Augusto Diniz | Música brasileira

Paulinho Pedra Azul, 40 anos de carreira, critica receita de direito autoral

Artista, com 30 discos lançados, diz viver com ‘dignidade e criatividade’ depois de muita dedicação e como ‘dono’ de seu próprio trabalho

Foto: Ludimila Loureiro/Divulgação
Foto: Ludimila Loureiro/Divulgação

Paulinho Pedra Azul é daquelas artistas conhecidos por quem gosta de (boa) música para ouvir, mas pouco badalado pela mídia. Mineiro da cidade que carrega no sobrenome artístico, lá no Vale do Jequitinhonha, fez carreira se autoproduzindo, realizando shows em lugares modestos, mas sempre cheios e frequentes pelo Brasil afora e ainda no exterior, lançando quase um disco a cada ano, e diversificando nas artes, com projetos literários e nas artes plásticas, se utilizando de recursos próprios.

“Sustento-me numa luta difícil, mas é uma opção minha há 40 anos. Consegui me estabilizar, por muita dedicação e sendo dono do meu trabalho, em CDs, LPs, livros”, afirma. “Não sou e nem vou ficar rico, mas tenho como sobreviver com dignidade e muita criatividade. Foi a única forma que encontrei para sobreviver do meu trabalho. Fazer tudo de forma independente”.

 

E nessa vida de artista independente de quatro décadas lançou 30 álbuns, com várias composições (só suas ou em parceria) gravadas por outros intérpretes.

Sua música mais conhecida é um clássico do cancioneiro: “Bem te vi, bem te vi / Andar por um jardim em flor / Chamando os bichos de amor / Tua boca pingava mel” – seu título: Jardim da Fantasia. Paulinho tem outras boas canções, como Ave Cantadeira, Recado para um Amigo Solitário, Sonho de Menino, entre outras.

Paulinho Pedra Azul é um dos mais importantes músicos do norte de Minas Gerais. Grande trovador, seu trabalho tem influência do Clube da Esquina – possui, inclusive, um disco com Wagner Tiso de 2000 sobre obra de Godofredo Guedes (pai de Beto Guedes) e ainda composições com Toninho Horta.

“Ninguém reclama”

Em setembro último, seus seguidores na rede social foram surpreendidos com crítica sua em tom de desabafo sobre direito autoral. Citando como “vergonhoso” desde longo tempo, afirma ter recebido de arrecadação de direito autoral durante a pandemia cerca de 10% do que ganhava anteriormente, que já era pouco, apesar da longa carreira e muitas músicas gravadas.

“É uma vergonha como se trata a maioria dos compositores brasileiros”, diz em um trecho do post. E segue: “Sem contar que o pouco dinheiro arrecadado para o autor, ainda tem que ser dividido com quem nunca compôs uma só canção, como editoras, gravadoras, entidades arrecadadoras, que se julgam donas das nossas obras.”

E menciona que a situação não muda: “Ninguém reclama, ninguém defende, ninguém se une, ninguém se revolta; e seguimos alimentando a alma dos nossos fãs, ouvintes e admiradores, sem que eles nem saibam a verdadeira história, desde o início, da triste, deprimente, enganadora, exploradora, mentirosa, vergonhosa e humilhante arrecadação e distribuição de direitos autorais no Brasil”.

Conversando com Paulinho Pedra Azul sobre o post, ele diz que a arrecadação de direitos autorais é até eficiente no País, mas o problema é a distribuição do recurso arrecadado.

“Não sei o critério usado e eles também não revelam. Ganha mais quem tem mais nome e fim. Coisa do Brasil em todos os aspectos, infelizmente. Estamos sempre renegados ao quinto, sexto plano. A cultura é a que mais sofre por desrespeito aos nossos verdadeiros valores. O pior é que sobressai. Muito triste isso. Seguimos por amor e teimosia”.

Sabe-se que na pandemia cresceu bastante as plataformas de streaming de música, que reconhecidamente pagam valores ainda mais baixos pela execução a compositores e intérpretes. Por isso, acredita que a situação vai piorar. “Criam-se leis próprias, como se fossem donos do nosso trabalho”, diz.

Mas como quem já convive há tempos com as desigualdades de sua área de atuação diz que seguirá “compondo e cantando”, como sempre fez. “Deixar meu recado de amor e paz, porém cobrar também dos nossos governantes uma vida mais digna, principalmente para os mais necessitados”.

Vê, porém, com alegria os shows retomando. “Acho que teremos muitos trabalhos pela frente. A pandemia está indo embora e deixando sua triste marca, mas superaremos isso tudo, com muito trabalho, amor, dedicação, criatividade e respeito. Enfim, vida que segue”.

Assine nossa newsletter

Receba conteúdos exclusivos direto na sua caixa de entrada.

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fonte confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!