‘O brilho das velhices LGBT+’ revela a luta contra a solidão e o duplo preconceito

Depoimentos do livro contam histórias de violência, preconceito e aceitação de cidadãos LGBTQIA+ com mais de 50 anos

Esther, em três momentos da vida.

Esther, em três momentos da vida. "É difícil envelhecer em um país que não dá a possibilidade de você existir” (Foto: Arquivo Pessoal)

Cultura,Diversidade

“Eu sempre tive duas personas: Marcos e Esther.” O dilema de gênero acompanhou  a professora de teatro Esther Antunes, de 60 anos durante boa parte da vida. Natural de Bambuí, interior de Minas Gerais, ela cresceu sem qualquer referência que a ajudasse a se entender. “Eu vim do mato, não tinha uma identidade, ninguém para olhar e então pensar ‘nossa, eu sou assim’. Eu fui minha referência”. Ao mudar-se para a capital paulista, nos anos 70, que ela entendeu: sempre será os dois. E, hoje, se define como pós-gênero. “São duas histórias que caminham juntas. Para entenderem Esther, eu preciso falar do Marcos.”

O relato de Esther compõe O brilho das Velhices LGBT+, obra recém-lançada que lança luz sobre o envelhecimento de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transsexuais e pansexuais. “As pessoas enxergam a velhice como algo hegemônico”, explica Luis Baron, um dos autores do livro e presidente da EternamenteSOU . A velhice LGBT, porém, não se encaixa nos estereótipos que a sociedade tem sobre os idosos. “Esta é uma hegemonia branca e heterossexual”.

Organizado pela ONG EternamenteSOU em parceria com Núcleo de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade de Goiás e o Núcleo de estudos em Ciências do Envelhecimento, da Universidade São Judas Tadeu, o livro aborda temas como o idadismo, a solidão afetiva e o apagamento da sexualidade na velhice. Foram gravadas mais de 55 horas de entrevistas com vinte depoentes de todo o Brasil, com idade entre 40 e 80 anos. A transcrição literal dos depoimentos é importante para que os personagens dialoguem diretamente com o leitor, reforça a pesquisadora e coautora da obra Sandra Ortiz.

O casamento homoafetivo, a retificação do nome social e da certidão de nascimento, vale lembrar, só passaram a valer nos anos 2000

Como Esther, muitos LGBT+ que hoje chegam à terceira idade viveram um reecontro tardio com a própria sexualidade e identidade. A história de Denise Taynáh, 71, começou após os 50 anos, depois de uma vida como homem e ter sete filhos. “Depois que meu pai morreu, me soltei um pouco”, revela. Inicialmente, ela começou a se montar como crossdresser, mas logo entendeu que desejava viver como mulher. “Chegou o tempo de ir para a rua e me mostrar.”

Para outros, a busca pela família em uma vida heteronormativa foi um caminho incontornável. Dora Cudignola, 67 anos e lésbica, chegou a viver experiências homoafetivas na juventude, mas casou-se com um homem e teve uma filha. Sua plenitude afetiva e sexual, conta, só despertou depois da separação. Os romances tardios não foram apenas contos de fada — houve relações abusivas e por interesse — mas ela não se arrepende. “Eu precisava ter vivido isso.”

Solidão e insegurança financeira

A juventude dos que chegam hoje à terceira idade foi marcada por um histórico controle e repressão na ditadura. O casamento homoafetivo, a retificação do nome social e da certidão de nascimento, vale lembrar, só passaram a valer nos anos 2000.

Agora mais velhos, eles enfrentam novas camadas de violência e negligência. Dados da Associação de Aposentados dos EUA indicam que, 57% dos homens gays acima dos 45 anos são solteiros e 46% vivem sozinhos, na faixa dos 60, este número salta para 80% e 75% respectivamente, mais que o dobro do percentual registrado entre idosos heterossexuais.

Além dos impactos da solidão no bem-estar, a ausência de família e cuidadores torna a velhice mais vulnerável, já que os vínculos com outros grupos sociais tendem a ‘esfarelar’ na terceira idade. “Quando um LGBT chega aos 60, aquele grupo de apoio que ele montou durante toda a vida começa a sumir. Uns adoecem, outros morrem…”, diz Luis. “E em geral, eles não podem mais cuidar de si, quem dirá dos amigos.”

 

No livro, Esther conta que incerteza de renda e acesso a saúde, suas principais preocupações na velhice, foram agravadas na pandemia. “Pensei ‘estou indo para uma quarta chance de morrer’, porque tivemos a ditadura, o boom do HIV e a minha própria existência divergente”.

Os números corroboram sua percepção. Segundo levantamento da plataforma VOTE LGBT+, 6 em cada 10 integrantes da sigla ficaram mais pobres durante a pandemia, o que leva a insegurança de moradia e alimentar. Para muitos LGBTQIA+, a independência financeira também é fundamental para viver e comunicar abertamente sua sexualidade e expressão de gênero.

Por um envelhecimento plural

Para a pesquisadora Sandra Ortiz, os estudos focados na geriatria LGBTQIA+ no Brasil ainda são incipientes. “A universidade foca em uma geriatria branca e heterossexual. Como é o envelhecimento de uma trans? Quais as necessidades dessa pessoa? Nós não sabemos”.

A falta de dados contribui para a escassez de informação. Detalhes como a ausência da opção transexual em uma ficha de cadastro, inviabilizam o mapeamento destas pessoas, o que cria uma falsa realidade de inexistência para o Estado.

O despreparo de profissionais da saúde e a inconsistência nos tratamentos de hormonização, hoje concedidos pelo SUS, também são alvo de debate. Em São Paulo, o gabinete da vereadora Erika Hilton mapeou a hormonioterapia em postos de saúde e a experiência de 51 transexuais que realizam o tratamento. 75% dos participantes já foram afetados pela falta de hormônios no serviço de saúde público.

Desde o começo da pandemia, a EternamenteSOU– única atuante no Brasil com foco na velhice LGBTQIA+ – distribui 45 cestas básicas, auxilia financeiramente no acesso à moradia e disponibiliza mais de 20 psicólogos para acompanhamento. Em março de 2020 também foi ao ar as ‘salas de meets’, uma maneira de conectar idosos LGBTS em todo o país, programa que deu origem ao livro. “Com essa rede de apoio, fomos capazes de cuidar do psicológico dessas velhices, que estava muito fragilizado”, conta.

O livro O brilho das velhices LGBT+, escrito por Luis Baron, Sandra Ortiz e Carlos Eduardo Hennig, já está disponível para venda no site da Editora HUCITEC. O dinheiro arrecadado com a venda será aplicado na continuidade dos projetos oferecidos pela EternamenteSOU.

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Estagiário de CartaCapital

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