Cultura

Público e personagem se multiplicam em “Todos os Paulos do Mundo”

Público e personagem se multiplicam em “Todos os Paulos do Mundo” Não é um documentário. É uma autobiografia filmada. Ou seria um autorretrato? Talvez uma homenagem. O resgate de um símbolo que atravessou, testemunhou e incorporou as mudanças do País em sua própria história. Não, [...]

Com Parkinson, a 'doença do medo', Paulo José interpreta, perto dos 80, um menino que finge ser velho (Foto: Divulgação)
Com Parkinson, a 'doença do medo', Paulo José interpreta, perto dos 80, um menino que finge ser velho (Foto: Divulgação)
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Público e personagem se multiplicam em “Todos os Paulos do Mundo”

Não é um documentário. É uma autobiografia filmada. Ou seria um autorretrato? Talvez uma homenagem. O resgate de um símbolo que atravessou, testemunhou e incorporou as mudanças do País em sua própria história.

Não, é um filme sobre a fusão da vida e da obra. Sobre a fronteira borrada entre o artista e o personagem. Pensando bem, é uma declaração de amor ao cinema. Sobre a travessia do realismo do cinema autoral para a televisão. Uma leitura obrigatória para quem ama e para quem pensa um dia em trabalhar com cinema.

Ou seria um filme sobre o envelhecimento? Sobre limites? O corpo como elemento da fala? Sobre reinterpretar o próprio filme? Ou sobre nada disso?

“Todos os Paulos do mundo”, documentário de Gustavo Ribeiro e Rodrigo de Oliveira sobre o ator Paulo José, é um pouco de tudo isso, mas tudo isso ainda é pouco. Ele não multiplica apenas os vários Paulos Josés em cena: multiplica seu espectador em muitos.

Este que agora escreve precisou assistir ao filme duas vezes para se confrontar com as muitas vozes das linhas acima e tentar encontrar, em vão, uma única definição. “Todos os Paulos do mundo” é um filme sobre todos nós.

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O fio condutor são as memórias escritas pelo próprio ator ao longo dos anos. Mas o texto não é só dele. É lido e interpretado também por outros atores-personagens fundamentais em sua vida-obra, como Selton MeloMilton GonçalvesFernanda Montenegro, Paulo Migliaccio, entre tantos.

É lido também por Paulo José em diferentes fases da vida. “Estou lendo rápido, estou ansioso. É meio estranho ler em primeira pessoa, falando de mim mesmo”, diz ele, logo no início, provavelmente interpretando o próprio medo.

O Paulo José que, perto dos 80, quase não fala e pouco gesticula, é então carregado pela tela como seu personagem em A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água.

As falas são cobertas com momentos atuais e imagens de arquivo dos muitos filmes protagonizados pelo personagem. Com eles, não é apenas o ator-protagonista quem ganha relevo. É o seu próprio pensamento.

No filme, Paulo José, que iniciou a carreira no Teatro de Arena, diz só ter se sentido verdadeiramente ator no cinema. Ele emprestou a voz e a expressão para os alter egos de Domingos de Oliveira, Luis Sérgio Person, Hector Babenco, Joaquim Pedro de Andrade, Walter Hugo Khoury. Seu interesse pelo cinema autoral pode ser explicado em uma frase de Walt Whitman: “quem toca nesse livro toca num homem”.

A certa altura, o público já não sabe se quem fala é algum personagem, algum alter ego ou o próprio ator, que quando criança recolhia e levava para casa os fotogramas dos filmes como O Gordo e o Magro descartados nos cinemas de Bagé e trocados como figurinhas.

“Às vezes sinto dentro de mim uma espécie de explosão. Uma felicidade louca só pelo fato de estar vivo. Infelizmente isso dura pouco.” “A média não pode ser a norma”. “O ator não tem caráter. Chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”.

Quem disse isso?, pensamos, já no plural. Paulo, o personagem ou Fernando Pessoa? Que diferença isso faz?

Na polifonia ali exibida é possível captar algumas das reflexões mais profundas do ofício de quem não sabia ir para casa após a filmagem e fazer qualquer outra coisa. Para o ator, define Paulo José, é mais fácil viver no mundo da fantasia do que no mundo real, onde não sabemos o que somos exatamente. “Na fantasia você é o que você é. Se fosse, passa a ser”.

Há também reflexões sobre os recursos técnicos. Quanto mais a câmera se aproxima, explica, mais econômico você precisa ser. “O rosto é uma transparência. E é nessa transparência que o espectador vai colocar sentimentos. O espectador precisa olhar no fundo do meu olho e saber que tem gente morando ali dentro”, ensina.

O cinema, para ele, é vivência, não representação. É a deliberação, inclusive, do lado perverso de quem interpreta.

“Não represento nada. Eu viro o personagem. Qualquer personagem é mais interessante do que uma pessoa”, sentencia.

Em tempos de Netflix (dos 50 filmes e 18 séries, há um único trabalho do ator no catálogo do gigante do streaming), o filme faz companhia a outros trabalhos recentes do cinema brasileiro que resgatam a trajetória de peças-chave da nossa história, como os dedicados a Antonio Pitanga, Torquato Neto e, mais recentemente, Rogério Duarte.

Servem como convite e desafio: (re) descobrimos (ou dimensionamos), o tesouro, mas como alargar esta ponte entre a história e o presente? Como nos documentários recentes, a vontade é sair da sessão e resgatar os filmes que, como na música de Gil e Caetano, nos formaram e estão a nos formar. (Dica: o Padre e a Moça e Macunaíma, dois dos grandes trabalhos de Paulo José, estão disponíveis no YouTube).

Há alguns anos um anjo (ou alguém interpretando um anjo) veio até Paulo José com um empurrão, mandando perder a vaidade, como ele mesmo narra. Diagnosticado com o Mal de Parkinson, a “doença do medo”, Paulo José interpreta agora, perto dos 80, um menino que finge ser velho. Sua doença é degenerativa, progressiva e irreversível. Mas ele prefere chama-la de envelhecimento. Ou, simplesmente, vida, esta sim irreversível.

As muitas faces de Paulo José desfilam na tela à altura de seu protagonista. Acho que num ponto os muitos autores deste texto devem concordar: “Todos os Paulos do Mundo” é um filme sobre a coragem.

Ana Carolina Pinheiro
Estagiária de Jornalismo do site CartaCapital.com.br

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