Economia

A Semana do Mercado: Olhos voltados ao enxugamento de liquidez do Fed

No Brasil, a semana traz dados do IGP-M, da produção industrial, do mercado de trabalho e, em especial, do crescimento do PIB

O prédio do Federal Reserve, em Washington. Foto: AFP
O prédio do Federal Reserve, em Washington. Foto: AFP
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Os mercados mundiais terão nesta segunda-feira 30 um dia atípico sem a referência financeira de Wall Street, pois é feriado nos Estados Unidos.

Mas a semana será pródiga em indicadores macroeconômicos: nos Estados Unidos, saem dados do mercado de trabalho, custo unitário do trabalho, desemprego e rendimento real, além do livro bege; na zona do Euro, serão divulgados o índice de preços ao consumidor; na China, novos indicadores antecedentes de atividade – os primeiros indicadores após o início do processo de afrouxamento das restrições em Xangai -; enquanto no Brasil a semana traz dados de inflação da FGV (o IGP-M), da produção industrial, do mercado de trabalho (a PNADC e 0 CAGED), o indicador antecedente de atividade e, em especial, o dado de crescimento do PIB do primeiro trimestre de 2022, que tende a registrar crescimento de 1,2% na margem – impulsionado, em especial, pelo avanço do consumo das famílias, que tem se beneficiado pela maior mobilidade urbana, recuperação do emprego e medidas de estímulos ao consumo.

A Fundação Getúlio Vargas divulgou nesta manhã o Índice Geral de Preços – Mercado – conhecido como “inflação do aluguel” por ser o indicador dos contratos imobiliários -, que registrou inflação de 0,52% em maio, uma forte redução ante a taxa de 1,41% em abril. Acumulando alta de 7,54% no ano e de 10,72% em 12 meses, o índice veio acima da mediana das estimativas de 18 consultorias e instituições financeiras ouvidas pelo Valor Data, de 0,49%, com intervalo das projeções indo de 0,09% a 0,62%.

A notícia tende a, no mínimo, manter as projeções de aceleração da inflação e de um ciclo de alta da taxa básica de juros, a Selic, estendido para além de junho. A atividade econômica mais aquecida no primeiro trimestre embasa estas projeções. Na ausência do Boletim Focus – o relatório semanal do BC sobre expectativas dos economistas de mercado, suspenso pela greve dos funcionários da instituição – o jornal Valor Econômico ouviu mais de 100 instituições financeiras e consultorias sobre projeções de inflação, taxa básica de juros e PIB neste ano e em 2023. As projeções para o PIB em 2022 mostraram uma significativa ascensão, de 0,8% na pesquisa anterior (com 72 casas, em 12 de maio), para 1,4%, em 96 estimativas. Para a inflação, a mediana (o valor que separa a metade maior e a metade menor de uma amostra) de 101 instituições aponta um IPCA de 8,9% em 2022 e de 4,5% em 2023. Quanto à Selic, a mediana das estimativas se manteve em 13,25% no fim deste ano e aumentou de 9,5% para 9,63% no fim de 2023.

Entretanto, os juros praticados no mercado de contratos futuros de Depósito Interfinanceiro (o DI – o custo do dinheiro nas transações entre instituições financeiras) apontam uma expectativa de taxa Selic de 13,62% ao final de 2022, segundo cômputo da XP Investimento (ela própria espera um juro básico de 13,75% no final deste ano) e 11,57% em 2023 (vs. 8,75% da XP), 11,22% em 2024 e 11,76% em 2025.

Para inflação, o mercado aponta estimativa de cerca de 8,53% em 2022 (vs. 9,4% da XP) e 6,67% em 2023 (vs. 4,5% da XP). Para 2024 e 2025, o mercado espera 5,82% e 6,29%. A XP atribui essas expectativas ao IPCA-15 – visto como prévia da inflação mensal – divulgado na semana passada, que, mesmo tendo sido menor que o indicador anterior, veio acima das estimativas do mercado. Também pesaram as expectativas do impacto fiscal do projeto de lei que limita as alíquotas estaduais do ICMS em 17%, aprovado pela Câmara e que será apreciado nesta semana pelo Senado.

Além dos diversos indicadores, os mercados ficarão particularmente atentos ao início do processo de “desinventimento” do Federal Reserve – o Fed, banco central dos EUA -, que acumulou em seu balanço 8,9 trilhões de dólares em títulos privados visando injetar dinheiro na economia para contrabalançar os efeitos recessivos das medidas de contenção da pandemia. Com o mercado de trabalho próximo ao pleno emprego, o Fed avalia que o estímulo monetário é desnecessário. Assim, em lugar de rolar essa dívida (que é o dobro da registrada em 2020, no início da pandemia), ele vai vender os títulos em vencimento, o que resultará num enxugamento de liquidez, ou seja, o dinheiro em circulação diminuirá nos mercados, afetando principalmente ativos de riscos – como ações, moedas e os critptoativos. Isso em um ambiente de juros em alta.

Outro fator a movimentar os preços de ativos é a normalização da atividade na China, há dois meses afetada pelas duras medidas de contenção da Covid-19, com lockdowns severos, que desferiram um duro golpe à segunda maior economia do mundo e afetaram todo o planeta, já que interromperam as cadeias globais de abastecimento e o comércio internacional. Por outro lado, as autoridades chinesas, em particular o Banco do Povo da China (o PBoC, o BC chinês), anunciaram medidas para animar a atividade, incluindo redução das taxas básicas de juros – o que tem afetado positiva preços de commodities, em especial o minério de ferro e o petróleo.

O alívio das medidas de restrição contra a Covid-19 na China animou as bolsas da Ásia e do Pacífico, que fecharam majoritariamente em alta hoje. A Europa segue pelo mesmo caminho, reagindo positivamente aos estímulos à economia propostos por Pequim, enquanto a guerra da Ucrânia prossegue e os preços do petróleo sobem acima de 120 dólares o barril nesta segunda, alcançando o maior nível em mais de dois meses. Enquanto isso, traders esperam para ver se uma reunião da União Europeia chegaria a um acordo sobre a proibição das importações de petróleo russo.

Seguindo impulso do exterior, a Bolsa iniciou o dia – e a semana – com alta de 0,5% do Índice Bovespa, mas perto das 12h inverteu o sinal e operava com baixa de 0,2%. A pressão negativa vem principalmente das estatais, que lideram as perdas do Ibovespa, com quedas que chegam a superar 3%. A interferência do presidente Jair Bolsonaro na Petrobras, pressionando por mudança em sua política de preços, era o motivo para a baixa de 3,30% do papel da estatal (tanto que a ação de PetroRio operava em alta de 1,71%).

William Salasar
Editor de Finanças em CartaCapital.

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