Cultura

Ouvir Elza Soares é conhecer profundamente as dores e amores das mulheres negras do Brasil

Sua trajetória foi como a metáfora com a qual ela mesma se definiu: insubstituível, inigualável, incomparável. E sempre será

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Algumas pessoas são de uma existência tão rara que despertam em nós eternas lembranças e os sentimentos mais profundos. Daqueles que não conseguimos definir nem para nós mesmos, apenas sentimos. Elas, de alguma forma, atravessam nossas vidas deixando ensinamentos importantes, que sempre serão transmitidos para quem vier – o que torna o portador dessas preciosas lições, alguém que sempre renasce, ou seja, um imortal. Elza da Conceição Soares é uma dessas pessoas.

Eu aprendi amar e admirar Elza Soares quando menina, através da minha mãe. Diante da única televisão que tínhamos em casa, ela reunia a mim e minhas irmãs para ver Elza cantar sempre que ela aparecia. Minha mãe dizia que se sentia parecida com ela.

Hoje entendo melhor do que minha mãe falava.

Elza Soares não era somente a dona de uma voz e um talento sem igual. Ela também carregava em seu corpo muitas de nós. Olhar para Elza Soares é ver em sua face o nosso rosto e o de nossas ancestrais, e compreender que é preciso seguir. Ouvir ou ler sobre sua história de vida é conhecer profundamente as dores e amores das mulheres negras que vivem no Brasil.

Elza foi obrigada a interromper a infância para assumir precocemente um lugar de mulher.

Viveu a fome, a miséria, o ódio social, o escárnio sobre sua aparência. A imoralidade foi impressa em sua face, sua sexualidade foi julgada, seu corpo foi surrado pelo homem que ela amou, sustentou e amparou. Elza sepultou filhos mortos pela fome, E lutou, lutou, sobrevivia e renascia sempre. Ela trilhou um caminho de mulher negra.

Enquanto Elza Soares era agredida por um país que historicamente hostiliza mulheres negras, cantoras e atrizes brancas recebiam títulos delicados e honrosos como: Ternurinha, Rainha do Roque, Musa da Tropicália, Musa da Bossa Nova, Namoradinha do Brasil, dentre outros. Elza Soares entregava ao mundo arte e um talento inigualável, mas muito pouco recebia em troca. Não haviam para ela títulos carinhosos ou monárquicos, mesmo sendo eleita pela Rádio BBC de Londres a cantora brasileira do milênio.

Elza nos ensinou uma das lições que considero preciosa: se auto definiu como “A Mulher do Fim do Mundo.” Quantas interpretações são possíveis a essa definição? Como seria uma mulher do fim do mundo? Onde é possível encontrá-la?

A trajetória de Elza Soares foi como a metáfora com a qual ela mesmo se definiu: insubstituível, inigualável, incomparável. E sempre será. Daqueles caminhos que por mais que outros tentem trilhar, jamais tocarão nossas almas como ela.

Um dos sentimentos que hoje que me toma é o de vergonha. Vergonha de um país que não retribuiu a Elza Soares o que era dela merecido. Que jamais pediu perdão pelas injustiças cometidas contra ela, tampouco reconheceu os erros cometidos, para que eles não mais se repitam na vida de mulheres que, assim como Elza viveu, ainda vivem no planeta fome.

Felizmente, a gratidão também me envolve. Tive a oportunidade de crescer e me tornar a mulher que hoje sou, ouvindo Elza Cantar, de maneira altiva, canções que libertaram muitas de nós. Eu agradeço a cura que ela ofereceu através de sua arte, para mim e para muitas mulheres que ouviram seu cantar.

Tenho a esperança, que neste 20 de janeiro em que Elza fez sua passagem, ela se depare com o Deus que cantava em uma das canções de sua autoria:

…“Deus é Mulher

Deus há de ser

Deus há de entender

Deus há de querer

Que tudo vá para melhor

Se for mulher

Deus-há-de-ser 

Deus há de ser fêmea

Deus há de ser fina

Deus há de ser linda

Deus há de ser mulher”…

Silvia Maria

Silvia Maria
Pedagoga com 30 anos de experiência na área da Educação no município de São Paulo. Foi Coordenadora Pedagógica, Supervisora Escolar 10 anos. Supervisora Técnica por 4 anos. Diretora da Divisão de Normatização Técnica da Secretaria Municipal de Educação.

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