Economia

A Semana do Mercado: Recessão mundial e populismo eleitoral nacional no centro das atenções

No Brasil, o principal evento econômico será a divulgação do IPCA de junho, na sexta-feira 8, pelo IBGE

Foto: Fernanda Carvalho/ Fotos Públicas
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A semana começa com feriado nos Estados Unidos (dia da Independência) e uma surpresa agourenta: exportações da Alemanha caíram inesperadamente em maio e o país registrou o primeiro déficit comercial mensal em três décadas, desde 1991. Culpa da invasão russa à Ucrânia e das restrições à mobilidade pela Covid na China, cujo impacto nas cadeias de suprimentos internacionais trava particularmente as economias voltadas à exportação, como a alemã.

E nada indica que deve melhorar, mostra o índice de confiança dos investidores da Zona do Euro, o Sentix, que bateu o nível mais baixo desde junho de 2020, de 26,4 negativos, neste início de julho, ante estimativas de -20 e -15,8. É reflexo das preocupações com a aceleração da inflação e as políticas monetárias restritivas dos bancos centrais para conter a alta dos preços, levando ao esfriamento das economias.

Nessa linha, os economistas da gigantesca corretora Nomura, do Japão, apostam em uma recessão sincronizada das maiores economias nos próximos 12 meses. “Sinais crescentes de que a economia mundial está entrando em uma desaceleração sincronizada do crescimento, o que significa que os países não podem mais contar com uma recuperação das exportações para o crescimento, também nos levaram a prever mais recessões”, escreveram no relatório publicado nesta manhã, em que anteveem queda de 1% das economias dos EUA e da Zona do Euro em 2023.

Nos Estados Unidos, indicadores antecedentes de junho sugerem desaceleração da indústria norte-americana, aponta boletim dos economistas do Bradesco divulgado nesta manhã. O Índice dos Diretores de Compras, ou ISM, referente a junho, divulgado na última sexta-feira, apresentou queda de 3 pontos para 53,0, uma contração maior do que a esperada. O resultado foi explicado tanto pelo declínio de pedidos quanto pelo índice de entregas, ao passo que o índice de produção apresentou ligeira alta. O indicador de emprego recuou 2,3 pontos, atingindo 47,3 – uma leitura relativamente fraca para a série.

“Apesar de preliminares, esses dados vêm em um momento de crescimento das preocupações com o ritmo de crescimento nos EUA. Permanecem as dúvidas de quando o aperto monetário em curso se refletirá em uma desaceleração mais intensa da atividade e, mais importante, se essa desaceleração será suficiente para conter a inflação ou será necessária uma postura mais rígida do Fed à frente”, analisam os economistas do Bradesco.

Mesmo com todos esses sinais de atividade embicando para baixo, o Personal Consumption Expenditure (PCE), índice de inflação menos popular do que o Consumer Price Index mas tido como mais importante para o Fed, mostrou na quinta passada uma alta de 0,6%, acima do esperado, mantendo a variação anual de 6,3%, mesmo percentual registrado em abril.

O núcleo da inflação do PCE, o chamado core index, que exclui os preços mais voláteis dos alimentos e da energia, recuou para 4,7% em 12 meses, leve baixa ante os 4,9%. Essa queda, porém, já era esperada pelos investidores. No mês, a alta foi de 0,3%, em linha com o esperado. O PCE tende a ser menos volátil do que o CPI, porque dá um peso menor aos aluguéis e aos preços dos veículos e porque calcula de maneira diferente a variação nos preços das passagens aéreas.

“Mesmo desacelerando, porém, tanto o CPI quando o PCE seguem em patamares bastante elevados”, adverte boletim da casa de análise Levante Ideias de Investimento, a prever que os juros devem continuar subindo nos EUA. “Se mais depressa, com outra alta de 0,75 ponto percentual, ou se mais devagar, com um aumento de 0,50 ponto percentual, aí ninguém consegue ter muita certeza. Daí a importância das Minutas da reunião do Fomc de meados de junho, que serão divulgadas nesta quarta-feira (06). Elas indicarão se o Fed enxerga a alta de preços como um fenômeno mais pontual ou estrutural, o que deverá indicar sua estratégia para os juros nos próximos meses.”

Por aqui, o principal evento econômico será a divulgação do IPCA de junho, na sexta-feira 8, pelo IBGE. As expectativas do mercado são de uma alta de 0,7% na comparação com maio, levando o índice a acumular 11,9% em 12 meses.

“Esperamos uma taxa maior do que a verificada em maio, especialmente por conta de alimentos e serviços. No acumulado de doze meses a inflação deve seguir próxima de 12%”, diz análise do Bradesco, que projeta alta em linha com o consenso do mercado. O Itaú prevê alta um pouco maior, de 0,73%, o que levaria a taxa anual para 11,95%. Segundo os analistas, a leitura será pressionada por alimentação doméstica, bens e serviços, refletindo uma dinâmica de inflação bastante disseminada.

A maior preocupação do mercado, entretanto, tende a ser o quadro fiscal brasileiro, pelo receio com as possíveis, novas aventuras fiscais até as eleições. Isto aparece nitidamente no mercado de câmbio, em que a moeda norte americana rompeu uma importante barreira de 5,30 reais e fechou a semana passada cotada em 5,3220 para venda – mesmo com o desempenho confortável da balança comercial.

O saldo comercial de junho registrou superávit de 8,8 bilhões de dólares, acumulando 34,2 bilhões no ano, com expectativa de terminar o ano ao redor de 70 bilhões.

“A PEC dos Combustíveis foi o grande vilão do dia no final dos negócios”, comenta a economista Vanessa Blum Colloca, diretora da corretora Getmoney. “Na verdade, o mercado já estava precificando o aumento do Auxílio Brasil (de 400 para 600 reais), a ampliação do vale-gás e o voucher a caminhoneiros de mil mensais, só que foram incluídos no texto o ‘auxílio-taxista’, com custo de 2 bilhões de reais, e a adição de 500 milhões para o programa Alimenta Brasil, o que elevou a fatura extrateto de gastos, de 38,75 bilhões para 41,25 bilhões de reais. Daí já viu, né? Preocupações com o teto fiscal seguem afligindo o investidor.”

William Salasar
Editor de Finanças em CartaCapital.

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