A semana do mercado #21 – Haja coração!

O editor de Finanças William Salasar apresenta as principais tendências da abertura dos mercados nesta segunda-feira 9

Jair Bolsonaro e Arthur Lira. Foto: Marcos Corrêa/PR

Jair Bolsonaro e Arthur Lira. Foto: Marcos Corrêa/PR

Economia

A ida do presidente Jair Bolsonaro ao Congresso, hoje pela manhã, para entregar a Medida Provisória da nova versão do Bolsa Família e a Proposta de Emenda à Constituição que permite o parcelamento dos precatórios (dívidas judiciais) não parece ter acalmado a tensão política e fiscal que dominou os mercados na semana passada. O dólar, em alta, beliscou os 5,30, enquanto a Bolsa, que abrira em alta, trocou o sinal e passou a cair.  Os juros de todos os prazos subiram no mercado futuro.

 

 

A moeda americana chegou à máxima, até agora, de 5,29 reais, cedendo para 2,88 por volta das 14h30. Já o Ibovespa, principal indicador da bolsa de valores brasileira, a B3, abriu em alta, caiu e voltou a subir ligeiramente, 0,1%, para 122.945 pontos. No mercado de juros futuros, em que é formado o preço do dinheiro que as instituições financeiras negociam entre si, o contrato de Depósito Interfinanceiro para janeiro de 2022 sobe dois pontos-base a 6,50%, DI para janeiro de 2023 tem alta de três pontos-base a 8,20%, DI para janeiro de 2025 avança nove pontos-base a 9,13% e DI para janeiro de 2027 registra variação positiva de 11 pontos-base a 9,49%.

No boletim matinal, os analistas da Genial Investimentos já observavam que “o aumento dos riscos político e fiscal dominou o cenário (na semana passada) e deixou em segundo plano a aprovação do Projeto de Lei que permite a privatização dos Correios e a urgência da votação da Reforma do Imposto de Renda”.

Na entrega da MP e da PEC, o ministro da Economia, Paulo Guedes, mais uma vez assegurou que a PEC dos Precatórios cria a previsibilidade dos gastos e assegura a implementação dos programas sociais e a transformação do Estado. Para convencer os parlamentares a autorizar a medida, a equipe econômica propõe que parte dos recursos levantados com privatizações seja usada para pagar esses débitos e também para turbinar os benefícios sociais da população mais pobre – tudo fora do teto de gastos.

Acontece que o governo não colocou na MP um valor para o Bolsa Família e Bolsonaro, pela manhã, disse que o benefício seria aumentado em 50% (antes, havia mencionado um aumento de 100%). E segundo o serviço de notícias em tempo real do jornal O Estado de S. Paulo há uma disputa entre as alas política e econômica do governo a respeito do valor. Resultado: insegurança geral e a percepção no mercado de que nenhuma consideração fiscal permeia a campanha pela reeleição de Bolsonaro. Que, aliás, lembra a Genial, pode ser inviabilizada pela notícia-crime contra o presidente aberta pelo ministro Alexandre Moraes por causa das declarações do chefe do Executivo atacando ministros do Supremo.

Entre as propostas que podem aumentar os gastos do governo e reduzir a arrecadação estão a criação de um novo programa social, com aumento no valor do Bolsa Família para 300 reais, a reforma tributária e o adiamento no pagamento de precatórios, que são dívidas do governo reconhecidas após decisão da Justiça. No primeiro caso, o governo não detalhou como pagará o reajuste do Bolsa Família. Não há estimativa de quanto seria o gasto total. Na reforma, as estimativas divulgadas até agora apontam para uma queda da arrecadação (menos 57 bilhões em dois anos). Na prática, o governo terá menos dinheiro em caixa para pagar servidores e as suas despesas normais. Em relação ao adiamento dos precatórios, analistas de mercado e acadêmicos têm considerado a proposta um calote.

Por trás de tudo isso, a nova postura mais agressiva do Banco Central em relação à inflação, refletida nas expectativas de economistas do mercado reunidas no Boletim Focus de hoje. Eles voltaram a elevar a projeção da Selic, a taxa de juro básica da economia, agora para 7,25% (mas algumas instituições já falam em 8%) até o final do ano. O comunicado pós decisão do Comitê de Política Monetária da semana passada mostrou maior preocupação com a inflação, vista agora como “persistente”, e não mais como “temporária”. O comunicado também indicou preocupação com a composição mais desfavorável da alta dos preços, destacando a surpresa com a inflação de serviços e continuidade de alta dos bens industriais, além de mencionar a possibilidade de novas pressões em função das condições climáticas adversas, que podem afetar os preços dos alimentos e da bandeira tarifária (energia elétrica).

Por isso, o mercado estará ainda mais atento ao resultado do IPCA de julho, que será divulgado pelo IBGE amanhã. A expectativa é alta de 0,95%, com nova aceleração no acumulado em 12 meses, de 8,35% para 8,98%. As maiores pressões devem vir da energia elétrica, refletindo o reajuste de 52% da bandeira tarifária vermelha nível 2, das passagens aéreas, em função do período de férias, e, em menor escala, da gasolina.  Como alento, o reajuste negativo nos planos de saúde deve impedir uma alta ainda mais expressiva do índice.

No geral, o resultado deve manter elevadas as preocupações com a dinâmica inflacionária. Ainda mais após a divulgação hoje do IGP-DI de julho, que mostrou alta de 1,45%, acelerando ante o mês anterior (+0,11%) e pouco acima das expectativas (1,34%). Em 12 meses, o índice registra alta de 33,35%. O avanço foi puxado pelos preços do atacado (+1,65%), especialmente os agropecuários (+2,69%), impactados pelos problemas climáticos recentes. O resultado sugere continuidade das pressões inflacionárias no varejo no curto prazo – o que remete à publicação da Ata da reunião do Copom, marcada para quarta-feira, à Pesquisa Mensal do Comércio e ao Índice de Atividade do BC. Como escreveram os analistas da Genial: “Haja coração!”

 

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Editor de Finanças em CartaCapital.

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