Augusto Diniz | Música brasileira

Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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A voz de Elza Soares expressou, sem tirar nem pôr, sua própria história de vida

Superando uma trajetória sofrida, digna de série com muitos capítulos, ela lançou discos emblemáticos, foi excelente cantora e referência para um punhado de intérpretes

Elza Soares. Foto: Stephane Murnier/Divulgação
Elza Soares. Foto: Stephane Murnier/Divulgação
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Infelizmente calou-se a voz potente de Elza Soares. A cantora morreu nesta quinta 20, aos 91 anos, de causas naturais, conforme nota divulgada pela família nas redes sociais.

Nascida no Rio de Janeiro em 1930, Elza foi aos 13 anos parar no programa de rádio de Ary Barroso para fazer o que queria: cantar.

Perguntada de onde vinha por Ary Barroso, a menina deu uma resposta antológica: “Do Planeta Fome!” Elza Soares não havia ido apenas à rádio para cantar, mas também porque precisava de dinheiro para comprar remédios para o filho recém-nascido – antes disso, já havia perdido outro filho pequeno.

Já naquela época, ela fazia malabarismos com a voz. Os graves e agudos davam a letras e melodias uma intensidade repleta de significados. Com o tempo, seu timbre rascante tornou-se expressão de sua própria história de vida, representando de forma singular as dificuldades vividas por uma mulher negra, nascida e criada na favela com uma família numerosa.

Planeta Fome acabou sendo o título do último álbum de inéditas da cantora, lançado em 2020. Elza lançou ainda, no fim do ano passado, uma gravação da década de 1990 em que dividia sua voz somente com o violão de João de Aquino – resenhada por CartaCapital aqui.

No fim daquela apresentação, Ary Barroso a exaltou como uma estrela. Elza, contudo, comeria por muitos anos ainda o pão que o diabo amassou, até a morte do companheiro que dela abusava. Nesse caminho, perdeu mais um filho por desnutrição e criou outros cinco com uma dificuldade imensa, trabalhando no que dava para sustentá-los.

A aposta definitiva na carreira artística veio no início dos anos 1960, quando ela tinha por volta de 30 anos. Nesta época teve início o conturbado relacionamento com Garricha (que curiosamente morreu também em 20 de janeiro, há 19 anos). O único filho dessa união morreu de acidente de carro, aos 9 anos.

Créditos: Marcos Hermes A cantora Elza Soares. Foto: Marcos Hermes

Elza Soares só veio a expressar em música a dor de conviver por 15 anos com o jogador entre o alcoolismo e a violência doméstica décadas mais tarde, no disco A Mulher do Fim do Mundo (2015).

A despeito da sua história, digna de série com muitos capítulos, Elza lançou discos emblemáticos, foi excelente cantora e referência para um punhado de intérpretes.

Os seus primeiros dois LPs, Se Acaso Você Chegasse e Bossa Negra (1960), são a voz do morro desnudada, imponente e necessária para aquela época e também hoje.

No samba, Elza trazia a energia do ritmo de quem teve contato com ele na sua origem. Em 1976, gravou Lição de Vida, disco marcado pelo registro de um dos seus maiores sucessos: Malandro, obra-prima de Jorge Aragão e Jotabê.

Jorge Aragão, numa gravação de 2000 com vários convidados, chamou Elza Soares para interpretar a música com ele. É por certo um dos maiores registros de samba desse século. Elza entra belíssima, sambando, com malemolência, no alto de seus 70 anos, e canta com toda a sua habilidade vocal.

Augusto Diniz

Augusto Diniz
Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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