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O Rio de Clarice, passo a passo

Cultura

Ela nasceu na Ucrânia, ganhou da infância no Recife um sutil, delicioso sotaque nordestino, morou 16 anos fora do Brasil, vasculhou o Rio em inúmeros endereços, estudou na Tijuca, em Botafogo e em Copacabana, protegia na Praia Vermelha sua silhueta esplêndida dos olhares cobiçosos, trabalhou na Praça Mauá, foi chique no Catete, buscou inspiração no Jardim Botânico, adotou o Leme como seu ninho afetivo e faleceu num hospital público da Lagoa. 

Clarice Lispector viveu em plenitude, de 1935, quando chegou ao Rio, com 15 anos e pouco, até 1977, a fase esfuziante daquela que se tinha, com certa justiça, por Cidade Maravilhosa; e achou nela o fermento criativo para uma escrita que, no entanto, recusava a mera ilustração decorativa para exprimir sua dramaticidade alegórica. 

De sua janela madrugadora de onde descortinava a Praia do Leme e os morros da Babilônia e do Chapéu Mangueira, ela impregnou de paisagem, de colorido, de calor e de maresia sua crônica jornalística, e também sua ficção.

O Rio de Clarice, de Teresa Montero, editado este semestre, apresenta-se como “um passeio afetivo pela cidade”, e foi aí, ao pé da letra, que o livro começou a se materializar. Apresentada a Clarice aos 15 anos, quando a professora de português fez chegar às suas mãos Os Laços de Família, Teresa Montero passou a encontrar nela a seiva capaz de alimentar sua própria paixão pelo Rio.

Doutora em Letras pela PUC, há 28 anos segue os passos literários de Clarice e aos poucos decidiu focar na geografia afetiva da escritora, em visitas guiadas por sete do que ela chama de “caminhos claricianos”. 

Que convergem, afinal, para o bairro do Leme, de onde ela descortina o mundo, o seu mundo, às vezes tão estilhaçado. No Edifício Macedo (Rua Gustavo Macedo, 88, apartamento 701), Clarice, desquitada de Maury, viveu com os filhos Pedro e Paulo, ah, e com Ulisses, um silencioso vira-lata negro, de 1965 até a morte. Ulisses continua ao seu lado, em fidelidade imóvel, na escultura em bronze numa mureta do Caminho dos Pescadores, no Leme.

A sedutora paisagem do Rio fazia contraponto, para Clarice, às suas angústias interiores. Descobriu, na juventude, a Floresta da Tijuca, a maior floresta urbana do mundo. E mais tarde, dentro daquela Mata Atlântica original, o Açude da Solidão, antiga represa sujeita à poluição, transforma-se em lago, com uma ilhota no centro, pelo paisagista Roberto Burle Marx. 

A Feira de São Cristóvão a reconciliava com o Nordeste, tendo emprestado seu cenário para A Hora da Estrela, o último romance de Clarice. No Cosme Velho com tantas reminiscências de Machado de Assis, ela visitava aos domingos o amigo Augusto Rodrigues, cuja casa-ateliê trazia o número 1 daquele paraíso arquitetônico de velho Rio que é o Largo do Boticário. Ao Jardim Botânico, Clarice ia em busca da “vastidão que parecia acalmá-la” (do autobiográfico conto Amor, em Laços de Família, de 1960).

Nada mais repousante, porém, do que mergulhar, com a cumplicidade da escuridão, nos dramas alheios, de preferência os fictícios. A Clarice adulta ia quatro vezes por semana ao cinema. Frequentou o mitológico Paissandu e encantava-se com os nomes das casas: Cine Império, Rex, Capitólio, Paris Palace, Roxy, Caruso (o seu preferido, em Copacabana). 

O Edifício Santa Alice (Rua Marquês de Abrantes, 189) é um daqueles prédios clássicos do bairro do Flamengo. Abrigou, no apartamento 1.204, o casal Clarice e Maury Gurgel Valente, quando ele, diplomata de carreira, foi removido de seu posto em Berna, na Suíça, em junho de 1949.

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Ficariam por lá pouco mais de um ano. Em setembro de 1950, Maury foi destacado para uma missão extraordinária em Torquay, Inglaterra, sede da conferência sobre comércio internacional. O apartamento no Flamengo não perdeu em densidade literária. Quem teria ido morar lá foi o escritor e cronista Paulo Mendes Campos.

Antes disso, Clarice percorrera a trajetória urbana que era o sonho da classe média carioca. Quando o pai viúvo, com duas filhas, chegou ao Rio, em 1935, ele se instalou numa pequena vila arborizada na Tijuca (Rua Lúcio de Mendonça, 36 B, casa 3). Aos sobressaltos da adolescência veio juntar-se, em agosto de 1940. 

Começa sua romaria involuntária em direção à Zona Sul. Primeiro pouso: o Catete (Rua Silveira Martins, 76). Ganha da irmã mais velha, Tania, e do cunhado o quarto dos fundos da casa 11 da Vila Saavedra, de requinte déco, hoje tombada pelo Patrimônio.

Em ambiente recluso, Clarice poderia desenvolver o talento que já aflorara. Ali reside até 1943, quando se casa com seu colega de faculdade (de Direito) e futuro diplomata Maury Gurgel Valente. A vida de globe-trotter esperava pelo casal. Um ano depois, Clarice estaria em Nápoles, em meio aos escombros de uma guerra ainda em curso. 

No exterior, ela se ressentia da falta de praia e do sol, mas também do encontro banal, distraído, com o cotidiano de sua cidade amada: a padaria, a banca de jornal, os parques e as praças que alimentaram sua arte.

Separada de Maury Gurgel Valente em 1959, pôde voltar em definitivo para o Rio e pelos 18 anos seguintes dedicar-se ao difícil ofício de ser ela mesma, até que um câncer galopante a matou, em 1977, às vésperas de completar 57 anos.

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Nirlando Beirão é redator-chefe da revista CartaCapital

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