O Höröyá reafirma a grandeza rítmica africana

O grupo, reunião de brasileiros e senegaleses, lança seu terceiro disco

Horoya em show (Foto: Divulgação)

Horoya em show (Foto: Divulgação)

Cultura

Atribui-se ainda de forma tímida a enorme contribuição africana à musicalidade brasileira. O Höröyá é um desses importantes agentes para mostrar com didatismo e ousadia a relevância rítmica de origem africana no Brasil.

O seu terceiro disco, Pan Bras’Afree’Ke Vol.2, apresenta essa confluência reunindo dez brasileiros e três senegaleses. As criações são modernas, apesar da base musical conduzida por instrumentos seculares africanos.

Sua sonoridade contempla instrumentos tradicionais da África como ngoni, kora (ambos instrumentos de cordas), dunun, djembe, sabar, tama (todos tambores), balafon (tipo de xilofone parecido com a marimba) e krin (tronco oco que produz som), repercutindo junto com os instrumentos estabelecidos aqui, como atabaques, berimbaus e cuíca, além de guitarras, saxofones, baixo, trombones e trompetes.

O Höröyá foi fundado em São Paulo, em 2015, por André Piruka, compositor, arranjador e percussionista do grupo.

Das oito músicas instrumentais do CD, cinco delas tem mais de seis minutos, revelando peças musicais de um trabalho de pesquisa denso.

“Todas nossas músicas são assim. Ao vivo são ainda maiores. Não segue padrão. São outros caminhos explorados”, diz Piruka.

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O trabalho evoca os sons de origem africanas, desde o blues e o jazz, muito bem incorporados à cultura nos Estados Unidos, até as variáveis do samba, que, embora relatado na história como matriz musical brasileira, carece de unanimidade por aqui pela falta de conhecimento da formação cultural do País.

“Fazemos música e vivemos as culturas que difundimos. A interação África-Brasil é urgente e necessária”, destaca o líder do grupo. “Embora a presença histórica de África em nós seja estrutural, a relação contemporânea é distante, e faz-se necessária essa aproximação”.

Conheça o som do Höröyá:

O disco Pan Bras’Afree’Ke Vol.2 foi gravado em São Paulo, na capital do Mali, Bamako, e em Bobo Diulasso, em Burkina Faso.

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O novo CD tem a participação do percussionista Famoudou Konaté (Guiné), do tecladista Cheick Tidiane Seck (Mali), do violoncelista Jaques Morelembaum, do percussionista Gabi Guedes e do xamã amazônico Davi Kopenawa Yanomami.  O grupo já lançou os discos Höröyá (2016) e Pan Bras’Afree’Ke, Vol. 1 (2017).

“É o primeiro disco feito com tempo e ‘consciência’, com os processos de produção e composição mais maduros, além das grandes parcerias presentes. E este segue o conceito iniciado no disco anterior”, ressalta Piruka.

Höröyá é uma palavra de origem Mandeng, cultura do oeste da África da qual o trabalho do grupo se baseia, que significa “liberdade”, “autonomia”, “dignidade”.

“Esse trabalho que estou fazendo com o Höröyá é muito grande. Trata-se de algo que mudou minha vida. Com o Höröyá, a gente consegue viver e desenvolver uma nova forma de tocar”, diz Aziz Mbaye, um dos senegaleses integrantes da banda.

A execução da música afro-brasileira não significa, por vezes, somente um tratado de resgate e compromisso histórico. Torna-se essencial entender que o som produzido dessa união nada mais é do que diálogo lúdico intrínseco em uma sociedade formada por negros. Ele é natural, vivo e perene. E acima de tudo muito rico.

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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