Cultura

‘Racismo é uma doença universal. Mas tem cura’, diz Martinho da Vila

Em novo álbum, artista entoa canções divertidas, mas também se posiciona contra todo tipo de intolerância

O recém-lançado Mistura Homogênea traz samba, fado, xote e até hip-hop - Imagem: Leo Aversa
O recém-lançado Mistura Homogênea traz samba, fado, xote e até hip-hop - Imagem: Leo Aversa
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Certa feita, Zeca Pagodinho estava passeando pela orla da Barra da Tijuca e um sujeito o abordou, pedindo dinheiro para comprar cerveja. Zeca lhe deu 5 reais. Ao ver a nota, o amigo que acompanhava o pedinte, reclamou: “Se fosse o Martinho da Vila, a gente teria ganho mais dinheiro”. Desafiado em seus brios etílicos e altruístas, Zeca voltou para trás e deu mais dez reais à dupla, que imediatamente mudou de partido: “Bom mesmo é o Zeca, o Martinho num tá com nada!”

A história é contada, aos risos, pelo próprio Martinho, em entrevista a ­CartaCapital, por Zoom. E sejamos sinceros: o autor de Canta Canta Minha Gente está com tudo. Mistura Homogênea, seu novo álbum, é uma combinação inteligente de sambas, mas também fados, xotes e até hip-hop. “Sempre faço discos pensando num conceito. E como estudei química, pensei na mistura homogênea, aquela que nunca se desfaz. A música é assim, tem uma linguagem universal”, explica.

Mistura Homogênea traz sambas divertidos, mas também fala muito sobre tolerância. Oração Alegre, por exemplo, trata de judaísmo, islamismo e cristianismo, com a presença de uma melodia de influência africana. O xote Vidas Negras Importam foi inspirado no assassinato do americano George Floyd, em 2020, mas poderia servir como canção de protesto contra o brutal homicídio do congolês Moïse Kabagambe, no Rio.

“Racismo é uma doença universal. Mas tem cura. Se eu noto algum traço de racismo numa pessoa, eu a levo para o meu meio para ela se encantar com a nossa cultura. E ela acaba mudando”, diz. Outra bela canção do álbum é Dois Amores, que faz lembrar um fado e tem a participação da escritora moçambicana Paulina Chiziana, vencedora do Prêmio Camões de Literatura. Ao final da canção, ela declama um poema.

E há ainda Viva Martina, feita em homenagem a Mart’Nália, filha de Martinho. “Eu tinha feito Fala Mart’Nália, em 1994, só que citava outro monte de gente: Raoni, Dandara… O meu filho Tunico então brincava dizendo que ela não tinha música. Quando Mart’Nália escutou essa, a primeira coisa que fez foi ligar para o Tunico”, diverte-se

Era de Aquarius é uma parceira com o rapper Djonga. O rap, para Martinho, nunca foi estranho ao samba. “É tudo parente. No fundo, ele possui a mesma função dos sambas antigos. A gente falava de pobreza, favela e desemprego de uma forma mais lamentosa e melodiosa. O rap é mais direto”, diz. Era de Aquarius traz uma letra otimista, que apregoa a união das religiões, o fim do conservadorismo e das diferenças sociais.

“Racismo é uma doença universal, mas tem cura”, diz o sambista que virou tema da Vila Isabel

Martinho José Ferreira nasceu em ­Duas Barras, no interior do Rio, em fevereiro de 1938. Quando tinha 4 anos, mudou-se para a capital e, na Serra dos Pretos Forros, na região do Grande Méier, encantou-se com os folguedos carnavalescos. Em 1967, ainda com o nome artístico de Zé Ferreira, venceu o concurso de samba de enredo da Vila Isabel com Carnaval de Ilusões – repetiria o feito em 1968, 1969 e 1970.

Um dos seus principais atributos é o vocabulário diferenciado. “A gente aprende na hora de criar o samba-enredo. Tem sempre um retumbante, um varonil’, brinca. Em Mistura Homogênea, ladeado por Zeca Pagodinho e por ­Xande de Pilares, dois de seus discípulos confessos, ele cria rimas a partir de palavras terminadas em vogais.

De tanto burilar samba-enredo, Martinho da Vila, merecidamente, tornou-se tema de um. Canta, Canta Minha Gente! A Vida É de Martinho!, que a Vila Isabel colocou na avenida em 2022, é uma justa homenagem ao compositor mais famoso da Vila Isabel, ao lado de Noel Rosa. “É muito raro ser homenageado em vida”, comenta ele, que quase ganhou esse tributo em 2010. “Mas eu lembrei aos diretores que era centenário de Noel Rosa”, diverte-se. E assim a homenagem a ­Noel foi escrita por Martinho.

Nos últimos tempos, duas canções de seu repertório viraram notícia. A primeira foi Mulheres, que, segundo seu autor, Toninho Geraes, foi surrupiada pelos produtores da cantora Adele. Virou Million Years Ago. “A mulher é do Toninho, eu só canto a música. Mas ela é parecida, sim”, diz. Já Você Não Passa de Uma Mulher, sucesso de 1975, causa desconforto por causa do título e verso machistas. “Nunca gostei do verso, mas ele foi ficando e virou sucesso. Nos shows, eu a deixava para o bis. Havia uma ou outra vaia, mas, no final, todo mundo cantava.”

Martinho, nesse momento da conversa, lembra de Na Outra Encarnação, de 1972, canção de sua autoria que também não cai bem aos tempos atuais. Esse frevo diz: Eu vou voltar mulher/ Dormir cedo, acordar tarde/ História em quadrinhos na mão/ Uma casa bem cuidada/ Empregadas demais para cuidar dela/ E eu vou viver vendo novela/ Em cores na televisão. “Em minha defesa, só digo que gostaria de voltar como essa mulher, não que toda mulher seja assim”, diz, em tom de troça.

Apesar de brincar com o passado, o compositor, como as próprias canções de Mistura Homogênea indicam, é totalmente alinhado ao pensamento progressista. Ele, inclusive, tem em Lula um grande amigo. Os dois se conheceram na campanha das Diretas Já, nos anos 1980, e o ex-presidente chegou a ir ao lançamento de um livro do compositor. “Ele lê muito, é muito culto”, diz. Ao lado de Chico Buarque, Martinho chegou a visitá-lo na prisão, em Curitiba, em 2018. O compositor, é claro, já decretou seu voto para o ex-presidente. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1200 DE CARTACAPITAL, EM 23 DE MARÇO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Samba no pé, ideias na cabeça”

Sergio Martins

Sergio Martins
Jornalista, diretor musical e curador artístico

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