Economia

A redução da confiança no dólar abre novas zonas monetárias no mundo

Entre as moedas reserva não tradicionais sobressaem o dólar australiano, o dólar canadense, o yuan chinês, o won coreano, o dólar de Cingapura e a coroa sueca

Impressão. Cresce a desconfiança mundial em relação ao “porto seguro” do dólar. Os russos agora cobram em rublo o petróleo vendido ao Ocidente - Imagem: iStockphoto e Paul J.Richards/AFP
Impressão. Cresce a desconfiança mundial em relação ao “porto seguro” do dólar. Os russos agora cobram em rublo o petróleo vendido ao Ocidente - Imagem: iStockphoto e Paul J.Richards/AFP
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A decisão da Rússia de só aceitar rublos em pagamento pelas exportações de petróleo e gás para países hostis evidenciou a existência de outra guerra, além das batalhas na Ucrânia. O confronto, travado nas arenas financeira e comercial, visa estabelecer novas zonas monetárias, regionais e não submetidas ao poder dos Estados Unidos, beneficiados pelo uso predominante da sua própria moeda como reserva nas transações comerciais e financeiras internacionais. “O rublo se tornará uma moeda autônoma. O dólar vinculado ao petróleo permanecerá entre os EUA e seus aliados. Ao lado disso haverá os acordos saudita-yuan e indo-yuan, entre a Arábia Saudita, a Índia e a China, com base na moeda nacional chinesa, para o comércio de petróleo, minerais, produtos industriais e, provavelmente, investimentos internacionais. Um novo sistema financeiro multilateral está em processo de estruturação”, prevê o economista ­Michael Hudson, da Universidade do Missouri.

A Rússia e a China haviam assinado, em maio, um acordo entre o segundo maior banco russo, o VTB, e o Banco da China, para contornarem o dólar e pagarem as transações bilaterais com suas moedas nacionais. Entre o anúncio, na quarta-feira 23, da nova política de exportação de energia da Rússia e a segunda-feira seguinte, o rublo valorizou-se em mais de 10% diante do dólar norte-americano. Desde a baixa recorde de 7 de março, ganhou mais de 50%, segundo a agência russa RT. A forte dependência da Europa, em especial da Alemanha e da Itália, em relação ao gás russo, e a indicação, por parte dos EUA e da União Europeia, do término da sua substituição por fontes renováveis só em 2024 mostra a existência de um espaço para Moscou pressionar os países consumidores.

Na terça-feira 29, sindicatos de trabalhadores alemães emitiram um alerta para a possibilidade de fechamento de indústrias nas próximas semanas, se o ­país decidir cortar as importações de energia da Rússia. No dia seguinte, Alemanha e Áustria anunciaram o racionamento de gás e noticiou-se que a inflação atingiu a máxima de 40 anos, com o choque de oferta. “Parece haver duas maneiras de países hostis comprarem gás russo. Uma é o uso de bancos russos que não foram banidos do sistema Swift. A outra é com um banco, ou operação de câmbio formal ou informal, de um terceiro país. A Índia e a China parecem ser as mais bem posicionadas para esse papel”, destaca Hudson.

O crescimento das reservas em moedas não tradicionais chama atenção do FMI

“Há uma crise muito séria do padrão monetário internacional, que atingirá vários países, inclusive os europeus e o Japão, e que favorece a tomada de iniciativas para criar zonas monetárias que não dependam do dólar”, afirma o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, consultor editorial desta revista. É um processo de transformação, diz, que corresponde às mudanças nas relações comerciais e industriais internacionais, com destaque para a China. “O padrão-dólar como moeda reserva entrou em crise e a guerra simplesmente acentuou o problema, assim como as atitudes tomadas pelos Estados Unidos, a exemplo do congelamento de reservas russas no exterior”, sublinha Belluzzo. “Não é que o dólar vai ser deslocado amanhã, rapidamente. Isso é um processo lento, com muita instabilidade pela frente. O problema é que, para assegurar a condição de moeda reserva, é necessário apresentar um conjunto de condições, com destaque para o tamanho das economias. As exportações de manufaturados da China são 29% das exportações globais, enquanto as dos EUA representam 18%.”

Segundo o economista ­Barry ­Eichengreen, da Universidade da ­Califórnia, os EUA são os principais responsáveis pela aceleração do declínio do dólar, que, por mais de meio século, tem sido a “língua monetária universal”, mas vem perdendo brilho como reserva internacional desde que a China se tornou a principal economia industrial do mundo. “Como resultado da má gestão financeira que gerou a crise de 2008 e da crescente insatisfação com o funcionamento do sistema monetário internacional, o ­status singular do dólar está em questão. O governo dos EUA não tem sido, segundo seus críticos, um administrador digno de uma moeda internacional”, sublinha ­Eichengreen no livro Exorbitant ­Privilege: The Rise and Fall of the Dollar. “Os EUA desviaram o olhar, enquanto o setor privado produzia a mãe de todas as crises financeiras. Ele teve enormes déficits orçamentários e incorreu em uma dívida gigantesca. Os estrangeiros perderam a fé no dólar. Eles estão se afastando dele para faturar e liquidar o comércio, denominar os preços das commodities e realizar transações financeiras internacionais.”

Extremos. O avanço industrial e comercial da China fortalece o yuan. O bloqueio do ouro da Venezuela aprofunda a crise no país – Imagem: Humberto Matheus/NurPhoto/AFP e STR/AFP

O congelamento, pelos EUA, no início do ano, de mais da metade das reservas da Rússia no exterior, de 469 bilhões de dólares, em represália pela invasão da Ucrânia, foi um golpe para Moscou, mas abalou também a confiança dos demais paí­ses no sistema de pagamentos e depósitos em dólar. Os EUA se apoderaram das reservas cambiais da Rússia do mesmo modo como a Inglaterra tomou posse de todo o ouro da Venezuela que estava no Banco da Inglaterra, quando o país latino-americano tentou usar essa reserva na compra de suprimentos médicos para lidar com a pandemia. Repetiu-se, assim, o que foi feito antes com o Irã, que teve as suas reservas cambiais depositadas no exterior interditadas pelos EUA. Essas expropriações significam, para Hudson, que aquilo que inúmeros países pensavam ser sua fuga para a segurança transformou-se em um alto risco de se tornarem reféns dos EUA. Segundo o Financial Times, a Alemanha começou a levar de volta seu ouro depositado no Fed, em Nova York, para o caso de os políticos alemães tomarem iniciativas que desagradem aos Estados Unidos e gerem represálias. “A apropriação, pelos EUA e Inglaterra, de reservas de outros países caracteriza grave violação das regras contratuais de uma economia de mercado e das normas de propriedade, das quais os Estados Unidos se dizem os maiores defensores”, alerta Belluzzo. “O precedente pode, no limite, estimular países a tomarem procedimentos semelhantes em relação a ativos estadunidenses.”

A crise autoimposta pela Europa ao aderir às sanções decididas pelos EUA é proporcional à sua dependência não só do petróleo e do gás russos, mas também de matérias-primas estratégicas como paládio, titânio, néon, hélio e criptônio. O ­país é também o maior produtor de fertilizantes, com 15,6% do total mundial, motivo de a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, reiterar o pedido aos EUA para que o bloqueio à Rússia não prejudique a exportação desse insumo ao Brasil.

Segundo trabalho recente do FMI, assinado pelos economistas Serkan ­Arslanalp, Chima Simpson-Bell e ­Eichengreen, a parcela das reservas mantidas em dólares pelos bancos centrais caiu 12 pontos porcentuais desde a virada do século, de 71%, em 1999, para 59%, em 2021. Impressiona, segundo os autores, o crescimento das reservas em moedas não tradicionais, isto é, diferentes do dólar norte-americano, do euro, do iene japonês e da libra britânica. Entre as moedas reserva não tradicionais sobressaem o dólar australiano, o dólar canadense, o yuan chinês, o won coreano, o dólar de Cingapura e a coroa sueca. O FMI descobriu que essa mudança foi ampla. A pesquisa identificou 46 países diversificadores de ativos que alteraram suas carteiras nessa direção e que agora detêm ao menos 5% de suas reservas em moedas não tradicionais. Na hipótese de o domínio do dólar ser seguido pela ascensão de um amplo grupo de moedas alternativas, “isso implica uma situação monetária quase anárquica, onde as economias dominantes, particularmente os EUA, podem perder o controle sobre os mercados monetários mundiais”, prevê o economista Michael Roberts em seu blog.

A apropriação de reservas de países é grave violação das regras de uma economia de mercado

O estudo do FMI aponta a elevada difusão da perda de espaço do dólar enquanto moeda reserva global e o papel da sua própria dinâmica, a exemplo do processo denominado quantitative easing, de compra de títulos públicos e privados para aumentar a oferta de dinheiro na economia. O quantitative easing baixou os juros nos EUA, movimento acompanhado pelas taxas de Inglaterra, Europa e Japão, o que retirou a atratividade da remuneração das reservas internacionais em dólar, iene, euro e libra.

A participação do yuan como reserva internacional é incipiente, mas achar que isso confirma a perenidade do poder do dólar contraria as conclusões do trabalho do FMI e precedentes históricos. “Afirma-se que a libra permaneceu a moe­da internacional dominante até depois da Segunda Guerra Mundial, muito após os EUA terem ultrapassado a Grã-Bretanha como a principal economia, refletindo as mesmas vantagens dessa incumbência. Na verdade, o dólar já rivalizava com a libra como moeda de troca internacional em meados da década de 1920, apenas dez anos após o estabelecimento do Federal Reserve System”, sublinha Eichengreen. Ele atingiu essa posição, diz, como resultado de algumas ações muito concretas do Fed para promover o papel internacional do dólar. “Esse fato tem implicações muito diferentes daquelas da sabedoria convencional sobre como e quando o yuan chinês pode vir a rivalizar com o dólar. Isso sugere que o desafio pode vir mais cedo ou mais tarde”, destaca o economista. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1202 DE CARTACAPITAL, EM 6 DE ABRIL DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Cara ou coroa”

Carlos Drummond

Carlos Drummond
Editor de Economia da edição impressa de CartaCapital

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