Do Micro Ao Macro
Empresas erram na tecnologia quando pulam a etapa de diagnóstico do problema
Para Arthur De Santis, autor de CIO Codex, projetos de IA, nuvem e automação falham quando a ferramenta é escolhida antes do problema ser entendido.
Uma parcela relevante dos projetos de inteligência artificial, nuvem, automação e digitalização entrega resultado abaixo do esperado, mesmo com o volume de investimento nessas áreas em alta. Para Arthur De Santis, executivo com mais de duas décadas de atuação no setor financeiro e autor do livro CIO Codex: The IT Framework, a causa costuma estar na ausência de um diagnóstico claro do problema de negócio antes da escolha da tecnologia.
O problema, segundo o especialista, tem raiz na lógica invertida de decisão: primeiro se escolhe a ferramenta, depois se tenta encaixar o problema dentro dela. A alternativa defendida por De Santis retoma um princípio antigo, o de investigar a realidade antes de buscar respostas, questionando premissas, ouvindo diferentes áreas da empresa e validando se a tecnologia é mesmo a solução necessária.
Decisão por ferramenta ignora diagnóstico real
Arthur De Santis, autor de CIO Codex: The IT Framework, resume o raciocínio: “A tecnologia não deve ser a resposta automática para todas as dificuldades da empresa. Antes de pensar em plataformas, sistemas ou infraestrutura, é preciso fazer perguntas difíceis sobre o processo, o modelo operacional, os objetivos da organização, os riscos envolvidos e o valor que aquela iniciativa pretende gerar.”
Nuvem falha sem diagnóstico do problema
Um dos exemplos mais recorrentes, segundo De Santis, está nos projetos de migração para a nuvem. Muitas empresas iniciam esse movimento motivadas por tendência de mercado, pressão da concorrência ou expectativa de corte de custos, sem checar se aplicações, processos, arquitetura e governança estão prontos para a mudança.
O resultado costuma ser um ambiente mais caro, mais complexo e, em alguns casos, menos eficiente do que o anterior. A nuvem pode ampliar escala, resiliência e velocidade de entrega, porém esses ganhos dependem de arquitetura adequada, gestão financeira, segurança e clareza sobre o problema que se quer resolver.
Para o autor, a origem da falha não está na tecnologia em si: “O erro não está na nuvem. O erro está em migrar sem entender por que migrar, quais problemas precisam ser resolvidos e quais resultados são esperados. Quando essas respostas não existem, qualquer tecnologia se torna apenas uma despesa diferente.”
O raciocínio, segundo De Santis, vale também para projetos de inteligência artificial, automação, plataformas de atendimento, dados e modernização de sistemas legados. A ferramenta pode funcionar bem, mas só quando responde a uma necessidade clara e está ligada a processos, pessoas, competências e indicadores da empresa.
Boas perguntas orientam prioridades de TI
Para De Santis, a maturidade de uma liderança de tecnologia está na capacidade de formular boas perguntas, mais do que em conhecer todas as respostas de antemão. Essa prática reduz risco, evita decisão por modismo e aproxima as áreas de tecnologia, negócio, finanças, operação e experiência do cliente.
Entre as perguntas que o framework recomenda estão: qual problema realmente precisa ser resolvido? O processo atual faz sentido? Existe desperdício na operação? O cliente percebe valor na mudança? Há indicador que comprove a necessidade do investimento? A arquitetura atual suporta a mudança pretendida? A empresa tem capacidade para implementar, operar, proteger, medir e evoluir essa tecnologia depois da entrega?
Arthur De Santis resume o papel do CIO contemporâneo: “O papel do CIO moderno não é apenas implementar tecnologia. É garantir que cada investimento tenha propósito, gere valor mensurável e contribua para a estratégia da organização. Isso começa muito antes da escolha da solução. Começa com boas perguntas em uma atuação multidimensional usando diversos chapéus como Inovador, Estrategista, Executivo, Arquiteto e Orquestrador.”
Framework organiza tecnologia em três etapas
Essa forma de pensar dá corpo à estrutura do CIO Codex Framework, organizada em torno da lógica Why, How e What. Primeiro, é preciso entender por que a tecnologia é necessária e qual valor se busca gerar. Depois, definir como a área de TI precisa atuar para ter sucesso. Por fim, identificar os ativos, capacidades, práticas e modelos necessários para sustentar a execução.
Diagnóstico evita investimento sem retorno
No livro CIO Codex: The IT Framework, De Santis reúne princípios e métodos voltados a essa lógica de decisão. Segundo o autor, as empresas mais bem-sucedidas entendem os próprios desafios antes de escolher como resolvê-los, independentemente de quão recente seja a ferramenta disponível.
Para De Santis, essa investigação prévia deveria orientar toda decisão de TI: “A TI não pode ser vista como um fim em si mesma, nem como uma coleção de sistemas, plataformas e infraestrutura. Ela precisa ser entendida como uma capacidade organizacional que conecta estratégia, operação, pessoas, processos e tecnologia para transformar tecnologia em valor real para o negócio.”
Na avaliação do autor, a vantagem competitiva das empresas vai depender menos da velocidade para adotar novas ferramentas e mais da capacidade de questionar, priorizar e sustentar a tecnologia ao longo do tempo, sempre a partir de um diagnóstico claro do problema que precisa ser resolvido.
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.



