Economia

Estatais federais alcançam de R$ 1 trilhão de patrimônio líquido em 2025

Juntas, as 44 empresas tiveram um lucro de 169 bilhões de reais em 2025, aumento de 45% em relação ao ano anterior

Estatais federais alcançam de R$ 1 trilhão de patrimônio líquido em 2025
Estatais federais alcançam de R$ 1 trilhão de patrimônio líquido em 2025
O edifício sede da Petrobras no Rio de Janeiro. Foto: Mauro Pimentel/AFP
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As 44 estatais federais alcançaram pela primeira vez um patrimônio líquido conjunto de 1 trilhão de reais no fim do ano passado. A Petrobras e três bancos (do Brasil, BNDES e Caixa Econômica Federal) respondem por mais de 90% do resultado. “Patrimônio líquido” é um indicador que representa uma espécie de valor real de uma empresa. É a soma de seus ativos descontadas as dívidas.

Juntas, as 44 empresas tiveram um lucro de 169 bilhões de reais em 2025, aumento de 45% em relação ao ano anterior. O desempenho delas correspondeu a 4,9% do PIB, a soma das riquezas do País durante um ano. Em 2024, o mesmo dado era de 5,3%.

Essas informações constam do relatório anual sobre as estatais federais divulgado nesta quinta-feira 2 pelo Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos. De acordo com a pasta, o trilionário patrimônio líquido decorre de uma administração melhor das empresas, com mais receitas e controle ou redução de gastos. Idem os lucros.

O relatório apresenta uma situação bastante contrastante com números divulgados periodicamente pelo Banco Central (BC) a respeito de 20 estatais. Pelo documento do BC, essas empresas tiveram um déficit de 5 bilhões de reais no ano passado, o segundo pior da história.

A contabilidade usada pelo BC segue uma metodologia específica do Fundo Monetário Internacional (FMI) para contas públicas. Isso faz, por exemplo, com que o investimento de uma estatal seja classificado como “déficit” e de uma vez só, não de forma diluída ao longo do tempo enquanto essa despesa ocorre.

A mesma classificação de “déficit” ocorre com os dividendos pagos por uma estatal a seus acionistas, o governo entre eles. O que é sinal de saúde financeira e empresarial transforma-se em um fato negativo na metodologia do FMI. Por outro lado, se uma estatal dá calote em um fornecedor, o dinheiro economizado é contabilizado como “superávit”, embora reflita uma situação operacional ruim.

O relatório do Ministério da Gestão faz uma radiografia das estatais a partir da contabilidade empresarial tradicional. “O problema é a interpretação que grande parte da opinião pública tem dado à metodologia do BC. É uma narrativa que desinforma a população”, afirma Elisa Leonel, chefe da Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais, repartição do Ministério.

O tema “estatais” promete fazer parte da campanha presidencial que começa em agosto. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal pré-candidato da oposição, promete privatizações. “Temos algumas estatais que podem ser privatizadas, como algumas dentro da própria Petrobras, que podem dar um impacto de algumas centenas de bilhões de reais, de uma forma, talvez, dentro do primeiro ano de governo ainda”, disse em junho, em evento da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Em defesa das estatais, Elisa Leonel comenta que elas ajudam a enfrentar crises de diferentes ordens (geopolítica, climática, sanitária) que o setor privado não é capaz de encarar sozinho. “Não existe contraposição entre estatal e setor privado, são capacidades distintas para problemas de complexidades distintas. O Estado é o único com capacidade de assumir riscos de longo prazo e de fazer investimentos com retorno alargado no tempo.”

A secretária menciona privatizações de água e energia elétrica em São Paulo como casos que merecem reflexão por parte da sociedade sobre a conveniência de delegar serviços públicos universais a mãos particulares. Cita ainda a soberania nacional em tempos de transformação digital.

O governo do pai de Flávio Bolsonaro tinha planos de vender empresas federais de tecnologia, como o Serpro e a Dataprev. Informações sobre o imposto de renda dos brasileiros, por exemplo, estariam sob guarda privada.

No primeiro ano do presidente Lula, o governo decidiu repatriar todos os dados sensíveis do País que estavam armazenados em “nuvens” estrangeiras. A Dataprev tem sido fundamental no projeto. Ela e o Serpro terão investido cerca de 3 bilhões de reais quando o projeto tiver sido concluído.

Segundo Elisa Leonel, as transformações digitais mundo afora são uma das três principais explicações para uma mudança percebida no olhar sobre as estatais por parte da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), uma espécie de clube de países ou simpatizantes. As outras são a geopolítica e a crise climática.

Os três fatores têm levado governos a apostar em reestatizações e em posição de liderança nas parcerias feitas com empresas privadas. Um exemplo: em abril, a americana USA Rare Earth, que explora minerais valiosos conhecidos como terras raras, comprou uma mina em Goiás, a única fora da Ásia. A companhia tinha feito pouco antes um acordo de semi-estatização com a Casa Branca. Havia vendido 10% do capital ao governo dos Estados Unidos.

Nos EUA, a estatal de entregas de cartas e encomendas tem tido prejuízos bilionários, graças à digitalização da economia e do comércio global. Não há coro, porém, de que seja privatizada, ao contrário do que ocorre no Brasil. “A crise postal é mundial. Nenhum país renunciou a seu serviço postal, o que tem acontecido é mudança de modelo”, diz a secretária.

Os Correios destoam dos números positivos do relatório sobre as estatais federais. Acumularam prejuízo de 8 bilhões de reais em 2025, o quarto ano seguido no vermelho. Há um plano em curso para enxugar despesas, modernizar operações e transformar a empresa em uma grande companhia de logística, mas ainda levará tempo.

Além de sofrer com a realidade econômica mundial, a estatal sentiu a falta de investimentos no governo Bolsonaro. A companhia tinha sido colocada na lista de empresas privatizáveis. Quando isso acontece, fica impedida de investir.

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