Economia

Guerra no Irã prejudica setor de alimentos halal do Brasil

Aumento de custos e incerteza logística colocam em alerta mercado em expansão. Produtores buscam alternativas para manter o fluxo comercial, como redirecionamento de rotas, além de mirar novos mercados muçulmanos

Guerra no Irã prejudica setor de alimentos halal do Brasil
Guerra no Irã prejudica setor de alimentos halal do Brasil
Um barco navegando nas águas do Estreito de Ormuz. Foto: Giuseppe Cacece/AFP
Apoie Siga-nos no

A ampliação da guerra no Oriente Médio afeta em cheio um setor cada vez mais relevante para o Brasil, no qual empresas vêm buscando expansão e realizando investimentos. O país é hoje o maior fornecedor do mundo de alimentos halal, que seguem o processo islâmico para consumo. Além das exportações, que têm países como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos como maiores compradores, o setor de proteína animal brasileiro vem ampliando sua presença na região, inclusive com operações próprias, o que tende a sofrer os impactos do conflito em curso.

A carne de aves é a proteína mais exposta aos conflitos no Oriente Médio, representando, em média, 30% das exportações brasileiras de frango em 2025, apontam os analistas Matheus Enfeldt e Victor Modanese, do banco UBS. Já as exportações brasileiras de carne bovina têm uma exposição de 7% à região. A soma de ambos os envios ficou próxima a 6 bilhões de dólares em 2025.

“Os impactos podem surgir do redirecionamento de rotas de embarque e do aumento dos custos”, avaliam. Grande parte dos envios para a região ocorre por rotas marítimas, algumas muito afetadas pelos conflitos.

Em relatório sobre o impacto da guerra no mercado de proteína animal, o banco Rabobank destacou o Brasil, uma vez que o país está enfrentando o aumento dos custos de frete e seguros.

“Os importadores estão buscando rotas alternativas. Com algum tráfego pelo Canal de Suez ainda em andamento, as exportações estão chegando aos portos do Mar Vermelho na Arábia Saudita, Iêmen e Omã antes de seguirem por terra”, destacou.

Além disso, em razão da guerra, há uma cobrança de taxas extras por container que circula por certas rotas na região, aponta Ali Hussein El Zoghbi, vice-presidente da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (Fambras). “Nossos produtos sofreram muito com o fechamento do Estreito de Ormuz”, aponta.

“A situação causa muita preocupação, inclusive pelo conflito poder ficar maior”, avalia. Segundo ele, os contratos atuais foram menos afetados pela guerra em curso, pois foram firmados meses atrás.

No entanto, ele acredita que os próximos envios podem sofrer com o impacto da alta dos preços. Desta forma, exportadores brasileiros teriam duas opções: a primeira, redirecionar os produtos para mercados alternativos, como países muçulmanos não árabes. A outra, ampliar as vendas internamente, o que, aumentando a oferta, tem potencial de diminuir os preços de produtos como frango e ovos no Brasil.

No final de março, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) solicitou ao governo federal medidas de apoio para mitigar possíveis impactos financeiros nas exportações. A entidade enviou um pedido ao Ministério da Fazenda visando mecanismos de apoio ao capital de giro das empresas exportadoras.

Atuação na região

Mais do que exportadoras, as empresas brasileiras do ramo de proteína animal vêm ampliando sua presença no Oriente Médio. Durante sua última apresentação de balanços financeiros, em meados de março, a MBRF afirmou que a empresa posicionou grandes estoques nos países de destino na região desde 2024, o que ajudou a evitar interrupções nos custos materiais.

Na ocasião, a companhia destacou sua longa presença operacional na região e o rápido redirecionamento da carga já em alto-mar ao longo da redistribuição em hubs no Oriente Médio. Controladora da Sadia, a MBRF conta desde o ano passado com a ramificação Sadia Halal, dedicada exclusivamente aos produtos próprios para o consumo islâmico.

A empresa é a maior produtora de frangos halal do mundo. O negócio foi criado em uma parceria com Public Investment Fund (PIF), fundo soberano da Arábia Saudita. No anúncio, a Sadia afirmou que possui 36,2% de fatia de mercado entre consumidores nos países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG).

A JBS tem atualmente cerca de 1600 funcionários espalhados por países como Arábia Saudita, Emirados Árabes e Omã, onde, no começo deste ano, anunciou aportes de 150 milhões de dólares. A iniciativa visa criar três mil empregos na região, em um cenário agora desafiado pelo conflito.

Halal e o Brasil

O alimento halal difere dos demais pelo método de produção. No caso das proteínas animais, o abate precisa ser feito pelo método de degola, sem insensibilização elétrica, por um abatedor muçulmano, sob o rito islâmico e em uma linha voltada para a cidade de Meca.

Também são necessárias medidas para evitar a contaminação com substâncias proibidas pela religião, como álcool e derivados suínos, o que também vale para alimentos processados. Buscando minimizar o impacto ambiental da produção, os produtos halal são descritos cada vez mais como sustentáveis e ligados às metas ESG (sigla em inglês para se referir às áreas ambiental, social e de governança).

O Brasil inaugurou atuação neste mercado há cerca de 50 anos, Na época, o País aceitou trocar frango por combustível fóssil com a Arábia Saudita, no período agudo da crise do petróleo que seguiu a guerra do Yom Kippur, quando o uso do dólar em transações internacionais esteve inviabilizado em vários níveis.

Desde então, o País se tornou o maior fornecedor de alimentos para os 57 países da Organização para Cooperação Islâmica (OCI), com exportações ao bloco totalizando 28,12 bilhões de dólares em 2024, de acordo com dados da própria organização.

Grande parte do processo passa pela certificação exigida pelos países islâmicos para que um produto possa ser vendido com o selo halal. “As certificadoras brasileiras conseguiram acreditação com uma auditoria minuciosa”, conta El Zoghbi. “O halal brasileiro hoje é do mais alto nível, sendo muito respeitado, inclusive pelos processos de rastreabilidade”, afirma.

“Foi algo que passou por diferentes governos e espectros políticos. O agro brasileiro enxergou a oportunidade, e o País se tornou ao longo de décadas uma base de exportação”, conta.

A ampla comunidade árabe brasileira é vista como um elemento que auxiliou no processo. Recentemente, o País focou ainda em ampliar suas exportações em mercados muçulmanos não árabes, como Indonésia e Malásia.

Mercado em expansão

Quando o tema é abordado, a expansão da comunidade muçulmana no mundo é um dos principais fatores que atraem investidores em busca de conquistar o mercado. O The State of Islamic Economy Report de 2024 estima que a alimentação halal movimente no mundo 1,4 trilhão de dólares por ano, havendo 1,9 bilhão de consumidores em potencial.

“Hoje, os muçulmanos são 25% da população mundial”, reforça El Zoghbi, ressaltando que esse número deve crescer nas próximas décadas. Além do setor de alimentos, o processo halal engloba fármacos, cosméticos e até turismo.

Neste caso, o conceito abrange destinos e serviços adaptados às necessidades de viajantes muçulmanos: alimentação halal certificada, espaços para oração, ausência de álcool em determinados ambientes e infraestrutura que respeita os preceitos do islã.

No último 20 de março, o ministro do Turismo, Gustavo Feliciano, afirmou que o “turismo voltado ao público árabe é um dos segmentos que mais crescem no mundo. O Brasil está atento a esse movimento e trabalha para se posicionar como um destino preparado, acolhedor e competitivo para esse público”.

Na ocasião, o Ministério do Turismo firmou memorando de entendimento com a Câmara de Comércio Árabe Brasileira (CCAB) para trabalho conjunto pela atração de investimento árabe no setor e de visitantes da região ao Brasil. Na capital paulista, certos estabelecimentos já exibem selo de certificação halal de seus produtos.

No campo externo, o governo brasileiro vem se posicionando para estreitas relações de comércio com estes países. “Vemos os acordos de livre comércio com os países árabes como estratégicos, notadamente o Mercosul-Emirados Árabes Unidos, o mais avançado deles em negociação”, afirma Mohamad Mourad, secretário-geral da CCAB.

“Tivemos muito sucesso com o Mercosul-Egito, em vigor desde 2017, que já propiciou a ampliação do comércio entre o Brasil e o Egito. Em 2017, a corrente comercial entre os países era de 2,57 bilhões de dólates. Em 2024, saltou para 4,91 bilhões de dólares, havendo também diversificação na pauta”, aponta.

“Acreditamos ser possível alcançar o mesmo sucesso no entendimento com os Emirados Árabes Unidos, mas também com outros que podem ser rapidamente retomados ou finalizados”, projeta.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Depois de anos bicudos, voltamos a um Brasil minimamente normal. Este novo normal, contudo, segue repleto de incertezas. A ameaça bolsonarista persiste e os apetites do mercado e do Congresso continuam a pressionar o governo. Lá fora, o avanço global da extrema-direita e a brutalidade em Gaza e na Ucrânia arriscam implodir os frágeis alicerces da governança mundial.

CartaCapital não tem o apoio de bancos e fundações. Sobrevive, unicamente, da venda de anúncios e projetos e das contribuições de seus leitores. E seu apoio, leitor, é cada vez mais fundamental.

Não deixe a Carta parar. Se você valoriza o bom jornalismo, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal da revista ou contribua com o quanto puder.

Leia também

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo