Cultura

Entrevista

"Quando se faz arte, se faz política", diz Roberta Martinelli

por Ingrid Matuoka — publicado 20/04/2017 15h53, última modificação 20/04/2017 20h15
A apresentadora do programa Cultura Livre comenta a censura da emissora à crítica da banda Aláfia a Doria e Alckmin
Reprodução/Facebook/Roberta Martinelli
Roberta Martinelli

"Se acontecer mais uma vez, acabou"

A banda Aláfia foi ao programa Cultura Livre, da TV Cultura, a convite da apresentadora Roberta Martinelli. O episódio foi ao ar na quarta-feira 12 quando, para a surpresa dos músicos da apresentadora, um trecho da música "Liga nas de cem" foi editado e retirado. Mais especificamente, o trecho que critica o prefeito de São Paulo João Doria (PSDB) e o governador do estado Geraldo Alckmin (PSDB).

Tanto Martinelli quanto a Aláfia se manifestaram publicamente contra a censura dessa música. A emissora, que é administrada pelo governo de São Paulo, publicou uma nota afirmando que o trecho foi removido para "não difundir ideias ou fatos que incentivem a polarização, independentemente do indivíduo a quem esse discurso se destina".

Em entrevista a CartaCapital, Roberta Martinelli, afirma que a sua permanência na TV Cultura e a continuidade do Cultura Livre dependem de sua liberdade como curadora e da livre expressão das bandas que convida para o programa. 

CartaCapital: Parte da classe artística brasileira tem resistido a tudo que aconteceu politicamente no país. Faz sentido censurar esses artistas no palco, onde é o espaço de expressão deles?

Roberta Martinelli: A minha permanência na TV Cultura foi conversada ontem e depende exatamente disso. Eu criei o Cultura Livre, obviamente eu prezo pela liberdade de expressão dos artistas. Quanto mais polarização e mais questões existirem, mais músicas de protesto vão surgir, e isso é histórico, não tem como evitar.

É importante que o Cultura Livre seja, de fato, livre, senão já no nome ele perde sua essência. Então, enquanto existir liberdade na TV Cultura, eu fico. Eles disseram que não vão mais interferir nisso, mas se acontecer mais uma vez, acabou.

CC: Essa censura afetou a sua liberdade como curadora?

RM: Se eu deixar de chamar uma banda porque ela tem uma música que cita algo político, eu estaria fazendo uma censura prévia também. E eu não vou fazer isso. Vou continuar levando bandas pelo conteúdo artístico independentemente de partido.

O Cultura Livre é um programa da música brasileira que acontecendo agora, e o que acontece agora tem que estar no programa independentemente do que vai falar, do que é, e de que partido.

CC: Qual é o papel dos artistas no momento político pelo qual o Brasil passa?

RM: É fundamental, não tem como separar arte de política. Quando se faz arte, se faz política também. Uma peça de teatro, uma música, ou uma pintura, é uma atitude política nesse momento difícil, de polarização do país.

O fundamental é que todos nós saibamos que já vivemos momentos em que uma obra de arte não podia ser veiculada ou cantada, e ninguém quer isso de volta. Daí a importância da cultura ser livre.

Ouça a música "Liga nas de cem". A crítica a Doria e Alckmin aparece nos segundos finais:

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