Do Micro Ao Macro

Risco reputacional no varejo cresce oito vezes em 18 meses, mas porte da empresa não explica a crise

Levantamento do Ibevar e da FIA Business School analisou 120 varejistas e mostra que eventos pontuais, não o porte, definem a exposição negativa.

Risco reputacional no varejo cresce oito vezes em 18 meses, mas porte da empresa não explica a crise
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Uma pesquisa inédita do Ibevar em parceria com a FIA Business School derruba uma crença comum no mercado varejista: a de que empresas maiores enfrentam, automaticamente, mais desgaste de imagem. O levantamento cruzou R$ 1,037 trilhão em faturamento somado das 120 maiores varejistas do país com a cobertura de imprensa registrada entre janeiro de 2025 e julho de 2026. O resultado aponta que o porte financeiro explica apenas 4,4% da variação no risco reputacional das companhias analisadas.

Concentração marca o mapa do varejo nacional

Ainda assim, o setor segue concentrado em poucos grupos. As dez maiores varejistas do ranking respondem por 48% do faturamento total, enquanto as posições de 11 a 20 somam 15%. As cem empresas restantes dividem os 37% que sobram.

Por consequência, a distância entre extremos chega a ser desproporcional. O Grupo Carrefour lidera com R$ 123,6 bilhões em faturamento, contra R$ 1 bilhão do Grupo Cassol, na última posição. A diferença supera 120 vezes.

Apesar disso, os pesquisadores identificaram dois perfis distintos convivendo no mesmo ranking. No topo, multinacionais e grupos nacionais de capital aberto, com faturamento entre R$ 10 bilhões e R$ 123 bilhões e atuação nacional ou global. Na base, redes regionais e estruturas familiares, em geral de capital fechado, com faturamento entre R$ 1 bilhão e R$ 3 bilhões e foco estadual ou hiperlocal.

Risco reputacional avança rápido no setor

Enquanto isso, a proporção de notícias negativas sobre o varejo saltou de 0,45%, em janeiro de 2025, para um pico de 9,82%, em maio de 2026. O crescimento equivale a quase oito vezes em pouco mais de um ano.

Por período, a média também subiu de forma constante. No primeiro semestre de 2025, o índice ficou em 1,90%. No segundo semestre do mesmo ano, avançou para 3,30%. Já no primeiro semestre de 2026, a média chegou a 4,58%, com o pico registrado em maio.

Segundo o estudo, essa alta não ocorreu de maneira uniforme entre as empresas. No segundo semestre de 2025, o desvio padrão entre as varejistas era de 1,02, com comportamento parecido entre a maioria das companhias. No primeiro semestre de 2026, o número subiu para 2,68, o que indica que a piora ficou concentrada em episódios pontuais, e não em uma tendência generalizada do setor.

Porte financeiro pesa pouco na equação reputacional

Testada em diferentes recortes, a correlação entre faturamento e exposição negativa nunca ultrapassou 0,22, seja no ranking geral, no segmento supermercadista ou nos seis maiores segmentos combinados. Uma varejista de R$ 100 bilhões não carrega, por esse critério, mais risco do que uma rede regional de R$ 2 bilhões.

Eventos pontuais explicam quase toda a crise reputacional

Segundo o levantamento, 95,6% da variação no risco de imagem das varejistas está associada a fatores pontuais, e não ao tamanho da operação. Processos judiciais inesperados, fraudes contábeis ou operacionais, pedidos de recuperação judicial e crises locais mal conduzidas aparecem como os principais gatilhos identificados pelos pesquisadores.

Diante dos números, o estudo contraria quatro suposições recorrentes no mercado: faturar dezenas de bilhões, liderar o ranking do setor, ter capital aberto ou operar em escala nacional não funcionam, isoladamente, como fatores de proteção ou de exposição à crise reputacional.

Setor alimentar concentra a maior exposição

No recorte por segmento, supermercados, hipermercados e atacarejo somam 66 das 120 empresas analisadas, o equivalente a 55% do ranking. Eletroeletrônicos, móveis e departamento aparecem na sequência, com 12 companhias, seguidos por moda, vestuário e calçados, com 10. Farmácias e drogarias, além de alimentação rápida e foodservice, somam 8 cada um. Os demais segmentos, entre construção, produtos para animais e cosméticos, reúnem 16 varejistas.

Por fim, a pesquisa reforça que nenhuma companhia está imune ao próximo evento capaz de redefinir sua reputação. Gigante ou regional, toda varejista convive com o mesmo nível de vulnerabilidade diante de um processo, uma fraude ou uma crise operacional mal gerenciada, o que torna o monitoramento contínuo da exposição um fator determinante para antecipar o próximo abalo reputacional.

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