Economia

Banco do Brasil anuncia programa de demissões e fechamento de unidades

Deputados da Frente em Defesa dos Bancos Públicos afirmam que comunicado representa mais um passo para a privatização da instituição

Banco do Brasil anuncia programas de desligamento e encerra atividades de parte de agências e postos. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Banco do Brasil anuncia programas de desligamento e encerra atividades de parte de agências e postos. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
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O Banco do Brasil anunciou, nesta segunda-feira 11, um pacote de medidas “relacionadas à revisão e ao redimensionamento de sua estrutura organizacional”, que deve ser implementado integralmente até o fim do primeiro semestre deste ano. O conjunto de ações prevê a dispensa de trabalhadores e o encerramento de atividades de estabelecimentos da empresa.

De acordo com o banco, cinco mil trabalhadores podem ser demitidos por meio de dois programas de desligamento voluntário: o Programa de Adequação de Quadros (PAQ), para “otimizar a distribuição da força de trabalho, equacionando as situações de vagas e excessos das unidades do banco”, e o Programa de Desligamento Extraordinário (PDE), “disponível a todos os funcionários que atenderem aos pré-requisitos”.

As duas modalidades possuem regras específicas para a adesão. Somente após 5 de fevereiro o banco deve informar o número exato de trabalhadores adeptos aos programas e o impacto financeiro das demissões.

A instituição comunicou ainda a desativação de 361 unidades, sendo 112 agências, sete escritórios e 242 postos de atendimento. Outras 243 agências serão transformadas em postos de atendimento; oito postos de atendimento serão transformados em agências. No total, ao menos 870 pontos da instituição devem sofrer mudanças.

Para entender a dimensão desses números: o Banco do Brasil havia encerrado o terceiro trimestre de 2020 com 61.097 pontos, incluindo a rede própria, compartilhada e correspondentes. Segundo relatório de setembro, no total da rede própria, são 4.370 agências, 1.795 postos de atendimento e 6.288 postos de atendimento eletrônico.

As agências são o principal tipo de dependência das instituições financeiras, destinadas ao atendimento do público, com atuação de gerente e não podendo ser móveis ou transitórias. São obrigadas pelo Banco Central a terem atendimento presencial, com disposição de guichês. Já os postos de atendimento são instalações subordinadas às agências, sem necessariamente oferecer todos os serviços, e podem ser móveis, como em veículos automotores e embarcações.

Com a redução nas agências e postos de atendimento, entre outras medidas em suas unidades de negócio, o Banco do Brasil estima uma economia líquida de 353 milhões de reais nas despesas administrativas de 2021. Até 2025, a instituição cita a cifra de 2,7 bilhões de reais em economia nessas movimentações.

“A reorganização da rede de atendimento objetiva a sua adequação ao novo perfil e comportamento dos clientes e compreende, além das medidas de otimização de estrutura descritas acima, outros movimentos de revisão e redimensionamento nas diretorias, áreas de apoio e rede, privilegiando a especialização do atendimento e a ampliação da oferta de soluções digitais”, afirmou o banco em nota ao mercado assinada pelo vice-presidente de Gestão Financeira e Relações com Investidores, Carlos José da Costa André.

Parlamentares apontam processo de privatização

Presidente da Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Bancos Públicos, o deputado federal Zé Carlos (PT-MA) critica o anúncio do Banco do Brasil, porque, segundo ele, “o que está por trás” do informe é mais importante do que os números em si. O petista avalia que o comunicado representa mais um passo de uma estratégia de desmonte e privatização do Banco do Brasil, uma instituição pública bicentenária. Os principais elementos dessa tática seriam o fechamento de unidades e o incentivo a demissões, para aos poucos desvalorizar a estrutura da empresa.

Esse processo de “fatiamento” do Banco do Brasil seria o caminho adotado pelo governo de Jair Bolsonaro para burlar entendimento do Supremo Tribunal Federal, que, em 2019, determinou que uma empresa pública só pode ser privatizada se houver aprovação do Congresso Nacional. A mesma acusação foi feita ao governo quando Bolsonaro editou a Medida Provisória 995/2020, que autorizava a criação de subsidiárias para vender partes da Caixa Econômica Federal. No entanto, a MP já perdeu a validade.

“O ministro Paulo Guedes já disse, em relação ao Banco do Brasil, que ‘tem que vender essa porra logo’, me desculpe usar o termo dele [a declaração foi dada durante reunião ministerial de 22 de abril de 2020]”, recorda Zé Carlos. “Fecham agências, dificultam o atendimento, não contratam pessoas, fragilizam a instituição. Ou seja: querem que o povo se chateie para depois dizer que tem que ser privatizada mesmo”.

Para o parlamentar, a privatização dos bancos públicos não parece “algo alvissareiro” dentro do Congresso Nacional. Tanto é que 210 deputados de partidos de diferentes ideologias foram signatários da frente pelos bancos públicos, quando o bloco foi criado há dois anos. Com as eleições para a presidência da Câmara à vista, em fevereiro, Zé Carlos sublinha que Baleia Rossi (MDB-SP) e Arthur Lira (PP-AL), candidatos ao comando da Casa, têm apoiadores que são contrários à privatização de bancos públicos.

O petista lembra ainda o levantamento da Exame/Ideia que apontou, em setembro de 2020, que 49% dos brasileiros são contrários à privatização da Caixa Econômica, um sintoma de que o eleitorado dos deputados não tem afinidade com a pauta.

“Vai depender da pressão que o governo federal fizer em cima das bancadas”, diz o deputado. “Agora, com o racha do Centrão e os governistas, acho que se torna mais difícil emplacar privatizações da Caixa e do Banco do Brasil. Mas nós estamos antenados e mobilizados.”

Para o deputado Glauber Braga (PSOL-RJ), também integrante da frente, Baleia Rossi e Arthur Lira devem ser questionados sobre quais medidas serão adotadas para fortalecer os bancos públicos, tema de projetos de lei já apresentados na Câmara, que vão além de evitar a privatização dessas instituições financeiras. No entanto, Braga não crê no compromisso dos postulantes à presidência da Casa de pautar esse tema para votação.

O psolista argumenta que os bancos públicos são os principais sustentáculos de programas sociais e de linhas de crédito para a população de baixa renda.

“Infelizmente, nessa agenda econômica de desmontes, há união de fato entre os blocos de extrema-direita e de direita liberal, para atender interesses do sistema financeiro privado”, diz o parlamentar. “Eles fazem o ataque agora ao Banco do Brasil. Sem uma reação contundente, eles partem para a Caixa e para o BNDES”.

Victor Ohana

Victor Ohana
Repórter do site de CartaCapital

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