O poder de transformação do ensino nas escolas primárias por pessoas LGBTQI+

Algumas histórias ao longo da minha carreira me fizeram refletir o que teria sido diferente se houvesse diversidade

Foto: Carol Garcia/GOVBA

Foto: Carol Garcia/GOVBA

Diversidade,Educação,Opinião

A escola é uma das primeiras instituições onde crianças vivenciarão a discriminação de raça, gênero, classe e sexualidade. É lá que aprenderão a ler e escrever. É lá que vão aprender artes, a somar e também que alguns humanos são considerados inferiores.

É na escola que aprenderão que são negras, gays, lésbicas, dentre outros rótulos e que existem pessoas fora do padrão considerado norma. As pessoas adultas que têm uma criança sob seus cuidados, se dedicarem um tempo de escuta, ouvirão histórias sobre a discriminação no ambiente escolar. Muitas crianças que em casa são tratadas pelo nome escolhido por seus ancestrais, na escola receberão apelidos relacionados a uma característica ou status forjado nos processos de exclusão social e o nome desaparecerá nas relações.  Crianças discriminam porque aprendem com adultos e a escola, consequentemente, é um ambiente que centraliza e reproduz violências contra grupos minoritários.

Dentre as situações que observei no interior das escolas, compartilharei três para ilustrar esse argumento. Atendi na Supervisão um professor que trabalhava na Educação Infantil, que denunciou uma Diretora. Ela solicitou que ele não mais atuasse no berçário, local de direito escolhido e o remanejou para um grupo de crianças maiores, alegando que a comunidade não queria que um professor gay trocasse as fraldas. O professor não aguardou que tomássemos providencias e logo após a denúncia, pediu demissão.

Tive a oportunidade de conhecer na Educação de Adultos uma pessoa que fez a escolha de mudar o nome social em decorrência da publicação de um Decreto Municipal sobre a obrigatoriedade dos órgãos e entidades municipais incluírem o uso do nome social de pessoas travestis e transexuais em todos os registros, desde que existisse a manifestação por escrito da parte interessada. Ela teve seu direito atendido, mas em uma noite foi impedida pelo diretor, um homem branco, de adentrar a sala de aula. O argumento foi o da jovem que escolheu um novo nome de pronome feminino, não estar vestida adequadamente para os padrões. Depois dessa noite ela nunca mais voltou.

Na Coordenação Pedagógica, vi uma Diretora atender uma jovem com 12 anos, porque professores se queixavam que ela constrangia uma outra menina da mesma idade. Me lembro da Diretora perguntar: Por que você escreve bilhetes para sua colega? A menina de cabeça baixa respondeu: Porque eu acho ela bonita! A Diretora vociferou: Menina, assuma que é sapatão!  A estudante chorou, não respondeu e no dia seguinte foi transferida para outra escola. Até hoje não sei se ela concluiu o Ensino Fundamental.

Por fim, em visita que fiz como Supervisora a uma escola de Educação Infantil, vi uma criança de três anos que, enquanto a professora branca passava o sabonete na pele dela durante o banho, segurou a mão da educadora e perguntou: Prô, eu sou preto? A professora respondeu que ele era preto e não deveria ligar para os colegas que o chamassem assim, pois ele era preto, mas bonito e bonzinho.

Nos relatos acima há uma experiência em comum que é da classe social e suas intersecções com gênero, raça e sexualidade são simultaneamente subjetivos, estruturais e posicionam as pessoas constantemente em práticas cotidianas como bem afirmaria a socióloga Avtar Brah. São, portanto, os discursos que historicamente nos posicionam em zonas de humanidade e não humanidade e configuram a inferioridade de uns sobre outros como efeitos discursivos e de práticas políticas cotidiana.

Na situação do professor, que era um profissional aprovado em um concurso público, tinha o direito legal de escolher a turma, possuía a formação exigida para o cumprimento das funções, dentre elas, o cuidado com os bebes que incluem a higiene corporal.  Já a estudante adulta, cabe relatar que usava um vestido.  Traje utilizado por outras mulheres na escola, mas para ela, segundo a perspectiva do Diretor, foi considerado inconveniente.

Quanto a jovem que escrevia bilhetes, estabelecer contatos com interesses afetivos é um comportamento comum entre jovens, contudo heterossexuais não são intimados a assumirem a heterossexualidade em situações assim. Já criança que no banho disse a professora que foi racializada pelos colegas, recebeu como resposta a confirmação da racialização, acompanhada de uma conjunção adversativa. É negro, mas é bonito e bom. Percebam como a raça, acompanhada de uma conjunção adversativa é um sintoma de discriminação negativa, mesmo que sucedida de um elogio.

Todas as situações compartilhadas nesse artigo foram vivenciadas por estudantes pertencentes a grupos historicamente considerados inferiores, que tiveram suas interações corrompidas e prejudicadas nos ambientes escolares com educadores representantes dos grupos majoritários, brancos e heteronormativos, que consciente ou inconscientemente legitimaram os processos de estratificação das desigualdades.

Existem sim, escolas que comtemplam as relações de gênero, sexualidade e raça nos Projetos Pedagógicos, apesar da resistência de grupos ultraconservadores, contudo enquanto as pessoas pertencentes aos grupos minoritários não estiverem de forma igualitária entre os profissionais da educação e não forem criados mecanismos para que a pluralidade e a diversidade não sejam, apenas palavras presentes nos Projetos, mas ausentes da prática política cotidiana dos educadores, seguiremos  ratificando que a identidade de gênero binária é a única maneira possível de existir e ser tratado com dignidade.

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Pedagoga com 30 anos de experiência na área da Educação no município de São Paulo. Foi Coordenadora Pedagógica, Supervisora Escolar 10 anos. Supervisora Técnica por 4 anos. Diretora da Divisão de Normatização Técnica da Secretaria Municipal de Educação.

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