Desprezado pela indústria, Odair José volta com disco político

Hoje com 70 anos, o cantor e compositor goiano lança 'Hibernar na Casa das Moças Ouvindo Rádio', álbum de protesto

Desprezado pela indústria, Odair José volta com disco político

Cultura

Nos anos 1970, o popularíssimo Odair José foi um cantor de protesto sem querer. Militou em favor de empregadas domésticas, prostitutas e rapazes homossexuais sem causa – provavelmente, espelhava-se naquelas personagens, enquanto ajudava a sustentar com o próprio suor o edifício da indústria fonográfica nacional, que de resto o desprezava solenemente.

Era uma militância intuitiva, descolada dos métodos da MPB universitária. Hoje com 70 anos, o cantor e compositor goiano lança Hibernar na Casa das Moças Ouvindo Rádio, disco de protesto ao inverso da candidez de Vou Tirar Você Desse Lugar (1972), Deixe Essa Vergonha de Lado (1973) e O Filho de José e Maria (1977). Ativista do “Lula Livre” e admirador da lei para trabalhadores domésticos promulgada por Dilma Rousseff, Odair estende ao mais novo álbum a verve ao mesmo tempo roqueira e indignada. Nesse quesito, deixa no chinelo roqueiros de araque como Lobão e Roger do Ultraje a Rigor.

Em sincronia com o cinema marginal brasileiro, serve-se da técnica de O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla, em comentários narrados inseridos entre as faixas.

Incrível Liquidação de Armas de Fogo. Você Pediu, Agora Chupa!, vocifera o locutor Thunderbird antes de Chumbo Grosso, cantada em trio com as cantoras transexuais d’As Bahias e a Cozinha Mineira e autoexplicativa: O assunto agora é a cultura da bala/ na falta de argumento a solução é uma vala/ alguém mergulhou nas contas do pré-sal/ não deu praia, se deu mal.

Noutro trecho, volta o narrador Thunderbird: “Este disco é indicado para estupidez coletiva. Se persistirem os sintomas, procure um psiquiatra“.

As faixas dividem-se em blocos, um mais político, outro mais sexual (com Na Casa das Moças, Fetiche e Gang-Bang). Uma terceira vertente faz o autoelogio da vida mambembe do artista popular brasileiro: Rapaz Caipira, Imigrante Mochileiro (em dupla com o pernambucano Jorge du Peixe, da Nação Zumbi), Pirata Urbano, Liberado. Em todas as vias diz presente o velho e generoso defensor dos humilhados e ofendidos.

 

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Editor de Cultura de CartaCapital.

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