos perecíveis, que dependem de uma logística de entregas diárias.

Além disso, é necessário criar campanhas de conscientização dos consumidores e evitar as “supercompras” para estocagem.

“É uma falta de solidariedade, porque é ruim para todo mundo. Se eu estoco toda a quantidade de álcool em gel, não estou mais seguro. Essa é uma doença que, quanto mais infectados houver ao meu redor, maior é a chance do meu contágio também. Então, não adianta só eu estar protegido. E se as pessoas estocarem comida, vai se criar um movimento maior de gente procurando comida nos estabelecimentos e se infectando nas ruas. Quanto mais você estoca qualquer coisa, mais você aumenta a chance de circulação do vírus”, diz Pieri.

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Repórter do site de CartaCapital

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