Economia
Ajuste com justiça
Contra a falácia do Estado mínimo, é preciso apostar na eficiência, argumenta Dario Durigan, ministro da Fazenda
Ao assumir, em março, o Ministério da Fazenda, Dario Durigan comentou com um interlocutor que a missão era uma “bronca”. Referia-se, claro, aos abacaxis diários que o chefe da equipe econômica precisa descascar. Ao receber CartaCapital na manhã da quarta-feira 8, o barril de petróleo custava quase 80 dólares. Na véspera, cerca de 70. O motivo da disparada? Declarações de Donald Trump de que o cessar-fogo com o Irã havia acabado e que os Estados Unidos atacariam “com força”. A Fazenda planejava anunciar por estes dias outra rodada de fim de subsídios aos combustíveis e agora o plano ficou incerto. Mas nem só de “broncas” vive o ministro. No mesmo dia, o FMI elevou a projeção de crescimento do PIB brasileiro de 1,9% para 2,4%. A nova estimativa supera a previsão do “mercado” (2%) e até da Fazenda (2,3%). Na entrevista a seguir, Durigan diz que a economia alavanca o presidente Lula neste ano eleitoral, apesar do alto “custo de vida”, comenta a “agenda vazia” de Flávio Bolsonaro, descarta um ajuste fiscal no “lombo do pobre”, aponta o desejo de “Estado mínimo” pela Faria Lima, critica o “rentismo” nacional e o juro elevado do Banco Central, hoje em 14,25%.
CartaCapital: A economia será um ativo eleitoral do presidente Lula?
Dario Durigan: A situação da economia é muito boa. A gente tem dados macroeconômicos bons e, quando se olha a situação das famílias e das pessoas, está muito melhor que antes. Vou dar alguns exemplos. A inflação, apesar do mundo caótico, tem se mantido num bom patamar, vamos ter a menor inflação por mandato presidencial, apesar dos desafios, como aqueles impostos pelos EUA no tarifaço e na guerra do Irã. Em que pese estejamos cuidando das contas para a casa ficar em ordem, hoje o governo funciona como uma mãe que não deixa faltar comida na mesa. Quando a gente pega o mapa da fome, me dá um orgulho muito grande ver que não tem mais a fila do osso. Temos aumento real de renda para as famílias. Com o desemprego caindo, temos pela primeira vez mais de 100 milhões de ocupados. A balança comercial bateu recordes. O crescimento do PIB superou as expectativas dos atores domésticos do mercado e dos atores internacionais, como o FMI. Não que não haja desafios, mas, nos próximos três meses, sem dúvida a economia vai ser um grande ativo do País.
CC: Nas pesquisas, mais gente acha que a economia piorou em 12 meses, que o preço dos alimentos subiu, que está mais difícil achar emprego. Por que a desconexão entre números e percepção?
DD: A vida não é simples no mundo atual. As pessoas estão muito cobradas por produtividade, têm anseios de consumo, anseios de futuro que eu entendo, respeito e procuro atender. Reconheço que as pessoas querem melhorar de vida e isso é bom. O presidente reconhece que a gente precisa estar sempre aberto e sensível às demandas da população. O que a gente não pode ser é negacionista com o que está acontecendo. Nessas pesquisas, a economia tem caído na preocupação das pessoas, quando comparada com segurança pública, saúde, educação, corrupção. Isso mostra que elas estão entendendo o projeto econômico.
“A economia tem caído na preocupação das pessoas. Elas estão entendendo o projeto econômico”
CC: O custo de vida é um fator que explica a desconexão. O salário melhorou e foi retomada a política de valorização do salário mínimo, mas uns 2% de ganho real do mínimo não é pouco?
DD: O custo de vida é muito importante, não bastam números macroeconômicos positivos, isso precisa se refletir na vida das pessoas. Mas veja o que, na minha gestão, a gente fez olhando para o custo de vida: atuamos no mercado de combustíveis depois da guerra no Irã, restringimos apostas e publicidade das bets, fizemos o Desenrola 2, porque a dívida das pessoas aumentou em razão do quanto se paga de juros. Como os juros, na contramão do que a gente acreditava, porque melhorou a situação fiscal, voltaram a piorar de 2024 para 2025, o serviço da dívida das pessoas piorou. Sobre o salário mínimo, a defasagem até 2022 era muito grande, o País não pode dar um salto além das próprias pernas. Mas fizemos um movimento em duas frentes: valorização do salário mínimo e retirada de tributo. É fundamental para ter mais renda disponível.
CC: Por que temos novamente um juro do Banco Central tão alto?
DD: O mercado e a mídia mainstream dão uma resposta fácil de que é porque o governo gasta muito. Não é verdade. A gente fez um ajuste fiscal, não no lombo do mais pobre, mas em cima de quem tem capacidade econômica para pagar tributo e pagava menos do que é justo. A gente fez um ajuste fiscal de 2% do PIB. Faz tempo que o Brasil não vê um ajuste desses. O mercado quer Estado mínimo, e o que nós estamos entregando não é Estado mínimo, é um Estado que cumpre as suas funções, e com responsabilidade fiscal. O que tem pressionado o juro no Brasil é a situação global, em especial o diferencial de taxa que existe com relação aos EUA, talvez a principal explicação para a alta.
CC: Como mudar estruturalmente essa taxa?
DD: De novo, não tem uma resposta simples. Isso passa por a gente ter, primeiro, estabilidade institucional e planejamento fiscal de longo prazo. A segunda resposta é institucional, do ponto de vista de democracia. Não dá para não ter reconhecimento de eleições, quebra-quebra, bloqueio de rodovias, pedidos de golpe. Terceiro, precisamos de mais poupança privada e pública. Quarto, o rentismo. A gente teve momentos, no governo Fernando Henrique, no governo Lula, que o Brasil fez superávit de mais 2% do PIB e a taxa de juros era de 16%, 18%. Sem dúvida, o juro alto é um grande problema que deve ser enfrentado em um próximo mandato.
Contenção. O agronegócio nega as mudanças climáticas, mas pede socorro. E o ministro afirma manter o diálogo com Alcolumbre para evitar as pautas-bombas – Imagem: Pedro Gontijo/Agência Senado e iStockphoto
CC: Qual a explicação do rentismo e como enfrentar?
DD: Quando a gente aumenta a tributação da renda e do patrimônio, estamos começando a enfrentar o rentismo. Tributamos dividendo, fundo fechado, fundo em offshore, essas pessoas pagavam Imposto de Renda zero. Então a gente enfrentou, na tributação, o rentismo. Quando mostramos que são elementos externos ao País que nos forçam a ter taxa de juros alta, trago para a pauta a discussão do rentismo nos juros. Eu acredito que, no debate na sociedade, o argumento de justiça tende a prevalecer.
CC: Vai haver terrorismo fiscal por parte do mercado e no noticiário na eleição?
DD: Já temos visto muito exagero na análise fiscal, e análises pobres. O debate é pautado por pouquíssimos especialistas que fazem relatórios encomendados por algumas instituições financeiras. Tem editorial de jornal baseado nesses relatórios que basicamente desinforma, diz que o governo gasta além das regras fiscais. Mas olha o que estamos fazendo: em ano de eleição, estamos cumprindo a regra fiscal e bloqueamos 23 bilhões de reais do orçamento.
CC: O que explica o exagero nas críticas, se no argumento técnico não há motivo?
DD: É uma visão de País. Nós nos comprometemos com um Estado que funciona, seja eficiente, entregue melhora de vida para as pessoas, tem papel na proteção social, na indução do desenvolvimento. Este é o nosso compromisso e incomoda muita gente. O que vejo no mercado muitas vezes é que se procura um Estado mínimo.
“O que tem pressionado o juro é a situação global”
CC: O que pode ser feito para melhorar as contas públicas por um governo não partidário do Estado mínimo?
DD: O campo progressista vai ganhar o debate sobre o papel do Estado se a gente conseguir entregar um Estado que funcione. Esta é a minha grande bandeira. Acho muito importante que o Estado cumpra um papel, mas seja eficiente. Por isso defendo que a Receita Federal pare de exigir como obrigação acessória, que cria um fardo para a população brasileira, a declaração do Imposto de Renda. O campo progressista tem de defender um Estado eficiente, não necessariamente grande. Se a gente não garantir que funcione, a extrema-direita ganha o debate sobre o papel do Estado.
CC: No ajuste pelo lado do gasto, está no horizonte acabar com a vinculação das aposentadorias ao reajuste do salário mínimo, acabar com os pisos da educação e da saúde?
DD: Não está. Precisamos garantir que o crescimento do gasto obrigatório não siga num patamar muito além do que o País pode comportar, como temos feito. É otimizar programas. O gasto social precisa ser eficiente. Vale lembrar que, quando a gente propôs algumas melhorias, que não é corte, no crescimento do gasto obrigatório, vários pontos não foram aprovados pelo Congresso no fim de 2024.
CC: Esse Congresso tem uma pauta-bomba. Como administrar isso? O Supremo Tribunal Federal será um dique de contenção?
DD: Esse dique de contenção é um compromisso que o governo, com a minha coordenação, tem feito com os presidentes das duas casas do Congresso e também com o Supremo. Não podemos, por conta do período eleitoral, desajustar as contas. Tenho tratado disso com o presidente (da Câmara) Hugo Motta, com o presidente (do Senado) Davi Alcolumbre e, uma vez tendo alertado o Congresso, fui ao Supremo juntamente com a AGU para pedir essa sensibilidade com as futuras gerações. É um compromisso com responsabilidade fiscal, é esse o dique de contenção.
Cautela. O recrudescimento do conflito no Irã tende a adiar o fim dos subsídios aos combustíveis. Durigan garante: “O Brasil não será sócio da guerra” – Imagem: iStockphoto
CC: Quer dizer, se não der certo a negociação política no Congresso, a solução é o Supremo.
DD: Isso tem sido feito de maneira muito republicana. Não é constrangimento, faca no pescoço ou qualquer expressão que se queira usar.
CC: O agronegócio quer uma lei de renegociação de dívidas. O senhor tem dito em entrevistas que parte do agro é negacionista climático e agora usa mudança climática para obter negociação.
DD: Digo isso a eles também. Já ouvi de vários interlocutores que esse temor de mudança climática é um exagero e que, no fundo, o governo dos EUA é que tem razão. Tivemos uma série de recorrências de inundação, de estiagem em vários lugares e agora há essa demanda do agronegócio de que precisamos atender quem foi vítima da mudança climática. O risco moral que se tem gerado com esse debate no Congresso tem trazido mais inadimplência.
CC: Hoje, Trump disse que acabou a negociação com o Irã. Isso muda o cronograma de retirada das medidas de subvenção aos combustíveis?
DD: Fizemos um plano muito bem-sucedido para lidar com os efeitos da guerra. Fui aos EUA, à Europa e à China, e a discussão nos três blocos foi em grande medida sobre a guerra. Nos EUA, tive reuniões com ministros de finanças da região do Oriente Médio e ouvi que a incerteza segue e seguirá na região. A avaliação sobre a retirada dos próximos subsídios será feita pari passu com a situação da guerra. Quando a gente vê um recrudescimento, isso nos alerta, porque vamos fazer a dosagem da retirada do subsídio a depender da situação. Estou aqui norteado por princípio, não por conjuntura. O princípio é: o Brasil não vai ser sócio da guerra. Se o petróleo voltar a aumentar, se eventualmente a receita da União voltar a aumentar, vou calibrar as medidas para que as pessoas não sofram.
“O fim da escala 6 por 1 é a valorização da família”
CC: Ainda sobre os EUA, mas agora o tarifaço. Flávio Bolsonaro esteve na audiência para discutir o tema. O que achou?
DD: É irrelevante do ponto de vista do debate comercial entre Brasil e EUA. O Brasil tem razão nas discussões e vai insistir na linha soberana e altiva de apresentar argumentos. A premissa dos EUA para uma política tarifária diferente com o mundo é de que eles têm déficit comercial. Essa premissa é incorreta no caso do Brasil, pois eles têm superávit. Em questões pontuais, que é a sessão 301, a bússola norte-americana está desatualizada. Fala-se em desmatamento, mas estamos com um mínimo de desmatamento, e não há floresta protegida no Norte Global, como no Brasil. Vamos ser punidos por trabalho degradante? Temos um Ministério do Trabalho engajado em combater trabalho análogo à escravidão. E se há um líder no mundo que diz que trabalho tem de ser digno e defende o fim da escala 6×1, é o presidente Lula.
CC: O que vai acontecer no dia 15? O tarifaço entrará em vigor?
DD: Não sei. Espero que não.
CC: Escala 6×1: defende que seja aprovada quando e por quê?
DD: Tem de aprovar já. É um debate que dialoga muito com a condição de vida no mundo de hoje, um mundo digitalizado, interconectado, que exige ganho de produtividade do trabalhador, das empresas. O fim da escala 6×1 é a valorização da família, é a sua capacitação, é o cuidado dos filhos. As pessoas não têm vida. E quais pessoas não têm vida? Esse é o ponto que mais me toca, que é um desequilíbrio, uma injustiça no mundo do trabalho. Se olhar para os setores primário, secundário e terciário, a maioria dos trabalhadores já está na escala 5×2. Que minoria é essa que segue na 6×1? É o trabalhador que ganha menos, é o trabalhador negro, é a trabalhadora.
CC: Para terminar, Flávio Bolsonaro tem prometido privatizações e “tesouraço” em impostos, caso eleito. O que acha dessa agenda?
DD: Vazia e que já mostrou não dar bons resultados. O debate sobre equilíbrio fiscal com responsabilidade social e ambiental foi estabelecido pelo ministro Fernando Haddad e não tem volta. Da mesma forma que o presidente Lula estabeleceu a agenda social como algo indisputável, o debate fiscal passará a ser indisputável nos termos inaugurados pelo ministro Haddad. •
Publicado na edição n° 1421 de CartaCapital, em 15 de julho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Ajuste com justiça’
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