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Rastros escritos da história

Pedaços de papel assinados por Michelangelo, Napoleão Bonaparte, Albert Einstein e Angela Davis podem ser vistos pelo público em São Paulo

Acervo. Acima, um cartão postal escrito por Einstein em sua passagem pelo Brasil. À esq., um dos montadores da exposição recupera um dos mais de 170 itens pertencentes à coleção privada - Imagem: Coleção de Pedro Corrêa do Lago
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Um desenho com as medidas de um bloco de mármore pode ser algo trivial, assim como rabiscos feitos durante uma reunião tediosa, um cartão-postal enviado durante uma viagem ao Brasil ou uma foto assinada. A perspectiva muda, no entanto, quando os responsáveis por esses ­pedaços de papel são nomes como ­Michelangelo, Napoleão Bonaparte, ­Albert Einstein e Angela Davis.

Esses e outros 176 documentos, marcados com a caligrafia de personalidades das artes, da política, da ciência e do entretenimento, estão agora ao alcance dos olhos na exposição A Magia do Manuscrito – Coleção de Pedro Corrêa do Lago, que foi aberta na quarta-feira 28 e fica em cartaz no Sesc Avenida Paulista, em São Paulo.

Trata-se de um recorte pequeno – mas significativo – das mais de 30 mil peças que vêm sendo garimpadas há cerca de 50 anos pelo editor, bibliófilo e colecionador Pedro Corrêa do Lago. Entre cartas, formulários, rascunhos, partituras e inventários, o público tem a oportunidade de passear pelas frestas da história construída por notáveis tão distintos quanto os destacados na capa do disco Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club, dos Beatles – eles mesmos também presentes na exposição por meio de uma foto autografada por seus quatro integrantes.

“Penso que o manuscrito é a relação mais direta que se pode ter com alguém que morreu antes de você nascer. Às vezes é algo que a pessoa fez em alguns segundos, às vezes em horas, às vezes é algo que resolveu algum dilema difícil da vida dela. Isso me emociona muito”, afirma Lago.

Ele refere-se a itens como os primeiros parágrafos do clássico da literatura Em Busca do Tempo Perdido, escritos à mão pelo francês Marcel Proust (1871-1922), ou o conto A Biblioteca de Babel, redigido pelo argentino Jorge Luis ­Borges ­(1899-1986), uma de suas aquisições mais valiosas em exibição. Entre rasuras, trechos riscados e outros incluídos, é possível tatear o que se passava na mente do artista e entender um pouco mais do vaivém de seu processo criativo.

Há cinco décadas, o colecionador Pedro Corrêa do Lago garimpa, mundo afora, manuscritos

De caráter enciclopédico, o acervo guarda itens de grande relevância histórica, como um ingresso da final da Copa do Mundo de 1958 autografado pelos jogadores da Seleção Brasileira vencedora do primeiro Mundial de futebol do País, desenhos das criações aéreas de Alberto Santos-Dumont (1873-1932) ou uma carta na qual Gandhi (1869-1948) antecipa sua morte dez meses antes de ser assassinado.

Outros documentos encantam por seu teor demasiadamente humano, como uma cobrança de pagamento por uma sessão de análise por Sigmund Freud ­(1856-1939), uma carta de amor do escritor Fernando Pessoa (1888-1935) dedicada a Ophelia Queiroz e outra carta na qual o então futuro rei George VI (1895-1952), do Reino Unido, busca um cavalo para presentear a filha mais velha, que viria a se tornar a rainha Elizabeth II (1926-2022).

A coleção foi iniciada quando Pedro ainda era adolescente. Filho de diplomata, então morando na Europa, ele passou a escrever para personalidades destacadas no Who’s Who, espécie de almanaque com informações sobre celebridades, incluindo seus endereços. O primeiro a responder foi o cineasta francês ­François Truffaut (1932-1984), mas o acervo só começou a tomar corpo anos depois, especialmente quando ele trabalhou para a casa de leilões Sotheby’s.

Cada nova peça incorporada é parte de um gigantesco quebra-cabeça que vai sendo recombinado à medida que antigos itens são passados adiante e outros são agregados, produzindo sentidos inéditos a diferentes contextos. Com curiosidade, observação e referências, surge o prazer da descoberta.

Lago lembra, por exemplo, de quando percebeu ter a posse de uma carta na qual o pintor Vincent van Gogh (1853-1890) faz uma lista dos elementos do quarto onde permaneceu em Arles, no Sul da França, e que ganharia fama por meio de suas pinturas. “Foi um detalhe que escapou a vários colecionadores sucessivos”, diz, revelando detalhes de um ofício alimentado por doses iguais de investigação e obsessão.

Garimpo. Modelos de Santos Dummont; um ingresso da final da Copa de 1958 autografado pelos jogadores; e um caderno com frases e desenhos de Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade – Imagem: Coleção de Pedro Corrêa do Lago

“Uma simples assinatura em um pedaço de papel não traz informação alguma. O que determina a importância de um manuscrito é o conteúdo. Antes do e-mail, essas pessoas mandavam milhões de bilhetes, e com eles você consegue reconstituir épocas e reviver um pouco aqueles ambientes”, completa o colecionador, que já escreveu diversos livros para sua Editora Capivara estabelecendo pontes entre vários desses documentos.

A exposição foi apresentada pela primeira vez, em 2018, na Morgan Library & Museum, nos EUA, e recebeu 85 mil visitantes. Para a versão brasileira, algumas peças deram lugar a outras, abrindo espaço para uma maior representatividade de figuras brasileiras, como a compositora Chiquinha Gonzaga (1847-1935), o abolicionista José do Patrocínio (1853-1905), o escritor Guimarães Rosa (1908-1967) e o ator Grande Otelo (1915-1993).

O manuscrito mais antigo data de quase 900 anos atrás. Firmado em 1153, ele contém a assinatura dos papas Anastácio IV, Celestino III, Alexandre III, Lúcio III e de São Guarino da Palestrina. Já o mais recente foi feito por Caetano Veloso especialmente para a exposição.

As efemérides de 2022 também influenciaram as escolhas. Para remeter ao centenário da Semana de Arte Moderna, por exemplo, foram incorporados elementos de Candido Portinari ­(1903-1962), Tarsila do Amaral (1886-1973) e Mario de Andrade (1893-1945), entre outros. Já o bicentenário da Independência recebe um aceno em cartas de José ­Bonifácio (1763-1838), D. João VI (1767-1826) e D. Pedro I (1798-1834) – esta endereçada à sua amante, a Marquesa de Santos, assinada com o apelido de “Demonão”.

O documento mais antigo da mostra data do ano de 1153 e contém a assinatura de cinco papas

Guardados em pesados arquivos à prova de fogo e água na casa do colecionador, no Rio de Janeiro, os manuscritos chegam ao público em uma cenografia criada por Daniela Thomas e Felipe ­Tassara. Nela, tanto a peça quanto sua contextualização são postas em evidência.

A predominância do papel como suporte contrasta com o DNA high tech do Sesc Avenida Paulista. De acordo com Juliana Braga, gerente de artes visuais e tecnologia do Sesc São Paulo, esta é uma fricção saudável: “Podemos brincar com as pessoas e falar sobre mídias diferentes e os vários tipos de escrita, desde a mão até o WhatsApp”.

Para ela, os itens reunidos não apenas refletem a sociedade através do tempo, mas também convidam cada um a se entender como parte de uma mesma história. “A gente aposta muito que os visitantes possam fazer pontes com seus próprios arquivos pessoais, percebendo quanto de nossas histórias individuais se encontra com as histórias coletivas”, diz. “No fundo, cada um contribui para o tecido social, faz parte do mesmo contexto, vive os mesmos dilemas e as mesmas belezas da vida.” •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1228 DE CARTACAPITAL, EM 5 DE OUTUBRO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Rastros escritos da história “

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