Economia

A Semana do Mercado: na mira de Bolsonaro, Petrobras ruma ao fundo do poço

Ao longo desta semana, investidores seguirão atentos aos discursos de dirigentes do Fed – e também do Banco Centra Europeu, que está se unindo à maré altista dos juros básicos no mundo

Imagem: André Ribeiro/Agência Petrobras
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A semana começa como terminou: com Petrobras na mira do Executivo e do Legislativo por causa de seus aumentos de preços dos combustíveis. Depois de afirmar a religiosos, em Manaus, que havia conversado com o presidente da Câmara, Arthur Lira, para convocar uma CPI mirando a estatal, o presidente Jair Bolsonaro marcou para hoje reunião dos líderes da Casa a fim de discutirem a política de preços da petroleira, cujas ações caíram entre 6% e 7%, na sexta, o que representou uma perda de valor de mercado de 27,3 bilhões de reais.

“Na última sexta-feira, infelizmente, com o anúncio do aumento dos combustíveis… a Petrobras perdeu no seu valor (de mercado) 30 bilhões de reais. Acredito que na segunda-feira, com a CPI, vai perder outros 30”, disse Bolsonaro, no sábado. “Conversei ontem com o líder do governo e com o presidente da Câmara para a gente abrir uma CPI na segunda-feira. Vamos para dentro da Petrobras. É inadmissível, com uma crise mundial, a Petrobras se gabar dos lucros que tem”, anunciou.

Para facilitar as coisas para o governo de Bolsonaro e o Centrão de Lira, o presidente da Petrobras, José Mauro Coelho entregou o cargo, a fim de abrir caminho para a nomeação de atual secretário de Desburocratização, Caio Paes de Andrade, aparentemente mais palatável a Brasília. No entanto, o Conselho de Administração da estatal nomeou imediatamente como presidente interino o diretor de Exploração e Produção, Fernando Borges. 

Com todo esse imbróglio, os negócios com as ações da companhia foram suspensos duas vezes, na notícia da saída de Coelho e no comunicado da indicação de Borges. No final da manhã, estavam em baixa de 2,20%, cotadas a 26,71 reais. Como o papel é um dos dois com maior peso no Índice Bovespa (Vale é o outro), o indicador apresentava baixa de 1,02%, a 98.808 pontos, no final da manhã. Ele já havia sido rifado por Bolsonaro, porém as regras de governança da estatal. Mas Vale também estava em queda, puxada pela baixa no mercado internacional do minério de ferro, que despencou mais de 7% em Cingapura, juntamente com a maioria dos metais industriais, com as siderúrgicas paralisando os altos fornos em meio ao crescente pessimismo sobre as perspectivas de demanda na China e de recessão mundial depois da elevação da taxa básica de juros norte-americana em 0,75 de ponto percentual, maior patamar desde 1994.

Essa decisão chacoalhou todos os mercados no final da semana passada. Menos pela agressividade do Fomc e mais pela incerteza acerca do seu futuro comportamento. “Se voltarmos não muito tempo atrás, Jerome Powell (o presidente do Fed) havia afirmado que o aumento dos juros seria de 0,5 ponto. Mas, diante de uma inflação em 8,6% ao ano no acumulado até maio, o presidente do FED recuou e mudou o seu tom”, observa o boletim semanal da casa de análise Levante Ideias de Investimentos. “É um vai e vem que, em vez de assegurar um controle rígido de um problema complexo como a inflação, passa aos investidores uma noção de incerteza e indefinição. E, disso, o mercado não gosta”, avalia a Levante.

Por isso, ao longo desta semana, investidores seguirão atentos aos discursos de dirigentes do Fed – e também do Banco Centra Europeu, que está se unindo à maré altista dos juros básicos no mundo. O contraponto é o Banco Central chinês, que nesta madrugada manteve inalteradas suas taxas básicas de juros, em meio ao contexto de reabertura econômica do país após implementação de rígidas restrições contra a Covid-19. Apesar disso, a maior parte das bolsas na Ásia fechou em baixa.

Na agenda doméstica da semana, atenção para a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), na quarta passada, que elevou a Selic em 0,5 ponto, para 13,25% ao ano. No comunicado que acompanhou o anúncio da decisão, o Banco Central projetou novo ajuste na taxa básica de juros de igual ou menor magnitude. A ata será publicada amanhã, podendo trazer novas informações sobre suas próximas decisões e o ponto terminal da Selic. A visão do comitê sobre o cenário também será destrinchada um pouco mais na coletiva de imprensa do presidente do BCB, Roberto Campos Neto, e do novo diretor de política econômica, Diogo Guillen. Neste dia também deveria ser divulgado o Relatório Trimestral de Inflação (RTI), mas que foi adiado para o dia 30 em função da greve dos servidores da autarquia. A expectativa é que o BCB traga mais detalhes sobre os próximos passos da condução da política monetária, diante de um comunicado pós-reunião que trouxe algumas surpresas. O Comitê indicou que deve fazer novo ajuste na taxa Selic de 0,25 p.p ou 0,50 p.p na reunião de agosto, frustrando àqueles que esperavam o fim do ciclo nesta reunião. Por outro lado, divulgou de forma adiantada a projeção de inflação para 2024, que deveria acontecer apenas no RTI, levando a interpretação de alguns analistas que está disposto em alongar o processo de convergência da inflação para as metas, abandonando parcialmente 2023, dado que a projeção do BCB está acima da meta (em 4,0% ante meta de 3,25%) e mirando já em 2024, o que poderia implicar no fim do ciclo de aperto monetário na próxima reunião. Assim, tais comunicados devem ajudar o mercado a entender como o Copom pretende trabalhar neste final de ciclo de alta dos juros.

Semana fraca em indicadores, o destaque fica para o IPCA-15, considerado uma prévia da inflação oficial, para junho, que será divulgado na sexta-feira. O Itaú antecipa um aumento mensal de 0,74%, levando a taxa anual a 12,10% (de 12,20% em maio). O Bradesco espera uma alta mensal de 0,73%, com núcleos ainda pressionados.

 

William Salasar
Editor de Finanças em CartaCapital.

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