A falácia da taxa de juros como instrumento eficaz no combate à inflação

Ao encarecer investimentos e comprometer ainda mais a renda dos pobres, aumento de juros pode reduzir as chances de retomada do crescimento

O desemprego e a informalidade avançam. O governo fala em ajuste fiscal, mas as bondades eleitorais, como o aumento do Bolsa Família, vêm antes. O BC operou mal e deixou o mercado consolidar uma expectativa de inflação alta. (FOTO: Mauro Vieira/Ministério da Cidadania, Banco Central do Brasil e iStockphoto)

O desemprego e a informalidade avançam. O governo fala em ajuste fiscal, mas as bondades eleitorais, como o aumento do Bolsa Família, vêm antes. O BC operou mal e deixou o mercado consolidar uma expectativa de inflação alta. (FOTO: Mauro Vieira/Ministério da Cidadania, Banco Central do Brasil e iStockphoto)

Economia,Observatório do Banco Central

A inflação é, historicamente, uma das maiores preocupações econômicas do Brasil. O período vivido no início dos anos 1990 e suas consequências marcaram a vida das famílias brasileiras. As incertezas eram grandes. E os preços, remarcados diariamente. Mesmo que você não tenha passado por isso, certamente já ouviu falar das maquininhas que assombravam os consumidores a cada ida ao supermercado.

Anos depois, o fantasma da inflação assombra novamente, ainda que em patamares bem menores.

Conforme divulgado pelo IBGE, o IPCA do mês de agosto apresentou alta de 0,87%, a maior variação para o mês desde 2000. Em 2021, o índice oficial de inflação já acumula uma alta de 5,67%, superando o limite superior de 5,25%. A tendência é que o limite superior de 5,25% seja estourado. O último Boletim Focus divulgado pelo Banco Central em 13 de setembro, mostra que a previsão do mercado é que o IPCA feche o ano em 8% e que a taxa básica de juros também fique no patamar de 8%.

Em sua última reunião, o Copom aprovou o aumento da Selic para 5,25% a.a. e já sinalizou que outras altas ainda ocorrerão. A justificativa é a inflação. O arcabouço conservador que ainda guia a nossa política econômica insiste no aumento da taxa de juros como único instrumento para combater a inflação, mesmo sem analisar sua verdadeira causa. O atual momento inflacionário no Brasil aponta para uma inflação de custos, e não de demanda. Vamos aos fatores que validam esse diagnóstico.

Sob o manto ortodoxo, pouco importa se existem famílias passando fome, desempregadas, endividadas. E é essa parcela da população que mais sofre com os efeitos da inflação

De acordo com o IBGE, o grupo Transportes teve o maior impacto (0,31 p.p.) na variação mensal de agosto, reflexo da alta dos combustíveis. No grupo Alimentação, responsável por 0,29 p.p., o aumento nos preços das commodities agrícolas utilizadas pela indústria alimentícia acabou pressionando os custos de produção de alguns alimentos como batata-inglesa, carne, cebola e arroz. Além disso, com os preços das commodities em alta e a desvalorização do real, o setor exportador brasileiro passou a priorizar o comércio internacional, provocando um desabastecimento interno, que contribui para os elevados preços nos principais itens da cesta básica. Habitação foi responsável por um impacto de 0,11 p.p., principalmente devido à alta da energia elétrica e dos preços do gás de botijão e encanado. A cobrança adicional provocada pela adoção da bandeira vermelha desde junho vem pesando na conta de luz, além de reajustes tarifários adotados por algumas cidades.

O Brasil enfrenta uma das piores crises hídricas da história, com volumes de chuva extremamente baixos, e certamente a privatização da Eletrobras sancionada por Bolsonaro não irá contribuir para aliviar a alta da energia elétrica. O gás mais caro é reflexo do aumento nos preços do petróleo e da valorização do dólar. A elevação nos custos de produção chega até os consumidores através do aumento dos combustíveis e, como o petróleo é a matéria-prima do gás, esse aumento também chega aos lares brasileiros.

Isto posto, qual será o efeito do aumento dos juros? Certamente não será o controle da inflação. Ao contrário, poderá reduzir as possibilidades de uma retomada do crescimento, ao encarecer os investimentos e comprometer ainda mais a renda dos mais pobres. No entanto, os formuladores de política que (infelizmente) continuam no poder estão mais preocupados com a trajetória fiscal e a sustentabilidade da dívida pública do que, de fato, resolver a questão inflacionária. Sob o manto ortodoxo, pouco importa se existem famílias passando fome, desempregadas, endividadas. E é essa parcela da população que mais sofre com os efeitos da inflação.

O papel ativo do Estado é condição sine qua non para conduzir a economia ao pleno emprego, pois a expansão dos gastos públicos possui efeito multiplicador: estimula o investimento privado e contribui para o crescimento econômico. Com o avanço da pandemia, ficou patente a necessidade de os governos aumentarem os gastos, adotando medidas emergenciais que pudessem reduzir o impacto recessivo e preservar vidas. No Brasil, o reconhecimento do estado de calamidade pública possibilitou a suspensão das amarras fiscais (como o teto dos gastos) para que o governo tivesse uma margem de manobra maior para atuar. Mas parece que a lição não foi aprendida e voltamos para o discurso retrógrado de que o governo precisa reduzir seus gastos e que o aumento da taxa de juros é o único remédio para a inflação.

Portanto, fica claro que a política monetária e a política fiscal continuarão reféns da agenda econômica conservadora em vigor no Brasil. Capital favorecido, população esquecida. O aumento dos juros não vai resolver o problema da inflação, mas a remuneração financeira está garantida. Enquanto isso, somos o país que possui mais de 14 milhões de desempregados e um ‘auxílio’ emergencial que não paga nem mesmo uma cesta básica e o gás necessário para cozinhar. Somos o país onde pessoas precisam fazer fila para pegar restos de ossos para comer. Este é o Brasil do capital. Este é o Brasil do fuzil no prato. Este é o Brasil de Bolsonaro.

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Doutoranda em Economia pela UFRJ e Pesquisadora do FINDE/UFF

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