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A geopolítica dos minerais críticos

Acordos recentes firmados por Washington revelam uma estratégia agressiva para garantir suprimento mineral e isolar a China nas cadeias de valor

A geopolítica dos minerais críticos
A geopolítica dos minerais críticos
Donald Trump e Xi Jinping fecham nova trégua comercial após encontro na Coreia do Sul. Foto: ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP
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O sequestro do presidente Nicolás Maduro pelos EUA constitui mais um episódio de violência por meio do qual esse país tenta conservar a ordem internacional que o beneficiou nos últimos 80 anos, mas que já não cabe no mundo de hoje. As violações do imperialismo estadunidense se contam às dezenas, é verdade, mas não deixa de ser paradigmática a volta das intervenções diretas do país na América Latina. Um novo período parece se abrir, a onde a disputa pelos recursos energéticos e minerais críticos ocupam lugar de destaque.

A centralidade estratégica dos minerais críticos para a hegemonia econômica e militar contemporânea já foi explorada em textos anteriores desta coluna. Neste texto e nos seguintes, nos concentraremos em aspectos mais conjunturais, buscando traçar um panorama da geopolítica contemporânea dos minerais críticos. Nas últimas semanas, costuraram-se acordos que justificam falar da constituição de dois campos de influência bem delimitados: um liderado pela China e o outro pelos Estados Unidos. Parece uma afirmação óbvia, dado o contexto da geopolítica mundial, polarizado entre esses dois países. Mas até pouco tempo atrás, nas cadeias de valor relacionadas aos minerais críticos, parecia haver projetos relativamente autônomos em relação às duas potências; projetos que agora se subordinam a um daqueles polos ou perdem tração, desidratam e se isolam.

Comecemos pelo incômodo vizinho do Norte. Em novembro do ano passado, os Estados Unidos publicaram sua nova Estratégia Nacional de Segurança. O documento, que sintetiza e dá coerência à ação do imperialismo estadunidense no mundo, atribui aos minerais críticos um lugar privilegiado no interior da política America First. Na seção dedicada à segurança econômica, destaca-se a necessidade de ampliar o acesso americano a minerais e materiais críticos, eliminando a dependência de potências externas — da matéria-prima aos produtos acabados. Indo-Pacífico e África aparecem como regiões prioritárias para a expansão de investimentos em energia e minerais críticos, enquanto o Hemisfério Ocidental — leia-se, as Américas — deve tornar-se livre de “propriedade estrangeira de ativos-chave”. O papel da América Latina nesse contexto será discutido oportunamente, em um dos próximos textos desta série.

A nova estratégia consolida um movimento deliberado iniciado pelo governo Trump desde o primeiro dia de seu retorno ao poder. Em 20 de janeiro de 2025, início de seu segundo mandato, o presidente publicou uma série de decretos executivos — entre eles a Unleashing American Energy e a Declaring a National Energy Emergency — nos quais alerta para a crescente vulnerabilidade dos Estados Unidos na extração e no processamento de minerais críticos, definidos como eixos centrais da segurança energética e militar do país. Para “criar empregos e prosperidade no país, fortalecer as cadeias de abastecimento dos Estados Unidos e de seus aliados e reduzir a influência global de Estados malignos e adversários”, o país precisa tornar-se “líder na produção e no processamento de minerais não energéticos, incluindo terras raras”. Daí a ênfase na garantia e na diversificação geográfica do suprimento desses insumos.

Ativistas estudantis seguram cartazes enquanto marcham durante um protesto contra o ataque dos EUA à Venezuela, em Calcutá, em 5 de janeiro de 2026. Créditos: Dibyangshu SARKAR / AFP

Nos meses seguintes, assistimos ao governo Trump lançar-se em um verdadeiro périplo internacional em busca de minerais críticos. A primeira parada foi a Índia. Em fevereiro de 2025, Trump e Modi assinaram o acordo TRUST (Transforming the Relationship Utilizing Strategic Technology), pelo qual os dois países se comprometem a estruturar cadeias de suprimento para setores estratégicos, entre eles os minerais críticos. A Índia detém a quarta maior reserva mundial de terras raras, além de importantes reservas inexploradas de lítio, cobre, grafita e zircônio. A posterior imposição, pelos Estados Unidos, de tarifas de 50% sobre produtos indianos esfriou a aproximação e interrompeu, ao menos por ora, os desdobramentos do TRUST.

Meses depois, em um movimento revelador do substrato econômico do imperialismo contemporâneo, Trump colocou a Ucrânia contra a parede, exigindo acesso a seus minerais críticos em troca da continuidade da ajuda militar na guerra contra a Rússia. O Agreement between the Government of Ukraine and the Government of the United States of America on the Establishment of a United States-Ukraine Reconstruction Investment Fund, assinado em 30 de abril, contém cláusulas que beiram o neocolonialismo: o chamado fundo de reconstrução é, na prática, um fundo de investimento em projetos de mineração, petróleo e gás, com direito de offtake — prioridade de compra — garantido aos Estados Unidos. Formado inicialmente com aportes do DFC, o fundo está proibido de financiar projetos que envolvam empresas consideradas hostis, categoria que, na prática, exclui companhias russas e chinesas.

Segundo a embaixada dos EUA na Ucrânia, o objetivo é “utilizar o talento, os recursos e os padrões de governança americanos para melhorar o clima de investimento no país” e estimular oportunidades estratégicas para os Estados Unidos e seus aliados. As perspectivas são expressivas: estimativas da ONU indicam que a Ucrânia concentra cerca de 5% das reservas mundiais de terras raras, 7% das de titânio, 2% das de lítio e urânio, além de quase 20% das reservas globais de grafita.

Na sequência, no final de outubro, Estados Unidos e Austrália firmaram o United States–Australia Framework for Securing Supply in the Mining and Processing of Critical Minerals and Rare Earths. O acordo visa garantir o suprimento de minerais críticos para projetos de defesa e tecnologias avançadas, por meio da coordenação de políticas e do fortalecimento das cadeias produtivas. Prevê-se a mobilização de até 1 bilhão de dólares por país para novos projetos, além de 2,2 bilhões de dólares em investimentos do DFC em mineradoras australianas. O objetivo é inequívoco: consolidar a subordinação da poderosa indústria mineradora australiana aos interesses estratégicos dos Estados Unidos.

70% dos minerais estão no Sul Global, mas lucros seguem no Norte

A Austrália ocupa posição central nesse arranjo. É o maior produtor mundial de lítio, detém a segunda maior reserva global do mineral e figura entre os principais detentores de reservas de terras raras, níquel e cobalto. Suas empresas, em muitos casos, são as únicas fora da China com capacidade técnica e escala para competir no processamento desses minerais. A Lynas, por exemplo, é a única companhia fora da China com capacidade relevante de refino de terras raras — razão pela qual recebeu, ainda no governo Biden, 258 milhões de dólares em financiamento da U.S. International Development Finance Corporation o DFC.

A presença do DFC merece um parêntese. O banco atua como braço direto da política externa dos Estados Unidos, à semelhança de seus congêneres francês, alemão e chinês. Em 2025, aprovou 465 milhões de dólares para a ampliação do projeto Serra Verde, no Brasil — sua maior operação individual no ano —, além de financiamentos para projetos de terras raras no Malawi e grafita em Moçambique. Participa ainda do Orion Critical Mineral Consortium, um megafundo de 1,8 bilhão de dólares voltado à exploração de minerais críticos, com forte ênfase na África.

De volta ao giro diplomático: da Oceania, Trump seguiu para a Malásia, onde assinou memorandos com o país anfitrião da cúpula da ASEAN e com a Tailândia. Ambos se comprometem a priorizar investimentos dos EUA e de seus aliados na mineração e no processamento de minerais críticos, em troca de apoio ao desenvolvimento de capacidades domésticas. A Malásia é hoje o segundo maior polo de processamento de terras raras do mundo, atrás apenas da China, enquanto a Tailândia responde por cerca de 3% da produção global, frequentemente associada a operações ilegais.

Por fim, em 27 de outubro, Trump firmou com o Japão o United States–Japan Framework for Securing the Supply of Critical Minerals and Rare Earths through Mining and Processing. O acordo prevê a identificação e o financiamento, em até seis meses, de projetos nas etapas finais das cadeias produtivas — como ímãs permanentes, baterias, catalisadores e materiais ópticos. Embora o Japão não disponha de grandes reservas minerais, compensa essa limitação com poderosas mineradoras, capacidade tecnológica e domínio das etapas finais de maior valor agregado. Sua produção de ímãs permanentes de terras raras ainda é modesta frente à chinesa, mas representa o ponto de partida mais promissor fora da China.

O conjunto de compromissos firmados em 2025 revela uma estratégia clara: superar a vulnerabilidade estadunidense em todas as etapas das cadeias dos minerais críticos, da mina ao produto final, incluindo a formação de reservas estratégicas. Austrália, Malásia, Tailândia e Ucrânia cumprem papéis centrais na mineração e no refino. A entrada do Japão é a grande novidade, rompendo sua posição até então relativamente autônoma, construída desde 2010, quando o país reagiu ao bloqueio chinês de exportações de terras raras com uma política industrial bem-sucedida de diversificação.

Ainda assim, a ambição estadunidense esbarra na posição dominante do outro polo: a China, cuja estratégia será analisada no próximo texto. Em 2024, o bloco liderado pelos EUA concentrava 25% das reservas mundiais de lítio, 9% das de terras raras e parcelas relevantes de níquel, cobalto e cobre. Na mineração, sua participação é expressiva, mas insuficiente. No refino — o midstream das cadeias — a vulnerabilidade é quase total: participação minoritária em praticamente todos os minerais estratégicos, diante de um domínio chinês avassalador.

Nos próximos textos, completaremos este panorama examinando a estratégia chinesa, a europeia e, por fim, a posição latino-americana em um momento de apetite crescente por espaços de influência e controle das matérias-primas estratégicas do capitalismo contemporâneo.

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