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Os fora da lei

Em um romance de ação passado no DF, Dan, escritor misterioso, mistura festinhas de aniversário e jogo do bicho

Os fora da lei
Os fora da lei
A paisagem de Brasília impregna a atmosfera da trama – Imagem: Gabriel Jabur/Agência Brasília
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Na década de 1990, no Distrito Federal, tempo e lugar onde se desenvolve a maior parte da trama de Vale o Que Tá Escrito, o mundo é dividido entre as pessoas que têm um ­Chevette e as que têm um Vectra. Ter um ou outro carro, nos dirá Dan, autor brasileiro que mantém o mistério sobre sua identidade, exige um jogo de cintura entre o trabalho respeitado, bicos e alguma atividade fora da lei.

A atmosfera que permeia as recordações vertiginosas do narrador recupera um clima das duas últimas décadas do século XX: as festinhas de infantis em que os adultos se divertem mais que as crianças, a alegria dominical interrompida por algum plantão da TV Globo, as fitas ­cassete ou os vinis tocando a música preferida dos pais e algum colega de escola apelidado de Godines.

“Ouvimos tensos, aquele pã… pã-pã-pã…pã…pã pã pã pã… do plantão da Globo. Olhávamos, todos, para a tela da televisão”, descreve o narrador ao rememorar a prisão do Maníaco do Parque, em 1998. “Meu pai e os outros homens adultos comemoraram como se fosse um gol.”

Vale o Que tá Escrito. DAN. DBA (224 págs., 59,90 reais)

O narrador Danylton, hábil em entreter o leitor, tem 33 anos e conta uma história da qual não é o protagonista, mas o autor. Por mais que reitere estar fazendo uma investigação para preencher as lacunas da memória e da ignorância, ele não é confiável. “O trabalho do escritor é, antes de tudo, um trabalho de traição”, escreve.

De dentro da cafeteria montada pela mulher, onde trabalha sem vontade, Danylton vê passar pela calçada Lilico, que julgava morto há 20 anos. Lilico era da turma dos garotos mais velhos, formada por Cleyton, Mano Bola e Gilson, tio-irmão de Danny, e era conhecido por suas explosões de raiva.

Ele atingiu a cabeça de um colega com um grampeador, atacou um cliente homofóbico na banca de jornal do pai e, por fim, armou uma blitz para enfrentar o sogro miliciano. O que Danny deseja reconstruir em Vale o Que Tá Escrito é a ação policial e a morte do sogro de Lilico.

E essa reconstituição inclui ambientes como os do jogo do bicho, das arenas de rinha de galo, da prostituição de menores, dos matadores de aluguel e dos adolescentes impulsivos em busca de alguma diversão. As mulheres aparentam ser pingentes, mas mudam de status ao longo da trama.

Esse clima fora da lei, com a paisagem árida do DF e de Goiás, aparece em outro lançamento interessante da temporada: O Vento da Queimada (Record, 518 págs., 89,90 reais), de André de Leones. Ambos valem a leitura. •

Publicado na edição n° 1275 de CartaCapital, em 06 de setembro de 2023.

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