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O velho Graça de novo em voga

‘Angústia’, terceiro romance de Graciliano Ramos, dá a largada a uma corrida pela reedição das obras do autor

A obra do autor entrou, em janeiro, em domínio púlbico – Imagem: Arquivo Nacional
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Graciliano Ramos, nascido em 1892, no município de Quebrangulo (AL), é um dos principais nomes do realismo social na literatura brasileira. Livros como São Bernardo (1934) ou Vidas Secas (1938) fizeram do escritor alagoano um dos grandes representantes do “romance de 30” – denominação que tem, como referência, a segunda geração do Modernismo, chamada de “regionalista”.

Não deixa de ser interessante, portanto, que a Editora Todavia tenha dado a largada à Coleção Graciliano Ramos (ler texto à pág. 54) com a publicação de Angústia, originalmente lançado em 1936, quando o escritor estava encarcerado pelo regime varguista. Simultaneamente, agora que a obra do autor entrou em domínio público, a editora publica também, por seu selo infantil, Baião Livros, o inédito Os Filhos da Coruja, baseado em poema escrito por Ramos em 1923.

Terceiro romance do autor, Angústia é “sua obra mais ousada, vanguardista, ambiciosa”, como destaca na introdução Thiago Mio Salla, professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e responsável pela coleção.

Para Antonio Candido – cujo ensaio sobre o romance escrito para o jornal Diário de S. Paulo, em 1945, figura como posfácio desta nova edição –, Angústia pode ser a obra-prima de Graciliano, mas é nesse livro “que devem ser procuradas as suas melhores frases”. “Defeituoso no conjunto”, prossegue Candido, “ele contém certos trechos que não podem ser considerados senão admiráveis.”

Não que os artifícios narrativos utilizados em Angústia não tenham sido mobilizados nos romances anteriores, a exemplo de Caetés, de 1933, ou do próprio São Bernardo. Mas, desta vez, a narração em primeira pessoa, por meio de um anti-herói em torno do qual o enredo se desdobra, atinge um novo patamar.

Angústia. Graciliano Ramos. Todavia (320 págs., 64,90 reais) – Compre na Amazon

Sabe-se que Graciliano era preciosista com os próprios textos, revisando-os sempre que podia. Esse foi, especialmente, o caso de Angústia, volta e meia criticado por ele mesmo como mal escrito e cheio de erros de edição. Não por acaso, Salla e a Todavia optaram por tomar como base não o texto da quinta edição, a última a ter sido revista em vida pelo escritor – morto em 1953, vitimado pelo câncer– mas anotações anteriores.

Estruturado através da memória de Luís da Silva, funcionário público de 35 anos, “homem de ocupações marcadas pelo regulamento” e autor eventual de artigos para a imprensa, o livro é composto de uma torrente de digressões e fluxos de consciência, embaralhando qualquer objetividade social mais evidente.

Assim, se a preocupação com as mazelas do país periférico continua presente, ela é agora contrabalanceada pela subjetividade onipresente do narrador. Oriundo das elites oligárquicas decadentes, obrigado a se acomodar precariamente à vida urbana na capital Maceió, Luís da Silva vai relembrando acontecimentos do presente e do passado com uma velocidade estonteante.

O centro do enredo é o seu embate com Julião Tavares, bacharel e filho de rico comerciante pelo qual sua pretendente, Marina, se apaixonou após ter dilapidado, para o casamento que não houve, as parcas economias acumuladas pelo noivo. A Luís da Silva só restava, então, dar vazão aos seus impulsos assassinos, matando por estrangulamento o antagonista econômico e sentimental.

O resultado é uma narrativa em que meditações psicológicas, quando não psicanalíticas, se entrelaçam com aspectos da vida social da época, marcada pela ascensão de certos ramos das elites em detrimento de outros. Com isso, o “drama coletivo” é tragado pelo “drama pessoal” do narrador, a ponto de Candido qualificar (em 1945, vale lembrar) Luís da Silva como “o personagem mais dramático da moderna ficção brasileira”.

A intensidade errática da introspecção, sempre excessiva e transbordante, é tamanha que faz com que o leitor se questione sobre a sua veracidade ­factual: não seria tudo aquilo mera alucinação de um narrador angustiado e marcado pelo complexo de inferioridade em relação ao oponente?

Em Angústia, o autor ilumina, por meio da intimidade do narrador, nossa realidade perversa

É o próprio Luís da Silva, aliás, quem sugere tal situação fantasmagórica. “A lembrança chega misturada com episódios agarrados aqui e ali, em romances. Dificilmente poderia distinguir a realidade da ficção”, diz ele. “Seria tudo ilusão?”, se pergunta mais ao final do romance.

Estamos no meio de um turbilhão de emoções, o que nos instiga a uma indagação permanente a respeito do andamento da história. É como se esse distanciamento ficcional, impulsionado pelo próprio narrador/autor, nos permitisse ultrapassar os limites de uma vida social asfixiante. Transfigurada, a realidade pode ser vista como passível de ser transformada, sujeita que está àquilo que dela fazem os que nela vivem.

Em Angústia, o escritor alagoano nos mostra que o interesse pela dinâmica social perversa do país periférico não é contraditório com a potência da imaginação ficcional. Na verdade, pode ser o contrário: ao filtrar a realidade pelas lentes da subjetividade do narrador, Graciliano Ramos constrói um mundo próprio que, por contraste, ilumina de modo inesperado aspectos fundamentais do mundo “real”.

E não é justamente isso o que caracteriza um grande escritor? •

*Fábio Mascaro Querido é professor de Sociologia da Unicamp.


UMA CORUJA E UM GAVIÃO EM VERSOS

Os Filhos da Coruja, lançado ao mesmo tempo que Angústia, recupera um poema inédito, escrito à mão na década de 1920
por Ana Paula Sousa

A acompanhar o texto, que coube em quatro páginas, estão a ilustrações de Gustavo Magalhães

Os Filhos da Coruja (Baião, 36 págs., 66,90 reais), lançado pelo selo infantil da Todavia, nasce de um poema escrito à mão, com data de 5 de setembro de 1923, e assinado por J. Calisto – um dos muitos pseudônimos adotados por Graciliano Ramos no início da carreira.

A edição traz o poema no meio do livro, em um folheto laranja, de quatro páginas. As demais páginas são todas dedicadas às pinturas de Gustavo Magalhães, que explora, entre o realismo e certo toque expressionista, os personagens da fábula contada em verso: a coruja, seu compadre gavião e os três filhotes da coruja.

Segundo os editores, A Águia e o Mocho, de La Fontaine, foi a principal inspiração de Graciliano para essa história, na qual uma mãe tenta proteger seus pequenos filhotes.

O relato é forte e, para as crianças, a linguagem pode ser de difícil compreensão.

Graciliano trabalha com construções próximas ao mais antigo português usado em Portugal – “Não mos coma, senhor”, clama em um verso a coruja – e a própria moral do poema é complexa.

A publicação desse texto, até aqui inédito, gerou insatisfação em Ricardo Ramos Filho, neto de Graciliano.

Em entrevista ao jornalista Walter Porto, da Folha de S.Paulo, ele afirmou que o avô “se considerava um mau poeta” e que, certamente, ficaria insatisfeito em ver esses versos tornados públicos.

A editora, por outro lado, deixa impressa na contracapa uma visão diferente. Os Filhos da Coruja, lê-se, entrega o que há de melhor em Graciliano: “O caráter abertamente crítico, que revela aquilo que Antonio Candido (…) chamaria de ‘pesquisa progressiva da alma humana’”.

E é de fato impressionante ver como, nesses versos com menção à seca e à fome – sentida pelo gavião –, avizinha-se o que cresceria em Vidas Secas.


PEPITA DE OURO LIVRE NO MERCADO

Além da Todavia, Companhia das Letras, Record, a casa do escritor há décadas, e Rocco têm lançamentos previstos para 2024
por Ana Paula Sousa

Vidas Secas, que deu origem ao filme de Nelson Pereira dos Santos e é um best seller, sairá por três grandes editoras e compõe um box da Record – Imagem: MGM/IMS – Compre na Amazon

Por trás do projeto da Todavia de reedição da obra da Graciliano Ramos está uma lei: a Lei do Direito Autoral Brasileiro, segundo a qual a obra de um autor entra em domínio público no ano seguinte ao 70º aniversário de sua morte. No caso de Graciliano, o ano em que isso aconteceu foi este.

É comum que a entrada de uma obra importante em domínio público gere uma corrida no mercado editorial. Com Graciliano Ramos, nome gigante no panteão literário brasileiro, não poderia ser diferente.

E, nessa corrida, a Todavia saiu na frente, com o anúncio da Coleção Graciliano Ramos, inaugurada com o lançamento de Angústia.

A edição tomou por base um exemplar da quarta edição da José Olympio, com correções e anotações feitas pelo autor, em 1949, mas não totalmente incorporadas à edição de 1953, a última antes de sua morte.

Em abril, a editora lança Vidas Secas, o livro considerado não apenas sua obra-prima, mas, reconhecidamente, também seu best seller – segundo a reportagem da Folha de S.Paulo, foram 2 milhões de exemplares vendidos até hoje.

Tanto Vidas Secas quanto Angústia serão lançados também pela Companhia das Letras, em fevereiro, por meio do selo Penguim-Companhia – que trabalha com edições de mais baixo custo. Mais adiante, virão ainda São Bernardo e Memórias do Cárcere.

A Record, casa de Graciliano desde 1975 e que tem um contrato em vigor com a família – a quem seguirá pagando direitos autorais pelo menos até o fim desse contrato, em 2029 –, lançou um box com São Bernardo, Angústia e Vidas Secas.

Todos os volumes trazem, como atrativos, novos prefácios, notas de rodapé e textos críticos inéditos ou recuperados, como os de Antonio Candido presentes em Angústia.

Mas, para além dos grandes títulos, o mercado oferecerá uma série de outros volumes, tanto com textos inéditos do autor, como a compilação de relatórios por ele redigidos durante sua gestão como prefeito de Palmeira dos Índios (AL), quanto com derivações de sua literatura.

A Rocco, de acordo com reportagem do jornal O Globo, lançará, no segundo semestre, uma antologia de contos inspirados em Vidas Secas, que se tornou um grande filme, em 1963, pelas mãos de Nelson Pereira dos Santos.

O diretor, nome-farol do Cinema Novo, viria a adaptar também, em 1984, Memórias do Cárcere. O terceiro livro de Graciliano a ter uma memorável versão cinematográfica foi São ­Bernardo, adaptado por Leon Hirszman, em 1972.

Publicado na edição n° 1297 de CartaCapital, em 14 de fevereiro de 2024.

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