Economistas da Unicamp lançam manifesto em prol do Welfare State

Economia

Um grupo de economistas formados pela Unicamp lançou nesta terça-feira 23 um manifesto em prol do Estado de Bem Estar Social (Welfare State) e contra a desregulamentação da economia mundial. Chamado de “Manifesto em defesa da civilização”, o texto critica os modelos de arrocho adotados na crise econômica mundial e se insere na tradição da cátedra da universidade, sempre mais voltada para a economia heterodoxa.

O manifesto assinala as benesses que o sistema capitalista trouxe à humanidade, mas ressalta que a desregulamentação tem trazido escassez para os mais pobres. “É preciso agradecer ao capitalismo, e ao seu desatinado desenvolvimento, pela exuberância de riqueza gerada. Ele proporcionou ao homem o domínio da natureza e uma espantosa capacidade de produzir em larga escala os bens essenciais para as satisfações das necessidades humanas imediatas. Diante dessa riqueza, é difícil encontrar razões para explicar a escassez de comida, de transporte, de saúde, de moradia, de segurança contra a velhice, etc.”

“Essa regressão social começou quando começamos a libertar a economia dos limites impostos pela sociedade, já no início dos anos 70. Sob o ideário liberal dos mercados, em nome da eficiência e da competição, a ética da solidariedade foi substituída pela ética da concorrência ou do desempenho.  É o seu desempenho individual no mercado que define sua posição na sociedade: vencedor ou perdedor”, diz o manifesto.

Subscrevem a mensagem, entre outros, Luiz Gonzaga Belluzzo, Gabriel Priolli e Demerval Saviani, entre outros.

Leia o manifesto inteiro:

Manifesto em defesa da civilização

Vivemos hoje um período de profunda regressão social nos países ditos desenvolvidos. A crise atual apenas explicita a regressão e a torna mais dramática. Os exemplos multiplicam-se. Em Madri uma jovem de 33 anos, outrora funcionária dos Correios, vasculha o lixo colocado do lado de fora de um supermercado. Também em Girona, na Espanha, diante do mesmo problema a Prefeitura mandou colocar cadeados nas latas de lixo. O objetivoalegado é preservar a saúde das pessoas. Em Atenas, na movimentada PraçaSyntagma situada em frente ao Parlamento, Dimitris Christoulas, químico aposentado de 77 anos, atira contra a própria cabeça numa manhã de quarta-feira. Na nota de suicídio ele afirma ser essa a única solução digna possível frente a um Governo que aniquilou todas as chances de uma sobrevivência civilizada. Depois de anos de precários trabalhos temporários o italiano Angelo di Carlo, de 54 anos, ateou fogo a si próprio dentro de um carro estacionado em frente à sede de um órgão público de Bologna.

Em toda zona do euro cresce a prática medieval de anonimamente abandonar bebês dentro de caixas nas portas de hospitais e igrejas. A Inglaterra de Lord Beveridge, um dos inspiradores do Welfare State, vem cortando recorrentemente alguns serviços especializados para idosos e doentes terminais. Cortes substantivos no valor das aposentadorias e pensões constituem uma realidade cada vez mais presente para muitos integrantes da chamada comunidade europeia. Por toda a Europa, museus, teatros, bibliotecas e universidades públicas sofrem cortes sistemáticos em seus orçamentos. Em muitas empresas e órgãos públicos é cada vez mais comum a prática de trabalhar sem receber. Ainda oficialmente empregado é possível, ao menos, manter a esperança de um dia ter seus vencimentos efetivamente pagos. Em pior situação está o desempregado. Grande parte deles são jovens altamente qualificados. A massa crescente de excluídos não é um fenômeno apenas europeu. O mesmo acontece nos EUA. Ali, mais do que em outros países, a taxa de desemprego tomada isoladamente não sintetiza mais a real situação do mercado de trabalho. A grande maioria daqueles que hoje estão empregados ocupam postos de trabalhos precários e em tempo parcial concentrados no setor de serviços. Grande parte dos postos mais qualificados e de melhor remuneração da indústria de transformação foi destruída pela concorrência chinesa. Nesse cenário, a classe média vai sendo espremida, a mobilidade social é para baixo e o mercado de trabalho vai ficando cada vez mais polarizado no país das oportunidades. No extremo superior, pouquíssimos executivos bem remunerados que têm sua renda diretamente atrelada ao mercado financeiro. No extremo inferior, uma massa de serviçais pessoais mal pagos sem nenhuma segurança, que vivem uma realidade não muito diferente dos mais de 100 milhões que recebem algum tipo de assistência direta do Estado. O Welfare State, ao invés de se espalhar pelo planeta, encampando as tradicionais hordas de excluídos, encolhe, aumentando a quantidade de deserdados.

Muitos dirão que essa situação será revertida com a suposta volta do crescimento econômico e a retomada do investimento na indústria de transformação nestes países. Não é verdade. É preciso aceitar rapidamente o seguinte fato: no capitalismo, o inexorável progresso tecnológico torna o trabalho redundante. O exponencial aumento da produtividade e da produção industrial é acompanhado pela constante redução da necessidade de trabalhadores diretos. Uma vez excluídos, reincorporam-se – aqueles que o conseguem – como serviçais baratos dentro de um circuito de renda comandado pelos detentores da maior parcela da riqueza disponível. Por isso mesmo, a crescente desigualdade de renda é funcional para explicar a dinâmica desse mercado de trabalho polarizado. Diante desse quadro, uma pergunta torna-se inevitável: estamos nós, hoje, vivendo uma crise que nega os princípios fundamentais que regem a vida civilizada e democrática? E se isso for verdade: quanto tempo mais a humanidade suportará tamanha regressão? A angústia torna-se ainda maior quando constatamos que as possibilidades de conforto material para a grande maioria da população deste planeta são reais. É preciso agradecer ao capitalismo, e ao seu desatinado desenvolvimento, pela exuberância de riqueza gerada. Ele proporcionou ao homem o domínio da natureza e uma espantosa capacidade de produzir em larga escala os bens essenciais para as satisfações das necessidades humanas imediatas. Diante dessa riqueza, é difícil encontrar razões para explicar a escassez de comida, de transporte, de saúde, de moradia, de segurança contra a velhice, etc. Numa expressão, escassez de bem estar! Um bem estar que marcou os conhecidos “anos dourados” do capitalismo. A dolorosa experiência de duas grandes guerras e da depressão pós 1929, nos ensinou que deveríamos limitar e controlar as livres forças do mercado. Os grilhões colocados pela sociedade na economia explicam quase 30 anos de pleno emprego, aumento de salários e lucros e, principalmente, a consolidação e a expansão do chamado Estado de Bem Estar Social. Os direitos garantidos pelo Estado não deveriam ser apenas individuais, mas também coletivos. Vale dizer: sociais. Dessa maneira, ao mesmo tempo em que o direito à saúde, à previdência, à habitação, à assistência, à educação e ao trabalho eram universalizados, milhares de empregos públicos de médicos, enfermeiras, professores e tantos outros eram criados.

O Welfare State não pode ser interpretado como uma mera reforma do capitalismo, mas sim como uma grande transformação econômica, social e política. Ele é, nesse sentido, revolucionário. Não foi um presente de governos ou empresas, mas a consequência de potentes lutas sociais que conseguiram negociar a repartição da riqueza. Isso fica sintetizado na emergência de um Estado que institucionalizou a ética da solidariedade. O individuo cedeu lugar ao cidadão portador de direitos. No entanto, as gerações que cresceram sob o manto generoso da proteção social e do pleno emprego acabaram por naturalizar tais conquistas. As novas e prósperas classes médias esqueceramque seus pais e avós lutaram e morreram por isso. Um esquecimento que custa e custará muito caro às gerações atuais e futuras. Caminhamos para um Estado de Mal Estar Social!

Essa regressão social começou quando começamos a libertar a economia dos limites impostos pela sociedade, já no início dos anos 70. Sob o ideário liberal dos mercados, em nome da eficiência e da competição, a ética da solidariedade foi substituída pela ética da concorrência ou do desempenho.

É o seu desempenho individual no mercado que define sua posição na sociedade: vencedor ou perdedor. Ainda que a grande maioria das pessoas seja perdedora e não concorra em condições de igualdade, não existem outras classificações possíveis. Não por acaso o principal slogan do movimento Occupy Wall Street é “somos os 99%”. Não por acaso, grande parte da população espanhola está indignada.


Mesmo em um país como o Brasil, a despeito dos importantes avanços econômicos e sociais recentes, a outrora chamada “dívida social” ainda é enorme e se expressa na precariedade que assola todos os níveis da vida nacional. Não se pode ignorar que esses caminhos tomados nos países centrais terão impactos sob essa jovem democracia que busca, ainda, universalizar os direitos de cidadania estabelecidos nos meados do século passado nas nações desenvolvidas.

Como então acreditar que precisamos escolher entre o caos e austeridade fiscal dos Estados, se essa austeridade é o próprio caos? Como aceitar que grande parte da carga tributária seja diretamente direcionada para as mãos do 1% detentor de carteiras de títulos financeiros? Por que a posse de tais papéis que representam direitos à apropriação da renda e da riqueza gerada pela totalidade da sociedade ganham preeminência diante das necessidades da vida dos cidadãos? Por que os homens do século XXI submetem aos ditames do ganho financeiro estéril o direito ao conforto, à educação e à cultura?As respostas para tais questões não serão encontradas nos meios de comunicação de massa. Os espaços de informação e de formação da consciência política e coletiva foram ocupados por aparatos comprometidos com a força dos mais fortes e controlado pela hegemonia das banalidades. É mais importante perguntar o que o sujeito comeu no café da manhã do que promover reflexões sobre os rumos da humanidade.

A civilização precisa ser defendida! As promessas da modernidade ainda não foram entregues. A autonomia do indivíduo significa a liberdade de se auto-realizar. Algo impensável para o homem que precisa preocupar-se cotidianamente com sua sobrevivência física e material. Isso implica numa selvageria que deveria ficar restrita, por exemplo, a uma alcateia de lobos ferozes. Ao longo dos últimos de 200 anos de história do capitalismo, o homem controlou a natureza e criou um nível de riqueza capaz de garantir a sobrevivência e o bem estar de toda a população do planeta. Isso não pode ficar restrito para uma ínfima parte. Mesmo porque, o bem estar de um só é possível quando os demais à sua volta encontram-se na mesma situação.

Caso contrário, a reação é inevitável, violenta e incontrolável. A liberdade só é possível com igualdade e respeito ao outro. É preciso colocar novamente em movimento as engrenagens da civilização.

Os signatários:

DAVI DONIZETI DA SILVA CARVALHO


EDUARDO FAGNANI


CAMILA LINHARES TEIXEIRA


CLAUDIO LEOPOLDO SALM


MILTON LAHUERTA


EDSON CORREA NUNES


MIRIAM DOMINGUES


WILMA PERES COSTA


NEIRI BRUNO CHIACHIO


NATÁLIA MINHOTO GENOVEZ


PEDRO GILBERTO ALVES DE LIMA


SAMIRA KAUCHAKJE


FABIO DOMINGUES WALTENBERG


ALICIA UGÁ


JULIANO SANDER MUSSE


AMÉLIA COHN


LIGIA BAHIA


MAGDA BARROS BIAVASCHI


FABRÍCIO AUGUSTO DE OLIVEIRA


ANTONIO CARLOS ROCHA


RODRIGO PEREYRA DE SOUSA COELHO


GABRIEL QUELHAS DE ALMEIDA


MARIENE GONÇALVES TUNG


AMILTON MORETTO


ANA AURELIANO SALM


MARCIO SOTELO FELIPPE


FREDERICO MAZZUCCHELLI


CELIO HIRATUKA


EDUARDO BARROS MARIUTTI


ANGELA MOULIN SIMÓES PENALVA SANTOS


ANGELA MARIA CARVALHO BORGES


JOÃO MIRANDA SILVA FAGNANI


RODOLFO AURELIANO SALM


EVA LUCIA SALM


ÉDER LUIZ MARTINS


FERNANDA MAZZONI DE OLIVEIRA


MICHELLE MAUREN DOVIGO CARVALHO


FELIPE LARA CIOFFI


ALOISIO SERGIO ROCHA BARROSO


RONEY MENDES VIEIRA


NAIRO JOSÉ BORGES LOPES


MARIA FERNANDA CARDOSO DE MELO


WILSON CANO


NEREIDE SAVIANI –


FREDERICO LOPES NETO


MARIA DE FÁTIMA BARBOSA ABDALLA


BRANCA JUREMA PONCE


LUIZ GONZAGA DE MELLO BELLUZZO


ALAN GUSMÃO SILVA


JOSE ANTONIO MORONI


VANESSA CRISTINA DOS SANTOS


JOSÉ CLAUDINEI LOMBARDI


EDSON DONIZETTI XAVIÉR DE MIRANDA


MARIA EDUARDA PAULA BRITO DE PINA


MARIA DE FATIMA FELIX ROSAR


CÁSSIA HACK


DERMEVAL SAVIANI


ROBSON SANTOS DIAS


RODRIGO TAVORA GADELHA


JORGE LUIZ ALVES NATAL


LUCIANO VIANNA MUNIZ


ALUIZIO FRANCO MOREIRA


MARISE VIANNA MUNIZ


JURACI COLPANI


ALESSANDRO CESAR ORTUSO


GENILDO SIQUEIRA


CARLOS EDUARDO DE FARIAS


CARLOS ALONSO BARBOSA DE OLIVEIRA


JOSE DAMIRO DE MORAES


FERNANDO MOREIRA MORATO


CELSO JOÃO FERRETTI


SILVIA ESCOREL DE MORAES


DANIEL ARIAS VAZQUEZ


EVERTON DAB DA SILVA


JOÃO GABRIEL BARRETO SILVA ROCHA


CELSO EUGÊNIO BRETA FONTES


SARAH ESCOREL


VINICIUS GASPAR GARCIA


DENIS MARACCI GIMENEZ


DENISE DO CARMO SILVA PEREIRA


JEFFERSON CARRIELLO DO CARMO –


VAGNER SILVA DE OLIVEIRA


GABRIEL PRIOLLI


JÉSSICA MARCON DALCOL


MARINA VENÂNCIO GRANDOLPHO


PEDRO HENRIQUE DE MELLO LULA MOTA


DANIEL SANTIAGO MOREIRA


VANESSA MORAES LUGLI


SANDRA MARIA DA SILVA LIMA


CARLOS RAFAEL LONGO DE SOUZA


MARIA SILVIA POSSAS


LUCIANA RAMIREZ DA CRUZ


CAROLINA PIGNATARI MENEGHEL


PEDRO DOS SANTOS PORTUGAL JÚNIOR


JOSÉ AUGUSTO GASPAR RUAS


WELLINGTON CASTRO DOS SANTOS


ALESSANDRO FERES DURANTE


DANIEL HERRERA PINTO


PEDRO HENRIQUE VERGES


DAVI JOSÉ NARDY ANTUNES


CARLA CRISTIANE LOPES CORTE


CARLOS ALBERTO DRUMMOND MOREIRA


DANIEL DE MATTOS HÖFLING


MARCELO WEISHUPT. PRONI


ENIO PASSIANI


JOSÉ DARI KREIN


ANSELMO LUIS DOS SANTOS


FABIO EDUARDO IADEROZZA


HIGOR FABRÍCIO DE OLIVEIRA


DANER HORNICH


HELDER DE MELO MORAES


JOSE EDUARDO DE SALLES ROSELINO JUNIOR


JULIANA PINTO DE MOURA CAJUEIRO


FERNANDO CATALANI


FERNANDA PIM NASCIMENTO SERRALHA


LEANDRO PEREIRA MORAIS


MARCELO PRADO FERRARI MANZANO


OLIVIA MARIA BULLIO MATTOS


RENATO BROLEZZI


LUCAS JANNONI SOARES


MÁRCIO SAMPAIO DE CASTRO


MARIA PINON PEREIRA DIAS


LUIZ MORAES DE NIEMEYER NETO


RODRIGO COELHO SABBATINI


LÍCIO DA COSTA RAIMUNDO


FERES LOURENÇO KHOURY

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Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

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Um grupo de economistas formados pela Unicamp lançou nesta terça-feira 23 um manifesto em prol do Estado de Bem Estar Social (Welfare State) e contra a desregulamentação da economia mundial. Chamado de “Manifesto em defesa da civilização”, o texto critica os modelos de arrocho adotados na crise econômica mundial e se insere na tradição da cátedra da universidade, sempre mais voltada para a economia heterodoxa.

O manifesto assinala as benesses que o sistema capitalista trouxe à humanidade, mas ressalta que a desregulamentação tem trazido escassez para os mais pobres. “É preciso agradecer ao capitalismo, e ao seu desatinado desenvolvimento, pela exuberância de riqueza gerada. Ele proporcionou ao homem o domínio da natureza e uma espantosa capacidade de produzir em larga escala os bens essenciais para as satisfações das necessidades humanas imediatas. Diante dessa riqueza, é difícil encontrar razões para explicar a escassez de comida, de transporte, de saúde, de moradia, de segurança contra a velhice, etc.”

“Essa regressão social começou quando começamos a libertar a economia dos limites impostos pela sociedade, já no início dos anos 70. Sob o ideário liberal dos mercados, em nome da eficiência e da competição, a ética da solidariedade foi substituída pela ética da concorrência ou do desempenho.  É o seu desempenho individual no mercado que define sua posição na sociedade: vencedor ou perdedor”, diz o manifesto.

Subscrevem a mensagem, entre outros, Luiz Gonzaga Belluzzo, Gabriel Priolli e Demerval Saviani, entre outros.

Leia o manifesto inteiro:

Manifesto em defesa da civilização

Vivemos hoje um período de profunda regressão social nos países ditos desenvolvidos. A crise atual apenas explicita a regressão e a torna mais dramática. Os exemplos multiplicam-se. Em Madri uma jovem de 33 anos, outrora funcionária dos Correios, vasculha o lixo colocado do lado de fora de um supermercado. Também em Girona, na Espanha, diante do mesmo problema a Prefeitura mandou colocar cadeados nas latas de lixo. O objetivoalegado é preservar a saúde das pessoas. Em Atenas, na movimentada PraçaSyntagma situada em frente ao Parlamento, Dimitris Christoulas, químico aposentado de 77 anos, atira contra a própria cabeça numa manhã de quarta-feira. Na nota de suicídio ele afirma ser essa a única solução digna possível frente a um Governo que aniquilou todas as chances de uma sobrevivência civilizada. Depois de anos de precários trabalhos temporários o italiano Angelo di Carlo, de 54 anos, ateou fogo a si próprio dentro de um carro estacionado em frente à sede de um órgão público de Bologna.

Em toda zona do euro cresce a prática medieval de anonimamente abandonar bebês dentro de caixas nas portas de hospitais e igrejas. A Inglaterra de Lord Beveridge, um dos inspiradores do Welfare State, vem cortando recorrentemente alguns serviços especializados para idosos e doentes terminais. Cortes substantivos no valor das aposentadorias e pensões constituem uma realidade cada vez mais presente para muitos integrantes da chamada comunidade europeia. Por toda a Europa, museus, teatros, bibliotecas e universidades públicas sofrem cortes sistemáticos em seus orçamentos. Em muitas empresas e órgãos públicos é cada vez mais comum a prática de trabalhar sem receber. Ainda oficialmente empregado é possível, ao menos, manter a esperança de um dia ter seus vencimentos efetivamente pagos. Em pior situação está o desempregado. Grande parte deles são jovens altamente qualificados. A massa crescente de excluídos não é um fenômeno apenas europeu. O mesmo acontece nos EUA. Ali, mais do que em outros países, a taxa de desemprego tomada isoladamente não sintetiza mais a real situação do mercado de trabalho. A grande maioria daqueles que hoje estão empregados ocupam postos de trabalhos precários e em tempo parcial concentrados no setor de serviços. Grande parte dos postos mais qualificados e de melhor remuneração da indústria de transformação foi destruída pela concorrência chinesa. Nesse cenário, a classe média vai sendo espremida, a mobilidade social é para baixo e o mercado de trabalho vai ficando cada vez mais polarizado no país das oportunidades. No extremo superior, pouquíssimos executivos bem remunerados que têm sua renda diretamente atrelada ao mercado financeiro. No extremo inferior, uma massa de serviçais pessoais mal pagos sem nenhuma segurança, que vivem uma realidade não muito diferente dos mais de 100 milhões que recebem algum tipo de assistência direta do Estado. O Welfare State, ao invés de se espalhar pelo planeta, encampando as tradicionais hordas de excluídos, encolhe, aumentando a quantidade de deserdados.

Muitos dirão que essa situação será revertida com a suposta volta do crescimento econômico e a retomada do investimento na indústria de transformação nestes países. Não é verdade. É preciso aceitar rapidamente o seguinte fato: no capitalismo, o inexorável progresso tecnológico torna o trabalho redundante. O exponencial aumento da produtividade e da produção industrial é acompanhado pela constante redução da necessidade de trabalhadores diretos. Uma vez excluídos, reincorporam-se – aqueles que o conseguem – como serviçais baratos dentro de um circuito de renda comandado pelos detentores da maior parcela da riqueza disponível. Por isso mesmo, a crescente desigualdade de renda é funcional para explicar a dinâmica desse mercado de trabalho polarizado. Diante desse quadro, uma pergunta torna-se inevitável: estamos nós, hoje, vivendo uma crise que nega os princípios fundamentais que regem a vida civilizada e democrática? E se isso for verdade: quanto tempo mais a humanidade suportará tamanha regressão? A angústia torna-se ainda maior quando constatamos que as possibilidades de conforto material para a grande maioria da população deste planeta são reais. É preciso agradecer ao capitalismo, e ao seu desatinado desenvolvimento, pela exuberância de riqueza gerada. Ele proporcionou ao homem o domínio da natureza e uma espantosa capacidade de produzir em larga escala os bens essenciais para as satisfações das necessidades humanas imediatas. Diante dessa riqueza, é difícil encontrar razões para explicar a escassez de comida, de transporte, de saúde, de moradia, de segurança contra a velhice, etc. Numa expressão, escassez de bem estar! Um bem estar que marcou os conhecidos “anos dourados” do capitalismo. A dolorosa experiência de duas grandes guerras e da depressão pós 1929, nos ensinou que deveríamos limitar e controlar as livres forças do mercado. Os grilhões colocados pela sociedade na economia explicam quase 30 anos de pleno emprego, aumento de salários e lucros e, principalmente, a consolidação e a expansão do chamado Estado de Bem Estar Social. Os direitos garantidos pelo Estado não deveriam ser apenas individuais, mas também coletivos. Vale dizer: sociais. Dessa maneira, ao mesmo tempo em que o direito à saúde, à previdência, à habitação, à assistência, à educação e ao trabalho eram universalizados, milhares de empregos públicos de médicos, enfermeiras, professores e tantos outros eram criados.

O Welfare State não pode ser interpretado como uma mera reforma do capitalismo, mas sim como uma grande transformação econômica, social e política. Ele é, nesse sentido, revolucionário. Não foi um presente de governos ou empresas, mas a consequência de potentes lutas sociais que conseguiram negociar a repartição da riqueza. Isso fica sintetizado na emergência de um Estado que institucionalizou a ética da solidariedade. O individuo cedeu lugar ao cidadão portador de direitos. No entanto, as gerações que cresceram sob o manto generoso da proteção social e do pleno emprego acabaram por naturalizar tais conquistas. As novas e prósperas classes médias esqueceramque seus pais e avós lutaram e morreram por isso. Um esquecimento que custa e custará muito caro às gerações atuais e futuras. Caminhamos para um Estado de Mal Estar Social!

Essa regressão social começou quando começamos a libertar a economia dos limites impostos pela sociedade, já no início dos anos 70. Sob o ideário liberal dos mercados, em nome da eficiência e da competição, a ética da solidariedade foi substituída pela ética da concorrência ou do desempenho.

É o seu desempenho individual no mercado que define sua posição na sociedade: vencedor ou perdedor. Ainda que a grande maioria das pessoas seja perdedora e não concorra em condições de igualdade, não existem outras classificações possíveis. Não por acaso o principal slogan do movimento Occupy Wall Street é “somos os 99%”. Não por acaso, grande parte da população espanhola está indignada.


Mesmo em um país como o Brasil, a despeito dos importantes avanços econômicos e sociais recentes, a outrora chamada “dívida social” ainda é enorme e se expressa na precariedade que assola todos os níveis da vida nacional. Não se pode ignorar que esses caminhos tomados nos países centrais terão impactos sob essa jovem democracia que busca, ainda, universalizar os direitos de cidadania estabelecidos nos meados do século passado nas nações desenvolvidas.

Como então acreditar que precisamos escolher entre o caos e austeridade fiscal dos Estados, se essa austeridade é o próprio caos? Como aceitar que grande parte da carga tributária seja diretamente direcionada para as mãos do 1% detentor de carteiras de títulos financeiros? Por que a posse de tais papéis que representam direitos à apropriação da renda e da riqueza gerada pela totalidade da sociedade ganham preeminência diante das necessidades da vida dos cidadãos? Por que os homens do século XXI submetem aos ditames do ganho financeiro estéril o direito ao conforto, à educação e à cultura?As respostas para tais questões não serão encontradas nos meios de comunicação de massa. Os espaços de informação e de formação da consciência política e coletiva foram ocupados por aparatos comprometidos com a força dos mais fortes e controlado pela hegemonia das banalidades. É mais importante perguntar o que o sujeito comeu no café da manhã do que promover reflexões sobre os rumos da humanidade.

A civilização precisa ser defendida! As promessas da modernidade ainda não foram entregues. A autonomia do indivíduo significa a liberdade de se auto-realizar. Algo impensável para o homem que precisa preocupar-se cotidianamente com sua sobrevivência física e material. Isso implica numa selvageria que deveria ficar restrita, por exemplo, a uma alcateia de lobos ferozes. Ao longo dos últimos de 200 anos de história do capitalismo, o homem controlou a natureza e criou um nível de riqueza capaz de garantir a sobrevivência e o bem estar de toda a população do planeta. Isso não pode ficar restrito para uma ínfima parte. Mesmo porque, o bem estar de um só é possível quando os demais à sua volta encontram-se na mesma situação.

Caso contrário, a reação é inevitável, violenta e incontrolável. A liberdade só é possível com igualdade e respeito ao outro. É preciso colocar novamente em movimento as engrenagens da civilização.

Os signatários:

DAVI DONIZETI DA SILVA CARVALHO


EDUARDO FAGNANI


CAMILA LINHARES TEIXEIRA


CLAUDIO LEOPOLDO SALM


MILTON LAHUERTA


EDSON CORREA NUNES


MIRIAM DOMINGUES


WILMA PERES COSTA


NEIRI BRUNO CHIACHIO


NATÁLIA MINHOTO GENOVEZ


PEDRO GILBERTO ALVES DE LIMA


SAMIRA KAUCHAKJE


FABIO DOMINGUES WALTENBERG


ALICIA UGÁ


JULIANO SANDER MUSSE


AMÉLIA COHN


LIGIA BAHIA


MAGDA BARROS BIAVASCHI


FABRÍCIO AUGUSTO DE OLIVEIRA


ANTONIO CARLOS ROCHA


RODRIGO PEREYRA DE SOUSA COELHO


GABRIEL QUELHAS DE ALMEIDA


MARIENE GONÇALVES TUNG


AMILTON MORETTO


ANA AURELIANO SALM


MARCIO SOTELO FELIPPE


FREDERICO MAZZUCCHELLI


CELIO HIRATUKA


EDUARDO BARROS MARIUTTI


ANGELA MOULIN SIMÓES PENALVA SANTOS


ANGELA MARIA CARVALHO BORGES


JOÃO MIRANDA SILVA FAGNANI


RODOLFO AURELIANO SALM


EVA LUCIA SALM


ÉDER LUIZ MARTINS


FERNANDA MAZZONI DE OLIVEIRA


MICHELLE MAUREN DOVIGO CARVALHO


FELIPE LARA CIOFFI


ALOISIO SERGIO ROCHA BARROSO


RONEY MENDES VIEIRA


NAIRO JOSÉ BORGES LOPES


MARIA FERNANDA CARDOSO DE MELO


WILSON CANO


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MARIA DE FÁTIMA BARBOSA ABDALLA


BRANCA JUREMA PONCE


LUIZ GONZAGA DE MELLO BELLUZZO


ALAN GUSMÃO SILVA


JOSE ANTONIO MORONI


VANESSA CRISTINA DOS SANTOS


JOSÉ CLAUDINEI LOMBARDI


EDSON DONIZETTI XAVIÉR DE MIRANDA


MARIA EDUARDA PAULA BRITO DE PINA


MARIA DE FATIMA FELIX ROSAR


CÁSSIA HACK


DERMEVAL SAVIANI


ROBSON SANTOS DIAS


RODRIGO TAVORA GADELHA


JORGE LUIZ ALVES NATAL


LUCIANO VIANNA MUNIZ


ALUIZIO FRANCO MOREIRA


MARISE VIANNA MUNIZ


JURACI COLPANI


ALESSANDRO CESAR ORTUSO


GENILDO SIQUEIRA


CARLOS EDUARDO DE FARIAS


CARLOS ALONSO BARBOSA DE OLIVEIRA


JOSE DAMIRO DE MORAES


FERNANDO MOREIRA MORATO


CELSO JOÃO FERRETTI


SILVIA ESCOREL DE MORAES


DANIEL ARIAS VAZQUEZ


EVERTON DAB DA SILVA


JOÃO GABRIEL BARRETO SILVA ROCHA


CELSO EUGÊNIO BRETA FONTES


SARAH ESCOREL


VINICIUS GASPAR GARCIA


DENIS MARACCI GIMENEZ


DENISE DO CARMO SILVA PEREIRA


JEFFERSON CARRIELLO DO CARMO –


VAGNER SILVA DE OLIVEIRA


GABRIEL PRIOLLI


JÉSSICA MARCON DALCOL


MARINA VENÂNCIO GRANDOLPHO


PEDRO HENRIQUE DE MELLO LULA MOTA


DANIEL SANTIAGO MOREIRA


VANESSA MORAES LUGLI


SANDRA MARIA DA SILVA LIMA


CARLOS RAFAEL LONGO DE SOUZA


MARIA SILVIA POSSAS


LUCIANA RAMIREZ DA CRUZ


CAROLINA PIGNATARI MENEGHEL


PEDRO DOS SANTOS PORTUGAL JÚNIOR


JOSÉ AUGUSTO GASPAR RUAS


WELLINGTON CASTRO DOS SANTOS


ALESSANDRO FERES DURANTE


DANIEL HERRERA PINTO


PEDRO HENRIQUE VERGES


DAVI JOSÉ NARDY ANTUNES


CARLA CRISTIANE LOPES CORTE


CARLOS ALBERTO DRUMMOND MOREIRA


DANIEL DE MATTOS HÖFLING


MARCELO WEISHUPT. PRONI


ENIO PASSIANI


JOSÉ DARI KREIN


ANSELMO LUIS DOS SANTOS


FABIO EDUARDO IADEROZZA


HIGOR FABRÍCIO DE OLIVEIRA


DANER HORNICH


HELDER DE MELO MORAES


JOSE EDUARDO DE SALLES ROSELINO JUNIOR


JULIANA PINTO DE MOURA CAJUEIRO


FERNANDO CATALANI


FERNANDA PIM NASCIMENTO SERRALHA


LEANDRO PEREIRA MORAIS


MARCELO PRADO FERRARI MANZANO


OLIVIA MARIA BULLIO MATTOS


RENATO BROLEZZI


LUCAS JANNONI SOARES


MÁRCIO SAMPAIO DE CASTRO


MARIA PINON PEREIRA DIAS


LUIZ MORAES DE NIEMEYER NETO


RODRIGO COELHO SABBATINI


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