Cultura

O retorno do Asterix rebelde

O novo álbum marca o retorno ao velho espírito anti-imperialista da aldeia gaulesa

Garoto pega o novo álbum de Asterix em livraria de Paris, em 22 de outubro. A série está renovada
Garoto pega o novo álbum de Asterix em livraria de Paris, em 22 de outubro. A série está renovada
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O trigésimo-sexto álbum da série Asterix, O Papiro de César (Record, 48 páginas, R$ 30) merece ser festejado pelos fãs da série como um renascimento após uma longa Idade das Trevas. As últimas décadas foram frustrantes para quem riu e refletiu desde a infância com as aventuras dos guerreiros gauleses iniciadas em 1961.

Quando a morte do roteirista René Goscinny em 1977, em meio ao 24º álbum da série (Asterix entre os Belgas), deixou a série nas mãos do desenhista Albert Uderzo, as tramas perderam impacto e inteligência para se arriscar em inovações cada vez menos felizes e menos apropriadas aos personagens e seu cenário. 

Asterix e o Dia em que o Céu caiu, o 33º álbum, de 2005, foi o mais lamentável. Metade da edição encalhou. Para quem ainda tinha esperanças, foi o “pulo do tubarão”, como se diz de séries televisivas. Quebrou a temática e o estilo tradicional da série para envolver os heróis numa disparatada batalha entre alienígenas e tomar partido de forma tosca e preconceituosa por Walt Disney e os comics estadunidenses e contra os mangás e animes japoneses.

O 34º álbum, O Aniversário de Asterix e Obelix, de 2009, foi uma autocelebração caça-níqueis, na qual Uderzo se incluiu como personagem para reclamar das críticas cada vez mais merecidas. Em 2010, os gauleses foram emprestados para uma campanha publicitária do McDonald’s, que os fez festejar numa lanchonete. Foi praticamente uma rendição a César, se não como uma reedição do colaboracionismo de Vichy. Na França, essa cadeia de fast-food, rotineiramente atacada por manifestantes antiglobalização, é um desprezado símbolo do imperialismo.

Felizmente, Uderzo, nos anos seguintes, teve a humildade de reconhecer que Asterix e Obelix mereciam melhor sorte e confiá-los a uma nova equipe. O roteirista Jean-Yves Ferri e o desenhista Didier Conrad estrearam em 2013 com Asterix entre os Pictos. Foi uma obra simples e despretensiosa que repetiu um dos temas mais tradicionais da série: uma viagem serve de pretexto para fazer uma paródia amigável de um povo europeu representado por seus precursores da Antiguidade – no caso, os escoceses, com direito a monstro do lago Ness e referendo sobre a independência –, mas ao menos recuperou o clima das aventuras originais e foi um sucesso comercial.

Com O Papiro de César, a nova dupla se mostra também capaz de inovar, desenvolver ideias próprias e abordar temas atuais sem perder o espírito da era Goscinny, que em alguns de seus melhores álbuns, Asterix e o Domínio dos Deuses (nº 17, de 1971) e Obelix e Companhia (nº 23, de 1976) jogou com temas sociais e políticos modernos (gentrificação, sociedade de consumo, propaganda, capitalismo) e personagens de seu tempo (como Jacques Chirac) criando seus equivalentes romanos ou gauleses com muito humor e engenho.

Asterix - Assange Confoundtheirpolitics é inspirado em Assange (Foto: Reprodução)

Desta vez, o tema é mídia e internet em pleno Império Romano. O vilão é Bonus Promoplus (em inglês, Libellus Blockbustus) um publicitário e assessor de relações públicas a serviço do poder que convence César a tentar conquistar a aldeia irredutível com a força da propaganda política, assim como o economista de Obelix e Companhia propusera fazer o mesmo pela introdução da concorrência capitalista. Obras sobre as façanhas de César devem cumprir um papel análogo às loas de Hollywood e da CNN à grandeza dos Estados Unidos.

Acontece que um papiro com revelações comprometedoras sobre o imperador e suas conquistas se perde e Asterix e Obelix ajudam Doblepolemix (em inglês, Confoundtheirpolitix), um jornalista gaulês inspirado em Julian Assange de corpo e alma, cujo jornal por pouco não se chamou Wikilix, a encontrar e revelar a verdade.

Pombos-correios fazem o papel de e-mails, esquilos fazem twit e um legionário se chama Antivírus, aludindo ao século XXI sem quebrar o encanto do mundo de fantasia pseudoantigo. Os fãs da rebeldia de Asterix podem agora confiar em que a aldeia gaulesa continuará a resistir a César e que as prometidas próximas aventuras que abordarão a questão ambiental e a globalização não os decepcionarão.

CartaCapital

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